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SEM ALEGRIA

Ao condenar o cidadão Luiz Inácio Lula da Silva, no final da sentença diz o juiz Sérgio Moro: “(...) registre-se que a presente condenação não traz a este julgador qualquer satisfação pessoal, pelo contrário”. De igual modo, o presente texto não tem a inspirá-lo qualquer sentimento de alegria ou de revanche.

De alguns anos para cá, o noticiário da política tem estado, a cada dia, mais próximo do policial, de tal sorte que raramente a mídia não traz denúncias de crimes perpetrados nos altos escalões da República. Ladeira abaixo, chegamos onde estamos; só há motivos para lamentar.

Acompanhei a trajetória do sindicalista Lula, desde quando liderava greves no ABC paulista. Ele era jovem, barbudo, tinha o olhar iracundo e brandia o punho cerrado contra o sistema, contra o capitalismo, contra a execrada burguesia. Na esteira da rejeição ao regime militar desgastado por muitos anos no poder, o enraivecido sindicalista foi promovido a líder político, seduzindo as esquerdas, sobretudo a inteligentzia acadêmica que nele via a personificação das virtudes proletárias e revolucionárias.

O fenômeno Lula é complexo demais para ser aqui analisado em profundidade. Registro, contudo, a mistificação que sempre cercou o perfil que foi construído por marqueteiros e correligionários: a do homem inteligentíssimo, caráter sem jaça, idealista e pragmático, negociador emérito, defensor e protetor dos pobres e oprimidos. Sem curiosidade intelectual nem escolaridade formal, nem mesmo a simples informação/ilustração que se consegue com a simples leitura de autores básicos da cultura ocidental – Lula era (é?) exaltado como exemplo vivo de intuição, esperteza e carisma, que seriam suficientes para bem governar o Brasil e conduzi-lo rumo a um futuro radioso.

Lula ”angry man” (homem zangado) transformou-se em “Lulinha paz e amor”. Parte do eleitorado deixou-se levar pelas jogadas de marketing que assim o promoviam - como a das grávidas dançantes, acenando para o nascimento de um novo país onde se exercitariam a igualdade e a justiça social.

Não votei em Lula, nem no PT. Não fiz falta, na avalanche da vitória com milhões de eleitores confiantes, convictos da genialidade do seu líder. Naqueles momentos iniciais, minhas restrições maiores aos novos donos do poder diziam respeito à limitação de horizontes intelectuais e políticos, à inexperiência administrativa, à feição bisonha que os caracterizava. A expectativa era de muita naftalina em ternos mal ajambrados; confusão ao usar talheres nos banquetes oficiais; arranhões na gramática; mau gosto nas toaletes femininas. Jamais me passou pela cabeça que viessem a se revelar desonestos e insaciáveis por dinheiro!

Ao contrário: quase inconscientemente, eu procurava acreditar na sinceridade de propósitos dos políticos que chegavam, quem sabe trazendo mudanças e corrigindo erros cristalizados na sociedade brasileira? Quando Lula anunciou o “Fome Zero”, torci para que desse certo o combate à miséria, a diminuição das desigualdades, a melhora das condições de vida do nosso povo – quem sabe?

Quatorze anos depois, o legado que nos coube é uma crise econômica e política jamais vista, com espantoso déficit público e quatorze milhões de desempregados nas principais capitais do país. No interior, não há sequer como contá-los. A distribuição de “bolsas famílias” não erradicou a miséria, quando muito teve feição paliativa em alguns pontos do território nacional.

Nas áreas ditas “sociais” – que seriam prioritárias – a educação despenca nos índices de qualidade; a saúde vai aos trancos e barrancos; o transporte público continua uma calamidade. As estradas não têm manutenção, as penitenciárias são enxovias medievais, a segurança pública é um desastre: somos todos prisioneiros de nossas grades, enquanto os bandidos dão as cartas e ditam as normas, a droga correndo solta como poder paralelo.

E mais: a corrupção espraiou-se de tal forma que assumiu a forma de quadrilha organizada nos mais altos escalões. “Companheiros” encastelados em postos-chaves quebraram até os fundos de previdência! A Petrobrás, orgulho nacional, foi depenada em bilhões de reais – sendo que uma parte do dinheiro roubado está sendo devolvido pelos ladrões.  “Campeões nacionais” e grandes empreiteiras sugaram os recursos do país, compartilharam lucros e distribuíram propinas a partidos, dirigentes sindicais, governantes, administradores e políticos insaciáveis. Sem que ninguém – nenhum dos governantes ou responsáveis – tenha jamais desconfiado de que algo pudesse estar errado!

Ao fim e ao cabo, o país está quase falido e resta quase morta a esperança dos brasileiros. Eis que o ex-presidente Lula é condenado a nove anos e meio de prisão; e nós, cidadãos honestos que somos a maioria, vivemos o vexame de ter um ex-presidente da República condenado por corrupção e lavagem de dinheiro! As manchetes estão em todos os veículos da mídia nacional e internacional!

Lula se diz inocente e se autoproclama “a alma mais honesta do Brasil”, vítima de implacável perseguição política. Mas não explica nem convence, diante das provas em que se baseia a longa e fundamentada sentença do juiz Moro. Certo é que as engrenagens da Justiça funcionam e, mais adiante, a condenação será confirmada ou reformada pelos julgadores, em segunda instância, diante do que se contém nos autos.  

Por enquanto, nada há a comemorar – mas, sim, a deplorar e chorar. Nós, brasileiros, não merecemos isso: essa podridão na política, esse esgoto aberto e malcheiroso que expele banditismo e corrupção a cada dia. Até quando?

(Publicado no jornal "Diário da Manhã" de Goiânia em 18 de julho de 2017)