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LIVROS QUE INSPIRAM

Recentemente, fui contemplada com dois livros que muito me tocaram: “Festa, folclore e fé”, de Lázaro Neves; e “Folias e foliões na terra santa”, de Wilson Alves de Paiva (organizador). Neles atuaram equipes de especialistas, ensaístas e pesquisadores, resultando em obras que vêm enriquecer a bibliografia recente sobre a cultura goiana.

Como todos nós sabemos, Goiás manteve-se isolado até o advento de Brasília, pouca atenção merecendo do eixo político cultural dominante, instalado na faixa litorânea ou próxima desta. Em consequências desse isolamento, foram aqui desenvolvidas estratégias de sobrevivência e valorização das manifestações culturais locais, que permaneceram praticamente infensas a influências exógenas.

De outra parte, o pouco (ou nenhum) contacto com o além-Paranaíba, da parte das populações disseminadas por vilas e pequenas cidades interioranas, permitiu a sobrevivência de expressões de religiosidade popular que, só tardiamente e quase inutilmente, viriam a ser questionadas pelos agentes de romanização da Igreja Católica.

Os livros acima referidos constituem-se em valioso registro de algumas dessas manifestações culturais. Em “Festa, folclore é fé”, a narrativa é, sobretudo, visual a partir das belas fotos com que Lázaro Neves captou a riqueza desse universo. Em “Folias e foliões na terra santa” – leia-se: em Trindade – aprofundam-se os estudos e o conhecimento das Folias de Reis, que continuam a ser celebradas com vigor e alegria na antiga Barro Preto, depois Trindade, sede da maior romaria católica do interior do Brasil.

O subtítulo - “Olhares sobre expressões culturais do Estado de Goiás” - traduz o alcance da primeira das obras citadas. A edição da Bartira Gráfica é bilíngue: português/inglês. Com apresentação do professor e antropólogo Jadir de Morais Pessoa, textos do mestre Bariani Ortencio e do próprio autor do livro, o livro desdobra-se em cinco capítulos, a saber: as Cavalhadas, a Festa do Divino Espírito Santo, a Procissão do Fogaréu, as Folias de Reis e as Congadas.

A objetiva de Lázaro Neves registra com sensibilidade imagens que fazem aflorar a alma do povo simples e humilde, expressa através de gestos e detalhes. Nestes é possível identificar o carinho do fotógrafo/autor pelos roceiros e romeiros, anônimos heróis do sertão, apegados à gleba goiana e à sua maneira de ser e de viver.

As Cavalhadas são mostradas em Pirenópolis e em Santa Cruz de Goiás. Simulando a luta entre cristãos e mouros, remontam à própria origem de Portugal. É quase um milagre que tais fatos e personagens sejam lembrados mais de 500 anos depois, por descendentes de colonizadores portugueses, mas também por negros, ameríndios, cafusos, caboclos, curibocas e que tais. Sem falar na parte lúdica da festa, seus mascarados, seus chifres gigantescos, suas rosas de papel crepom. Até uma contradança francesa é encenada em Santa Cruz, com homens vestidos de casacas e usando cartolas e bengalas. E dançam com outros homens que usam roupas femininas - tudo compondo o que seria “uma sátira aos desregramentos da época napoleônica”! Incrível!

Fotos e textos alusivos às festas do Divino Espírito Santo destacam a romaria de Trindade, cujo ponto alto está nas celebrações do primeiro domingo de julho.   Aqui também se misturam o sagrado e o profano, o popular e o formal.  Há imagens impactantes dos carros de bois – nos quais se locomovem centenas de famílias por estradas de terra, sob o sol escaldante ou ao frio das madrugadas. Ao final, tudo converge para a romaria do Divino Pai Eterno, única no mundo. As personagens principais são os romeiros ou devotos – e eles estão lá, com seus rostos macerados, rugas fundas, gestos contritos. Gente vinculada à terra e próxima dela; que poucos confortos tem ou teve na vida; mas que mantém os olhos voltados para a imagem milagrosa da Santíssima Trindade, esculpida a partir do achamento da verônica de barro por um casal de roceiros, dando origem a essa manifestação invulgar de fé e espiritualidade.

Há também a parte lúdica: o carreiródromo, os barraqueiros, os sanfoneiros, os berranteiros. No final tudo é festa, sob o olhar meio espantado de tantos anjinhos vestidos (e fotografados) em camisolas de cetim com enfeites de arminho.

Chega-se à Procissão do Fogaréu, talvez o mais impactante festejo de cunho religioso e popular celebrado em Goiás e no Brasil. Não se conhecem exatamente suas origens, supondo-se que remonte ao século 18. Certo é que faz uma curiosa mistura de personagens, épocas e procedências diversas. Assim é que à meia noite da Quarta Feira de Trevas, na Semana Santa, saem da Igreja da Boa Morte, na Cidade de Goiás, troços de homens que procuram Jesus para prendê-Lo. Aqui estão os registros fotográficos: soldados romanos com botas ferradas, cujos passos estrondeiam nas lajes centenárias. Judeus encapuzados – seriam medievais? - ditos farricocos, que conduzem tocheiros para iluminar os caminhos e encontrar o Mestre. Um deles traz um chicote, outro um clarim; e tudo prossegue à luz das tochas acesas que se refletem no Rio Vermelho, bem como nas poças de água que pontilham a rota da procura.

Não me é possível comentar aqui todo o livro, que recomendo com entusiasmo. De igual modo, “Folias e foliões na terra santa” (Curitiba, Editora CRV) – Continua.

(publicado no jornal "Diário da Manhã" de Goiânia em 20 de junho de 2017)