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TANTOS ANOS VI

Receber hóspedes “de cerimônia” – como então se dizia – era complicado e dava muito trabalho. Sendo grande o grupo, havia que providenciar os alojamentos segundo a hierarquia consagrada pela tradição. Assim é que para o arcebispo D. José Delgado foi destinado o “quarto do padre”, no corpo principal da casa. No meio do cômodo, uma rede branca, feita em tear manual; engastada entre as folhas da janela de madeira, a cômoda refletia-se no espelho do toalete. No canto, uma cama de molas, pois talvez o Senhor Bispo a preferisse – com lençóis e fronhas bordadas, e toalhas de mão em linho com longas franjas trançadas. Ao lado, o criado-mudo; em frente, um lavatório com tampo de mármore, bacia, jarra e saboneteira em porcelana decorada.  Afixados nas paredes, cabides torneados. O mobiliário completava-se com uma cadeira de balanço e bancos para as malas. Não faltava um balde esmaltado para as águas servidas, nem flores em um jarro.

O vigário-coadjutor ficaria no quarto ao lado, um pouco menor; as irmãzinhas que compunham a comitiva iriam para o corredor do puxado. Como havia muita gente e o casarão estava cheio, ao sacristão coube a companhia dos empregados da loja, no pátio, além das casas do engenho.

Paralelamente, era preciso cuidar da alimentação. E como tudo quanto se consumia era produzido ali mesmo, as providências iniciais incluíam sacrificar animais – bois, carneiros, capões, perus, algumas caças. Colhiam-se frutas com que se faziam doces; reviam-se antigas receitas de bolos, que levavam dúzias de ovos e libras de manteiga. Na despensa, em altas compoteiras Luis XV, eram vertidas compotas de bacuri, doces de jaca, laranja, caju e goiaba. A queijeira de cristal recebia queijo do Reino, que eu, esperançosa de ganhar um pedaço, ajudava a retirar das meias-luas de metal vermelho.

Minha avó e as tias corriam o dia todo, na azáfama de bem receber os hóspedes. Aos homens competia garantir a iluminação e a água corrente. Revisados o gasômetro, lavavam-se as mangas de cristal rendilhado que protegiam os bicos de gás. Os fotomobiles – espécie de luminárias de opalina – recebiam velas novas; lampiões de querosene, castiçais, veleiras e lamparinas eram distribuído pelos muitos cômodos, de maneira a propiciar o conforto possível.

Um burro – motor movido a óleo – jogava água do riacho na imensa caixa de ferro que ficava no terreiro. Às vezes, o burro enguiçava – e só havia uma pessoa que o fazia funcionar a contento, o Chico Vaz, primo de minha avó e mecânico intuitivo, mas dado a porres homéricos.  Foi advertido de que se comedisse, pois que, para tão ilustres hóspedes não poderia faltar água.

Na parte litúrgica, também havia muito a fazer: ver        quantas crianças seriam batizadas, quantos crismas ministrados, quantos casamentos abençoados. De permeio, Teté preparava meninos e meninas para a primeira comunhão: reunia-os na varanda do jardim e, catecismo à mão, ensinava a doutrina em voz alta e cantada:

- És cristão?

- Sim. Sou cristão pela graça de Deus.

- O que é ser cristão? ... E assim por diante.

Hoje, eu me indago se aquelas crianças entendiam o que eram obrigadas a decorar, sob o olhar enérgico da mestra: o mistério da Santíssima Trindade; a virgindade de Maria Santíssima; a transubstanciação da hóstia consagrada. Certo é que todos compareciam à catequese, limpinhos, alguns ainda com os cabelos molhados do banho recente. Entre esquecimentos e frases gaguejadas, eram finalmente declarados aptos a receber a comunhão. Os meninos ganhavam roupa nova, branca, além da vela litúrgica – que as meninas também recebiam, assim como um vestido ( igualmente branco) e um véu de filó, com grinalda de florzinhas.

Ficava-se de ouvidos atentos ao rumor do carro que traria os visitantes. Ei-lo que chega e, num arranco, sobe a rampa e estaciona no terreiro da frente. Na ponta da varanda, o sino repica em boas vindas. D. José é o primeiro a saltar: alto, corpulento, rosto cheio, sorriso simpático; em seguida, descem os acompanhantes. Na recepção cordial servem-se licores, fala-se da viagem e de amigos comuns. Depois de breve descanso, a visita à capela – centro da vida da família e, agora, daquela pequena comunidade engastada no sertão maranhense, tão longe e, no entanto, tão perto da comunhão da Igreja.

Seguiram-se dias de animação geral; para nós, crianças, tudo era novidade e curiosidade.  A maior de todas: queríamos saber se o Senhor Bispo tomava banho no riacho; e – se tomava – se o fazia nu ou vestido; e se estivesse vestido, que roupa usaria? A mais afoita das meninas prontificou-se a espiar, escondendo-se no mato próximo ao banheiro dos homens, recanto fechado sobre o riacho. Ficamos tentadas a aceitar; mas alguém mais pudente lembrou que teríamos de nos confessar - e como confessar pecado de tal gravidade?

D. José sorria com indulgência, intuindo nossa curiosidade e irreverência. Perguntava por nossos estudos e planos para o futuro. Um dia, quis saber quantos anos eu tinha; respondi e perguntei qual a idade dele. “Poderia ser seu avô”, ele disse. Não acreditei. D. José parecia vender saúde; meu avozinho querido morrera, há muitos anos, depois de tanto sofrer, tão magro e tão velhinho!

Na celebração festiva do domingo, seriam ministrados os sacramentos; já no sábado, havia filas de penitentes, aguardando a vez de confessar-se. Eu gostava de ajudar Teté, preparando o altar, enchendo de água a jarra dos batizados, trocando as velas nos candelabros. Depois da missa, para os meninos e meninas da primeira comunhão haveria bolos e chocolate quente, que todos nós adorávamos, a despeito do calor.

Na mesa dos adultos, discursos: oh! os intermináveis discursos da oratória nordestina!  Meus tios esmeravam-se. Os temas eram recorrentes: a satisfação de receber os hóspedes, a esperança de que fosse duradoura a união entre amigos e parentes, a saudade dos que já tinham partido. Havia lágrimas, a emoção estropiando as palavras.

Lembranças de um outro mundo que se foi mas que, não obstante, jamais se extinguiu inteiramente. Indeléveis ficaram as fisionomias, as vozes, os cheiros, os espaços: a velha casa de rótulas azuis; a capela, o jardim, as varandas... E, tantos anos depois, é-me dada a felicidade de reviver tudo isso, na nova Santa Cruz, erguida no planalto goiano, tendo em frente o vale que se agasalha sob as bênçãos do Divino Pai Eterno.

A varanda da frente abre-se para o crepúsculo; o horizonte tinge-se de vermelho que esmaece em tons de ocre, cinza e azul. Mais que tudo, aqui está a família reunida. Como não agradecer a Deus?

(publicado no jornal "Diário da Manhã" de Goiânia em 04 de agosto de 2015)