Publicações

Á SOMBRA DO ENGENHO

A casa grande com sua imponência peculiar, típica dos antigos engenhos de banguês,   ficanda por entre os robustos e viçosos arvoredos que ousam adornar o frontispício daquele monumento arquitetônico, erigido em paragens do atual município de Chã Preta. O entardecer cobre de uma pálida e tênue claridade seus alpendres e escadarias, mergulhando-a numa tristeza e pretérita lembrança. O silêncio sepulcral arrebata os sons de aves que buscam nos galhos das vestustas árvores lugar pra pernoitarem.  As largas paredes de tijolos dispostos numa simetria descomunal, contornadas por molduras de argamassa, todas caiadas, encravam em seu interior janelas cerradas, em claros tons azulados e embranquecidos.  No cume da mesma o ícone desenhado em azulejo português, chama a atenção pelos detalhes e suntuosidade – eis que nele é retratada a figura da mãe de Deus- numa lídima demonstração de piedade e religiosidade católica.  E ainda neste cenário ruralista e campesino, os ventos ululantes persistem em balançar a velha cadeira, como se o seu senhor estivesse em seu assento, e as colunas em formato de círculos dão sustentação as redes, tecidas com os finíssimos cipós entrelaçados entre si.

No interior do palacete senhorial, na penumbra da sala principal, o oratório disposto no canto sob a tremula luz dos castiçais elevam os pensamentos ao transcendental, representado pelas imagens e rosários em câmara ardente. E num olhar contemplativo, o sentimento de luto transpassa, como que pela fresta da porta, igualmente na cerimônia de exéquias, a lembrança e pesar sobressaem.  Enquanto no átrio da capela a certeza da perenidade de uma época é  refletida no epitáfio das lápides em mámore de carrara fincadas nas laterais do templo, tornando este um campo santo que guarda em seu seio os restos mortais do clã. Sob o orago perpértuo do santo patronímico daquela comuna nativista e bucólica. O repicar do sino no alto da torre é mera lembrança, quando das horas mornas do cair da tarde, sob a descompassada ladainha nas orações das vésperas e no ângelus, sempre rezadas pelas sinhás e lacaios, silenciou-se feito os que jazem em suas rasas covas, numa metáfora naturalista do sol, que desaparece no horizonte, dando lugar  ao entardecer, a noite, o breu.

Os alambiques exalando o cheiro da garapa que surgia entre as moendas e bagaços da cana de açúcar, sucumbiu entre as ferrugens, tornando doravante moradia de anfíbios e não menos pálidas lagartixas que ao simples barulho correm de um lado para o outro. O estalar dos chicotes sob os lombos das mulas emudeceu. Estas que outrora cambeteavam sobre si incontáveis feixes de canas, enfim tomaram um descanso. Os tabuleiros cobertos de melaço, serviam de depósitos de doces  e deliciosas rapaduras que servia como adoçante dos chás e cafés, quando não, alimentava o filho do senhor, que  descalço se  misturava às outras crianças, brincando no eito e bagaceira do engenho de banguê e se banhando nas águas mansas do velho Paraíba com suas manias de curvas.

A fumaça azinzentada, saída do fundo dos bueiros do engenho prenunciava uma abundante safra, elevando às alturas  a matéria consumida já em seu estado gasoso. E a léguas de distância aquele sinal era perceptível pelos viajantes que cruzavam aquelas plagas. Hoje o escombro e o amontoado de tijolos batidos testemunham amiúde o pretérito de apogeu e glórias, estas sucumbidas pela impiedade do tempo que ousa tombar o que outrora fora o símbolo de poder econômico e político.

E o reisado se apresentava no chão de terra, sob a batuta do mestre que com o apito regia os passos cadenciados dos dançantes, iluminados  pelo lampião  que fumegava no esteio da casa grande exalando  o  cheiro do querosene. Os versos brejeiros do poeta Osório de Linhares, ainda que sobre sua Viçosa,  sintetiza com fidelidade e perfeita verossimilhança a estrutura fundiária e organizacional dos antigos engenhos chãpretenses, cujos nomes jamais serão olvidados por aqueles que protagonizaram um tempo e que hoje vivem apenas à sua sombra [Bonsucesso, Solidão, Bonito, Floresta, Boa Esperança, Recanto, Serra da Imbira, Monte Verde, Erva de Rato e São Pedro] in verbis:

“Numa paz comovente e patriarcal,

Bem ali ao pé daquela capoeira,

É que se erguia a casa colonial

Do português José Martins Ferreira.

 

Mais adiante o alambique, a bolandeira,

A senzala dos negros e o curral.

Finalmente, o engenho, a bagaceira,

Quase rente do grande canavial.

 

E evoco toda a gloria que passou,

Todo trabalho insano, nobre, ousado,

Do legendário avô do meu avô! (...)”

*Escritor, membro da Academia Alagoana de Cultura, Academia de Letras e Artes do Nordeste Brasileiro, Comissão Alagoana de Folclore e sócio do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte.