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LIVROS QUE INSPIRAM (II)

Na última crônica, reportei-me ao livro “Folias e foliões na terra santa”, que tem Wilson Alves de Paiva como coordenador. Com Prefácio de Carlos Rodrigues Brandão e Introdução de Jadir de Moraes Pessoa, a obra enfeixa quatro capítulos: “Trindade e as Folias de Reis: memórias e mudanças”, de Doris de Fátima Reis Mendes; “A devoção aos magos na velha Trindade”, de Wilson Alves de Paiva; “Cenários, atuações e poderes – um olhar sobre as Folia da Pedra Preta e Folia da Família Gonçalves”, de Larissa de Farias Alves; “O desfazer dos alpendres e o refazer das folias”, de Selma Cristina dos Santos e Elaine Aparecida da Silva. Os registros fotográficos são de Lázaro Neves e dos próprios autores dos textos. Finalizando, “Considerações finais” e dados biográficos “Sobre os autores”, estudiosos e pesquisadores de renome em suas áreas de atuação.

O livro é de leitura agradável e, ao mesmo tempo, rigoroso ao abordar a tradição secular das Folias de Reis em versões atuais. Folias formam um universo próprio, caracterizando-se por seu caráter festeiro, alegre e, ao mesmo tempo, engenhoso. Com efeito: elas têm por finalidade primeira cultuar o Menino Jesus, louvá-Lo e presenteá-Lo. Nesse sentido, lembram-se os passos dos Santos Reis Magos que seguem a Estrela Guia, mas também buscam despistar os esbirros de Herodes, a fim de manter vivo o Divino Infante – para o que recorrem a subterfúgios e enganações.

O vocábulo “folia” traz consigo a conotação de brincadeira e de espontaneidade, “às vezes lembra desordem, bagunça e falta de regras”. Em suas origens, no meio rural, Folias de Reis representavam uma pausa nas árduas tarefas da lavoura e da pecuária, bem como a oportunidade de socialização entre vizinhos e conhecidos, dispersos pelas fazendas e sítios de criar. Música, cantoria, vestes alegres tendo flores e fitas como enfeites ensejavam a convivência de pessoas que viviam distanciadas em suas moradas, no isolamento de campos, vales e cerrados.

O que não significa, entretanto, que Folias de Reis não obedeçam a preceitos e normas que, consolidados pela tradição, continuam a valer, a despeito das mudanças havidas. Nas Folias ora estudadas, fica evidente um conjunto ordenado de regras e comportamentos ritualizados que exigem estrita organização. Bem como se mantêm os personagens centrais da ação e devoção: além do Menino Jesus na manjedoura, a Virgem Maria, São José, os pastores e os Reis Magos – melhor dito, os Santos Reis, nominados como Gaspar, Belchior e Baltazar, vindos do Oriente e portando oferendas de ouro, incenso e mirra.

Os ensaios que compõem o livro debruçam-se sobre o que seria a unidade e a diversidade das Folias de Reis em Trindade. De origem rural, elas se incorporaram à cultura urbana, com especificidades muito próprias, em processo de recriação dentro da tradição.

A fé permeia as Folias, quase sempre originárias de “votos” ou “promessas” que resultaram em graças alcançadas pela intercessão dos Santos Reis - a tal ponto que devotos assumem o “Reis” como sobrenome. Outra característica diz respeito à identificação gerada pelo pertencimento à Folia, que passa a ser – por exemplo - da “Família Gonçalves”, ou “da Pedra Preta”, lembrando a origem comum dos fundadores.

Na releitura do livro, alguns questionamentos vieram-me à mente. O título refere-se à “terra santa”, que seria a cidade de Trindade, assim conhecida entre goianos e romeiros do Divino Pai Eterno. Tal na acontece, porém, no entendimento de quem vive além-Paranaíba, para quem “terra santa” é a Judéia, e, em especial Jerusalém. Não estaria aí  uma indicação do quanto se mantém autocentrada e imune a influências externas a cultura popular goiana?

Outro aspecto interessante é a adaptação da tradição aos novos cenários urbanos em que passam a “girar” as folias. Não mais casas rurais de pau a pique barreado, mas pequenas moradas suburbanas são agora os pousos de folia, sem que se percam nem as marcas, nem o colorido dos adereços que externam fé e alegria: instrumentos musicais, comedorias de quitandas, fitas e flores de papel crepom, arcos feitos de bambu e folhas de bananeiras... E tudo isso compartilhado entre homens e mulheres, segundo os novos tempos de propalada igualdade entre os sexos.

Meus parabéns aos autores e, em especial ao coordenador, professor Dr. Wilson Alves de Paiva, que assina um dos ensaios. O trabalho que desenvolvem tem o mérito de contribuir para o conhecimento e a preservação das tradições goianas e trindadense, bem como da própria cultura brasileira.

(Publicado no jornal "Diário da Manhã" de Goiânia em 27 de junho de 2017)