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FADIGA DE MATERIAIS

A primeira vez que ouvi falar em fadiga de materiais foi no Conselho Federal de Educação onde, sob a coordenação do conselheiro Tarcísio Damy de Souza Santos, discutia-se o chamado “currículo mínimo”– seriam hoje “padrões curriculares”? – dos cursos de Engenharia. A expressão pareceu-me sugestiva, senão poética. Procurei conhecer-lhe o significado e li ( ainda está lá) no dicionário: “Fadiga – Diminuição da resistência de um corpo por efeito da solicitação a que está sujeito e cuja intensidade é função periódica do tempo”. 

Talvez porque eu ainda fosse jovem, nunca tinha atentado que tal acontecia com os materiais utilizados na construção de edifícios, pontes, aquedutos, estradas e que tais. Lembro-me de que, nesse momento, invadiu-me certa sensação de insegurança, acentuada pela lembrança dos muitos monumentos erguidos para durarem infinitamente, mas que hoje nada mais são do que vestígios de outros tempos e de outros sonhos.

Anos mais tarde, trabalhando no Ministério da Cultura, tive a oportunidade de aproximar-me do valoroso pessoal do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Não me lembro do porque, certo é que tivemos uma reunião no Rio de Janeiro, no prédio da antiga Companhia Docas de Santos, sede do IPHAN. Construído pela família Guinle, detentora da concessão do porto de Santos desde o Império, foi inaugurado em 1908, quando da abertura da Avenida Central (depois Rio Branco), no auge das reformas que mudaram a fisionomia urbana da então capital da República.

Projetada pelo arquiteto Ramos de Azevedo (o mesmo do Teatro Municipal) em estilo eclético e detalhes neoclássicos, é uma das mais bonitas edificações da Belacap. Dela ficaram-me na memória os deuses e heróis da Antiguidade que são lembrados em estátuas e baixos relevos; e uma belíssima escada em espiral, de ferro trabalhado.

Confessei-me encantada com o que via, ao que um dos amigos do IPHAN me informou que muitos elementos do prédio, inclusive a escada, estavam a exigir restauro, desgastados que foram pela ação do ar marinho e da poluição ambiental. Acrescentou que a empreitada representava um desafio – com soe acontecer com as restaurações – porquanto exigiria mão de obra altamente especializada, com conhecimento das técnicas usadas originalmente, além do emprego de materiais compatíveis, difíceis de encontrar.

Do majestoso hall de entrada, fiquei a observar a graça quase alada da escadaria ascendente, como que pairando no ar, fazendo irrelevante o peso do ferro, dos rebites, dos rendilhados, dos corrimões em metal brunido. E, no entanto, ela estava acometida de fadiga, condenada a corromper-se por si mesma sob a ação de inimigos predatórios que o tempo potencializava.

Fadiga dos materiais. Por associação, veio-me a certeza de que também acontece nos humanos e em mim própria – por que não? O ciclo vital é exatamente isso, uma sequência de pressões que levam à diminuição da resistência de quanto existe, ao longo do tempo. Órgãos, tecidos, sistemas, tudo absorve e responde às solicitações e exigências exteriores e interiores. E tudo se desgasta, com o passar dos anos.

Dizem que a vida humana se desenrola em cenários distintos. Na infância - no jardim com suas flores, seus pássaros e borboletas. Na juventude, em salas, quartos, varandas. Na idade adulta, na alcova, no local de trabalho e de convivência social. Na maturidade, na biblioteca; na velhice, novamente no jardim, ao sol da manhã, na contemplação do eterno renascer da vida em plantas, animais, aves e crianças ao redor. 

Até que o próprio desgaste – com a fadiga dos materiais – começa a tornar imperceptíveis nuances e detalhes, em lento processo de empastelamento das cores, cacofonia dos sons e pasteurização das sensações. Trocam-se nomes e datas, confundem-se recados, andam-se léguas para, ao final, não saber com qual propósito. Uma dorzinha aqui responde ali – e não quer mais calar-se.

É preciso olhar para traz e agradecer a dádiva da vida prolongada e o quanto foi recebido da bondade de Deus e do próximo. Mas também cuidar em não ficar repetindo as mesmas histórias; não implicar gratuitamente com as pessoas; não se queixar tanto da vida e das mazelas do corpo; e também não descuidar da aparência, que ninguém gosta de velha feia e mal arranjada.

A fadiga de materiais chega à mente, às ideias, à silhueta, à postura, ao jeito de caminhar, à pele, aos cabelos, às unhas... Tenta-se consertar e restaurar, mas o momento da ruptura chega, inapelavelmente, e com ele tem início a nova dimensão da vida.

(Publicado no jornal "Diário da Manhã" de Goiânia em 11 de julho de 2017)