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POR QUE NÃO A UTOPIA?

No fim da Idade Média, teve início na Itália o Renascimento, que marcou o começo dos tempos modernos. Filósofos, teólogos, artistas, historiadores e escritores – os humanistas – privilegiaram o conhecimento das chamadas Humanidades, pelo estudo da cultura clássica e dos autores do mundo antigo.

Revelou-se um mundo esquecido -  ou sonegado - de civilização superior, tanto do ponto de vista de liberdade política e intelectual, como de desenvolvimento literário, social e artístico. Foi uma revolução cultural: na filologia, o humanismo deu início à crítica; na história, abandonou as peias do cristianismo medieval; na seara das religiões, introduziu o estudo comparativo dos vários sistemas e viabilizou novas interpretações da Bíblia; na literatura, retomou os moldes clássicos, gregos e latinos.

Dentre os grandes humanistas, lembremos Erasmo de Rotterdam, na Holanda e Thomas Morus, na Inglaterra. O primeiro, movido por insaciável sede de saber, percorreu vários países europeus. Vivendo em um tempo em que viajar era difícil e penoso, Erasmo foi estudar grego na Inglaterra, em Oxford, onde se tornou amigo de Morus.  Sempre em busca de conhecimentos, morou também em Paris, onde se bacharelou em teologia, e visitou a Itália, centro irradiador do Renascimento.

Nos intervalos de suas andanças, Erasmo organizou e publicou edições de autores clássicos. Escreveu livros de teologia  e de filosofia, sendo o mais conhecido o “Encomium Moriae”  - “Elogio da Loucura”, sátira ao pedantismo e dogmatismo dos teólogos, bem como à ignorância e credulidade das massas.

Thomas Morus era homem poderoso e intelectual de renome. Manteve correspondência com Erasmo, que fez publicar o livro do amigo: “De optima Republicae statu, deque nova insula Utopia”, escrito em latim, língua universal daquele tempo. Nele, Morus retratou uma sociedade ideal, que existiria na ilha imaginária da Utopia; exercitou igualmente o espírito de crítica e apontou os abusos presentes na sociedade do seu tempo: a pobreza injusta, a riqueza imerecida, as punições drásticas, a mortandade insensata das guerras.

Em “Utopia”, na sociedade imaginada por Morus – inspirado nas idéias de Platão - os homens teriam os bens em comum, trabalhariam seis horas por dia e disporiam de tempo para as atividades intelectuais e a fruição da vida. Seriam cultivadas as virtudes pagãs da sabedoria, da moderação, da fortaleza e da justiça; e haveria tolerância para todos os credos. Deixariam de existir duas instituições onipresentes na Europa do século XVI: os conventos e as guerras. Detalhe curioso e elucidativo - ao invés do ouro, o metal precioso seria o ferro, “porque é útil”.

Com tais idéias e por motivos outros, Thomas Morus caiu em desgraça perante o soberano inglês, Henrique VIII.  Preso e condenado à morte, foi decapitado na Torre de Londres (1535). Por essa época, ao Brasil chegavam expedições de reconhecimento, enviadas pela Coroa portuguesa; de igual modo, aconteciam incursões de piratas franceses, em busca de pau para tinturaria. Os índios ainda conservavam a autenticidade primitiva e tudo parecia inocência, nas terras de Pindorama.

Na Europa, contudo, os tempos eram de turbulência. Logo viria a Reforma e sua antítese, a Contra – Reforma; as guerras de religião reacenderiam o fanatismo, postergando para dias incertos a utopia da tolerância e da justiça.

Cinco séculos depois, aqui estamos nós, brasileiros – herdeiros um tanto periféricos da civilização ocidental - perdidos entre escândalos, roubalheiras e desilusões. De minha parte, creio que sou dos que menos sofrem, diante das revelações que a mídia nos traz em tempo real. Não me sinto frustrada com o PT, nem com o (des)governo de D. Dilma. Jamais acreditei neles e nunca esperei seriedade e competência de um governo que tem por base a mediocridade. Confesso, entretanto, que errei no meu julgamento: jamais imaginei que as expropriações praticadas pelos companheiros chegassem a tantos milhões - ou seriam bilhões de reais?

Há um tédio no ar. Certo cansaço dolorido que vem da repetição de meias verdades e mentiras, ditas pelos protagonistas desse fantástico show que nos azucrina os dias, como se todos nós – eleitores e cidadãos – fôssemos um rebanho de tolos, fáceis de enganar.

Prefiro sonhar, tecer minha própria utopia, ilha da fantasia onde todos tenham, efetivamente, acesso à educação de boa qualidade, que os instrumentalize para a vida; em que se cuide do futuro, priorizando as crianças, sem demagogia, nem enganação. Um país em que os dirigentes quando falarem nos deixem tranqüilos, sem essa angústia que se somatiza no estômago, diante de frases sem nexo, palavras sem rumo e agressões à lógica e à gramática.

E mais: na minha utopia, todos serão incentivados a trabalhar e, de fato, trabalharão; com orgulhosa independência, recusarão esmolas que se transmudam em moeda de troca, o dinheiro público comprando votos, num arremedo de democracia aviltada.

Há uma expressão que bem traduz o que está acontecendo: vivemos o tempo do “bracinho curto”, ou seja, do pequeno, do medíocre, do mais ou menos. A nova elite que aí está há doze anos não consegue divisar as estrelas, nem é capaz de apreciar seus halos de luz.

Na minha Utopia, sonho com administradores competentes: será pedir muito? Sonho com dirigentes honestos: será demais? Sonho com políticos que ultrapassem o aqui e agora – e que tenham a coragem de visar além do imediato.

Sonhar não faz mal. Quem sabe, em algum lugar deste País, a tessitura do destino está a traçar os caminhos que nos levarão à sociedade mais justa que desejamos e esperamos há tantos anos – e que está na raiz da esperança, que teima em sobreviver. Tantos séculos depois de Thomas Morus, volta a “Utopia” com sua feição de denúncia e de advertência: é preciso romper com as algemas do pensamento único, da mediocridade encastelada, da intolerância dogmática. É preciso deixar de lado a ganância do ouro – e valorizar o ferro, que ainda é a matéria prima dos instrumentos de trabalho.

(publicado no jornal "Diário da Manhã" de Goiânia em 18 de agosto de 2015)