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NA CLÍNIICA

Que me perdoem os esculápios, mas detesto ir a médico. É alguma coisa que vem lá de traz, que me faz tremer os ossos e apavora o coração. Talvez pelo fato de que tive uma infância saudável, quase sem tomar remédios.  Nada além de chás caseiros, gotas de iodo nas arranhaduras e esfolamentos, Maravilha Curativa para galos – e, sim, Vinho Reconstituinte Silva Araújo, em um cálice, misturado à execranda Emulsão de Scott.

Havia todo um aparato que cercava a aplicação de injeções. As seringas de vidro desmontáveis ficavam guardadas em uma caixinha de ferro, junto com agulhas que podiam ser mais ou menos rombudas. Para esterilizá-las, armava-se um pequeno fogareiro na própria tampa da geringonça; a chama azulada do álcool tremulava por alguns minutos, até extinguir-se. Com o “aparelho” ainda quente, serrava-se a ponta da ampola e aspirava-se com cuidado o líquido. Era assustador!

Eu teria nove anos e lembro-me do pediatra entrando no meu quarto, acompanhado de minha mãe e trazendo pronta uma injeção para aplicar-me – a primeira em minha vida! Quando entendi o que estava acontecendo, comecei a gritar: não, não deixaria que me impingissem aquele suplício! E o Dr. Diógenes sorrindo, dizendo que não ia doer, era só uma picadinha. Comecei a debater-me, dei chutes no ar. Foi pior: vieram outros adultos que me seguraram à força, um horror. Apelei para meu vocabulário profano: xinguei o médico de diabo, gordo, filho do cão... Não adiantou! E nem doeu tanto - mas continuei a chorar com pena de mim mesma.

Com o passar dos anos, aprendi, claro, a controlar-me diante do inevitável: médicos, hospitais, exames, exames, exames... Há máquinas e equipamentos que me parecem monstros pré-históricos. Bem sei que representam enormes avanços para o diagnóstico e o tratamento dos males que nos afligem a nós, desterrados filhos de Eva neste vale de lágrimas. Mas confesso que me atemorizam – e quanto!

Sendo assim, é sempre com mau humor que me disponho a enfrentar clínicas e consultórios. De cara, sinto a pressão arterial subir – fazer o que? Procuro distrair-me, lembrar fatos passados (como o que vim de narrar), desligar do barulho da TV, das pessoas conversando prazerosamente sobre doenças, dos telefones que tocam. São multidões que aguardam atendimento, com plano de saúde ou sem ele, buscando alívio para males, alguns corriqueiros, outros impensáveis. E sempre há crianças. Pequeninos sofredores – às vezes raquíticos e franzinos, às vezes exibindo vitalidade e energia, evidenciadas por um braço na tipoia ou alguns pontos na testa.

Nesta última semana, Floriano e eu chegamos para uma consulta dez minutos antes da hora marcada; entretanto, seria preciso esperar, pois houvera um imprevisto. Sentamos a um canto, longe do ar condicionado que estava gelado. Entre muitos idosos, havia um jovem casal com um garotinho de cerca de um ano e meio de idade. Era um menino gordinho, bonitinho, cabelos pretos anelados; o rosto pálido, porém, os esparadrapos no pulso e nos braços, os lábios descorados e as olheiras fundas denunciavam problemas de saúde. Acompanhavam-no a mãe e o pai, que o trazia ao colo e, de pé, sacudia a criança em embalos vigorosos. A cada balanceio, o garoto gritava; e quanto mais berrava, mais o pai o jogava para o alto!

A mãe, numa poltrona ao lado, sentada estava e sentada continuou. Tinha os olhos fixos no celular, absorta, alheia ao que se passava em redor. E haja sacolejos, entrecortados de animados “upas” paternos, aviventados por gargalhadas nervosas do acrobata-mirim.

Isso durante meia hora, uma hora. Uma atendente veio conversar gentilmente com o casal, fez festinhas no menino – que respondeu com enérgicas torções de corpo, tentando desvencilhar-se dos braços do pai. Parecia óbvio que, em idade de explorar o mundo e treinar os músculos, a criança queria andar, mexer-se, sair por aí.  Por que não deixá-la simplesmente caminhar, subir e descer nas cadeiras vazias, acompanhá-la em seus passinhos vacilantes, cuidar para que não caísse, lavar-lhe as mãozinhas se necessário?

Passado algum tempo, o pai entregou o filho à mãe que, por sua vez, manteve-o preso no colo – mas deu-lhe o celular para brincar.  Santo remédio! O meninozinho, como que hipnotizado, passava os dedos pela tela luminosa, fascinado, encantado, absolutamente quietinho e silencioso.

Foi quando o pai também se sentou e ligou o whatsapp; da bolsa, a mãe retirou outro aparelhinho – e os três ali ficaram aparentemente unidos, na verdade distantes e alheios, cada qual no seu mundo virtual.

Para sossego e paz de quem esperava a vez para ser atendido.

(Publicado no jornal "Diário da Manhã" de Goiânia em 06 de junho de 2017)