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POLÍTICOS E MENUS

Recentemente, foram divulgados os requintados menus que seriam contratados pela Assembléia Legislativa de Goiás, com vistas a bem alimentar suas excelências no dia-a-dia e recepcionar visitantes em momentos de gala. Ingredientes e pratos sofisticados, de marca internacional, perfilam-se ao lado de releituras gastronômicas com sotaque brasileiro - como o “mini sonho de doce de leite”, o “croissant de goiabada” e a aletria em versão “cabelinho de anjo”.

Sabe-se que a política real – aquela que ganha eleições – é feita em grande parte no contato direto entre o candidato e o eleitor. Nem mesmo a introdução de mensagens midiáticas, boladas por marqueteiros e transmitidas pelos mais modernos meios de comunicação diminuiu a importância desse contato; o sorriso, o olho no olho, a tapinha nas costas e os apertos de mão continuam insubstituíveis para a decisão das urnas. Acessibilidade e humildade são virtudes que se esperam dos postulantes a cargos – mesmo os mais graduados que, a cada eleição, deixam o conforto de seus gabinetes e descem à planície, para disputar a preferência do povo.

Política está sempre relacionada às falas, às propostas, às mensagens e às associações feitas em torno de idéias, mas também de interesses. Não é sem motivo que se forjou a expressão ”campanha eleitoral” para o lapso de tempo em que, definidos os candidatos, partem eles para a disputa do voto, um a um, mediante a conquista de corações e mentes.

Costumo dizer que ser político é viver na incerteza, encarando corridas de obstáculos – alguns previsíveis, outros desconhecidos e incontroláveis. Não partilho o menosprezo geral que parece impregnar a opinião de boa parte dos brasileiros em relação aos políticos: se é ruim com eles, pior seria sem eles, como nos regimes de exceção.

Nada mais cansativo do que a rotina de candidatos, percorrendo ruas, bairros, estradas e horizontes em busca do sempre vasqueiro voto do eleitor.

Há relatos ótimos sobre campanhas políticas de antigamente – como o de José Feliciano Ferreira, candidato ao governo de Goiás na década de 1950. Depois de ressaltar que todas as despesas da campanha foram custeadas “pela minha família”, queixa-se ele das péssimas estradas da época, obrigando-o a “usar o avião, como única saída” para visitar os municípios do interior. Os aeroportos sempre ficavam distantes das cidades, pelo que “tínhamos de ir a pé”. E conclui: “Foi por isso que gastamos três pares de botina”.

Nos comícios, não havia banda de música, nem cantores profissionais para animar os eleitores. Aos políticos da região cabia entretê-los, até chegar a caravana de visitantes. Seguiam-se discursos, rojões, aplausos; às vezes, havia brigas entre os partidários de diferentes facções. Tudo muito animado, mas, como afirma judiciosamente José Feliciano: “Em campanha política não se pode desprezar três elementos: gasolina, pinga e foguetes”.

Noite adentro, prosseguia a programação – que sempre incluía um banquete, cujo menu caprichava na maionese à  base de batata, galinhada e pernil ou lombinho de porco com farofa. Seguia-se um baile, até a madrugada. Mas os candidatos não buscavam moças bonitas para festar, como explica algo desconsolado o depoente: “Dançávamos com as velhas, as líderes políticas que nos rendiam votos.”

Como se vê, vai longa a distância entre os “banquetes” à base de maionese servidos aos políticos na década de 1950 e os sofisticados menus de hoje – em boa hora descartados pelo presidente da Assembléia Legislativa Estadual.  O que me leva – diante da enumeração de tais delícias - a parafrasear o pioneiro da crônica social carioca no início do século XX, o jornalista Figueiredo Pimentel, e afirmar: “Goiás civiliza-se!”