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TANTOS ANOS V

Não poderia encerrar esse mergulho na infância – tantos,tantos anos atrás - sem lembrar as devoções e rezas que se faziam na capelinha da Fazenda Santa Cruz. Minha avó e suas filhas – inclusive minha mãe - eram profundamente religiosas, educadas que foram em colégio de freiras. Meu avô, com formação humanística adquirida na Europa – onde estudou – tinha convicções agnósticas, mas aceitava de bom grado o que seria a “carolice” da esposa e das filhas. Afinal, acreditava-se que a religião era necessária para as mulheres, as crianças e os empregados; aos homens, cabia prestigiá-la como veículo de civilização e disciplina. Em um único ponto ele se mantinha intransigente: não permitia que se confessassem com o pároco da cidadezinha próxima, notoriamente amasiado com a mãe de seus numerosos “afilhados”.

Vivia-se a religião católica no dia-a-dia, entre orações matinais e novenas à noite, quando se celebravam os padroeiros: São Sebastião, que a todos protegia da peste, da fome e da guerra; Nossa Senhora das Vitórias, que iria bem conduzir-nos entre as procelas da vida; Santa Bárbara, que afastava as tormentas, os raios e os trovões.

No mês de maio, celebrava-se a Mãe de Deus; em junho, o Coração de Jesus. Era também o tempo das festas juninas. Na capela, havia um lindo quadro de São João, com o cordeirinho no colo; outro - a visitação de Maria a Santa Isabel - era uma tela a óleo, cópia italiana do original de Leonardo da Vinci, em moldura dourada que brilhava à luz das velas. A Madona da Cadeira também nos olhava carinhosamente, com o gorducho Infante no colo – e pareciam tão próximos e familiares!

No terreiro da frente preparava-se o bumba-meu-boi que seria encenado na noite festiva, quando havia bandeirolas e pau de sebo. O sino tocava, os moradores e empregados vinham participar; rezava-se, erguia-se o mastro, acendiam-se as fogueiras. O auto de Pai Francisco, Catirina e o boi provocava risadas. Nós, crianças, tínhamos um boizinho feito com armação de madeira e pano colorido, sob o qual se viam as canelas finas de um moleque que saltitava, enquanto aplaudíamos e soltávamos fogos. Estrelinhas, traques, rodinhas, alguns foguetes e rojões eram trazidos por meu pai, que vinha da cidade para compartilhar conosco aqueles momentos.

Fagulhas subiam ao céu, na noite escura, com as estrelas luzindo no alto. Servia-se garapa, bolos “de goma” e pés de moleque; quando a fogueira virava braseiro, assávamos milho verde e batata doce. As moças faziam sortes que revelariam os futuros consortes. Infalível – dizia-se - era enfiar uma faca virgem num caule de bananeira; ao retirá-la na manhã seguinte, estariam desenhadas na lâmina as iniciais do príncipe encantado. Quando uma das minhas tias festejou as letras que dizia ter visto, procurei vê-las também; mas enxerguei somente borrões indistintos. Ela estava enganada ou enganava-se a si mesma, pois faleceu octogenária e solteira.

No Natal, os preparativos começavam muitos dias antes. Limpava-se toda a capela, inclusive os bicos de gás de carbureto que a iluminavam, a chama azulada bruxoleando dentro do lampadário de Murano, em forma de tulipa. Levados dentro de uma bacia esmaltada para a beira do riacho, os castiçais de prata eram escrupulosamente areados. Na mesma água límpida, lavava-se a camisa rendada do Menino Jesus. Na Noite Santa, Ele repousava nuzinho na manjedoura, no centro da pequena gruta de “biscuit” que uma redoma de cristal protegia.  Seria vestido por Teté, minha tia e madrinha, que cuidava da capela, suas alfaias e ornamentos.

Um pouco antes da meia noite, o sino tocava, reverberando ao longe o convite para a celebração. Acendiam-se as velas; familiares e serviçais uniam-se nas preces, a voz de contralto de minha avó sobrepairando às demais, quando entoava o “Glória in excelsis Deo”. Era lida a passagem do Evangelho sobre o nascimento do Menino Jesus; agradeciam-se as bênçãos recebidas, rezava-se por parentes e amigos distantes ou falecidos.

Seguiam-se cumprimentos e votos de feliz Natal. Na ceia, a mesa era arrumada com louças finas, copos e talheres condizentes. Nas fruteiras rendilhadas, havia arranjos de frutas e flores. Servia-se chá com bolos e rabanadas – o peru e o vinho ficavam para o almoço do dia 25. Entre os adultos, trocavam-se pequenas lembranças; às crianças, dizia-se que deveriam recolher-se, pois durante a noite Papai Noel deixaria presentes para quem tivesse sido bem comportado e obediente. Nem era preciso insistir: acostumada a dormir cedo, eu já cochilara vergonhosamente na capela e, mal me deitava, o sono vinha.

No dia-a-dia, a capelinha de entalhes neo-clássicos era carinhosamente enfeitada. Nos jarros, sempre havia flores frescas e perfumadas: jasmins, rosas, lírios de São José. Os paramentos ficavam guardados dentro do altar, assim como o missal, o cálice e a patena usados nas celebrações. Havia uma casula branca, bordada com fios de ouro, que tinha nas costas, em relevo, a efígie do Cordeiro Pascal - era linda! Na minha imaginação de menina, ficava a fantasiar Jesus nos campos da Judéia a pastorear carneirinhos, os quais imaginava roliços, a branca lã espessa, como os que ruminavam no pátio da fazenda.

Como católicos praticantes, recebíamos as publicações da Igreja e seguíamos à risca as recomendações emanadas da hierarquia eclesiástica. O Papa era referido sempre como “Santo Padre”. O bispo local, reverenciado como “Senhor Bispo”, de quando em vez passava alguns dias de férias no casarão hospitaleiro de meus avós.

Lembro-me da visita de D. José Delgado, arcebispo do Maranhão, anunciada com antecedência, como de praxe naqueles tempos de comunicação lenta e transportes difíceis. A notícia veio em uma carta, que foi entregue pelo seu Pedro Correio – o diligente mensageiro que recolhia a correspondência na agência da cidade e a trazia em “malas”, sacolas de lona impermeável conduzidas na garupa de um jumentinho.

 

(publicado no jornal "Diário da Manhã" de Goiânia em 28 de julho de 2015)