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TRABALHANDO A TERRA

A mídia traz a notícia (já esperada) de que no último trimestre o Brasil encolheu, com o PIB (Produto Interno Bruto) recuando 0,2% - sendo que o setor de indústrias caiu 0,3% e o de serviços, 0,7%. Diminuiram também o consumo das famílias e os investimentos. Literalmente, a salvação da lavoura foi a agropecuária, que cresceu 4,7%.

Imagens remetem a enormes plantações, sobretudo as de soja e de cana de açúcar. Novas fronteiras agrícolas são mostradas, como a do Vale do Gurguéia (PI), onde campos cultivados a perder de vista contrastam com um céu azul, de cartão postal. Portentosas, colheitadeiras imensas desfilam com a elegância de camelos em caravana; quase é possível sentir o cheiro das folhas cortadas, da terra revolvida, do óleo dos motores.

Como complemento indefectível, seguem-se críticas às deficiências de armazenamento e transporte, incapazes de atender à demanda das riquezas geradas por quem trabalha na terra. Percentual elevado dos grãos produzidos deteriora-se e perde-se nos silos e armazéns insuficientes, nas estradas esburacadas, nos portos antiquados e mal aparelhados.

Caminhoneiros são entrevistados, agropecuaristas reclamam da inoperância dos administradores e políticos, dirigentes de órgãos públicos tentam explicar o inexplicável. No interior das fazendas, as safras crescem e a produtividade  aumenta: planta-se mais e colhe-se mais na mesma área plantada. Da porteira para dentro, há avanços tecnicamente relevantes e estatisticamente comprovados. Do lado de fora, naquilo que depende do poder público,continuam os entraves. 

Ano após ano, parte da colheita se estraga, grãos são desperdiçados, comida é jogada fora – enquanto há bilhões de famintos no mundo, dos quais uma parcela está no Brasil.

De igual modo, nas fazendas de criação e abate de gado, os progressos da ciência e da tecnologia chegaram para ficar. Nosso “boi verde” tem uma história fascinante, de pioneirismo, audácia empresarial e pesquisa científica de alto nível. Avança a exportação de carne – melhor dizendo, de proteína animal. E tende a crescer.

Claro está que o chamado agronegócio é somente uma das faces do chamado setor primário da nossa economia. No qual se inserem milhões de micros, pequenos e médios produtores rurais, que geram empregos e renda, pois abastecem o mercado interno com produtos que vão do feijão e da mandioca, às frutas, hortaliças e verduras, indispensáveis na mesa dos brasileiros.

Esses pequenos agricultores - que, em Goiás, chamam-se a si mesmos de “roceiros” – são parte importante do Brasil mais autêntico e mais profundo: aquele que trabalha a terra e a ela se mantém fiel. Muitos deles receberam por herança sítios ou fazendolas, minifúndios que resultaram da divisão de extensas propriedades mediante partilha entre herdeiros numerosos. Outros adquiriram chácaras como área de lazer, próximas às cidades, para desfrutá-las nos fins de semana. E há também aqueles que se tornaram proprietários através de assentamentos rurais, dentro de programas da reforma agrária que, há décadas, vem sendo conduzido pelo INCRA, criado durante o período de governos militares. 

Descendente que sou de fazendeiros e criadores, vejo com interesse as mudanças que acontecem na estrutura fundiária do país, ao lado dos progressos havidos na agricultura e na pecuária. É tema que eu gostaria de conhecer mais a fundo: como e desde qual momento o setor agropecuário assumiu a necessidade de modernizar-se e partiu para fazê-lo. Visto pelos setores urbanos da sociedade como ignorante, retrógrado e apegado a tradições arcaicas, o homem do campo saiu na frente: buscou e tornou efetiva uma revolução fantástica no campo.

Sabe-se do papel desempenhado pela EMBRAPA nesse processo, a par de outros institutos de pesquisa, públicos e privados. Entretanto, sem a adesão pessoal de cada proprietário rural, agricultor ou roceiro, novos conhecimentos cairiam em terreno estéril – mas não foi o que aconteceu. Exatamente onde se julgava estarem os indivíduos mais avessos às novidades, mudanças às vezes radicais foram bem recebidas, praticadas e estimuladas. O setor agropecuário cresceu e continua a crescer, enquanto regridem os setores de “indústria” e “serviços” que seriam mais “modernos” e mais “adiantados”.

Com um detalhe igualmente intrigante: agropecuaristas e proprietários rurais são sempre hostilizados pela mídia, vistos como herdeiros e sucessores dos temíveis “coronéis” do passado, estes também  demonizados como protótipos da truculência e da violência. Mas essa é outra história...

 

(publicado no jornal "Diário da Manhã de 02 de junho de 2015)