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Saias Justas

A memória é seletiva e parcial.  Esquecemos a maior parte dos fatos que vivenciamos ou presenciamos; outros, porém, permanecem indeléveis na lembrança, mesmo depois de passados muitos anos. Sobretudo aqueles que envolveram as chamadas saias justas: a estas, nada apaga.

Por alguma inequívoca, embora involuntária vocação para “dar ratas”, como se dizia antigamente, tenho enfrentado algumas situações embaraçosas. No momento em que aconteceram cobri-me de vergonha, mas, fazer o que? Não havia – não há – como negá-las, nem ignorá-las. O jeito é recorrer ao senso de humor e rir dos vexames.

Quando tomei posse como conselheira, o Conselho Federal de Educação ainda funcionava no antigo prédio do Ministério de Educação, no Rio de Janeiro. Ao sair do plenário, depois da primeira sessão a que compareci, alguns funcionários vieram gentilmente apresentar-se e colocar-se à disposição para o que fosse necessário. Agradeci e tentei reter as fisionomias, já que tenho boa memória visual.

De todos, guardei nítida a lembrança de um senhor de estatura mediana, ainda jovem, o rosto meio avermelhado, vestindo um terno marrom; ele se dispôs a providenciar-me serviços datilográficos, quando eu o desejasse.    

Encerrado o expediente, redigi à noite um parecer relativo a um dos processos que me foram distribuídos. No dia seguinte, ao chegar ao Conselho, lá estava o simpático servidor em seu terno marrom. Cumprimentei-o à distância e chamei-o. Logo se aproximou e pedi-lhe:

- Poderia fazer a gentileza de datilografar este parecer? 

Entreguei-lhe as folhas manuscritas e acrescentei:

- Tenho reunião na Câmara de Ensino Superior; gostaria de apresentar o parecer ainda hoje.

Por um momento, ele me pareceu algo hesitante, surpreso talvez. Supus que estivesse impressionado  com a eficiência da conselheira novata... Pegou os papéis e, com acentuado sotaque gaúcho, disse que iria providenciar.

Cerca de uma hora depois, um mensageiro me trouxe um envelope de papel pardo. Abri-o. Era meu texto, datilografado a capricho. Anexo, preso com um clipe, um cartão de visita trazia a mensagem: “Com os cumprimentos do Professor X. Reitor da Universidade .....Porto Alegre. RS”.

Pano rápido! Durante algum tempo, escondi-me. dobrei corredores e esquinas, fugindo do amável reitor. Entretanto, com o passar do tempo, ficamos amigos e demos boas risadas com minha tremenda e irremediável gafe.

Noutra ocasião, com o Conselho já instalado em Brasília, depois de um dia de trabalho fomos jantar, em grupo, no restaurante do Hotel Nacional. A conversa correu animada, como sempre. No dia seguinte, o expediente começaria cedo; pedi para me chamarem um taxi, pois era hora de recolher-me. Iria pernoitar no apartamento de meu filho, onde me hospedava.

Dois colegas acompanharam-me à portaria. Despedi-me deles, quando o funcionário do hotel avisou que o carro estava à minha espera, especificando a marca e a cor: memorizei que era preto.

Passei pela porta giratória; bem em frente, estacionara um reluzente veículo, mais negro do que as asas da graúna, como diria Alencar. Abri a porta traseira, entrei, cumprimentei o motorista e disse-lhe que seguisse para a Asa Norte.

Era um senhor bem apessoado, bem vestido e trazia um boné. Olhou-me de esguelha e perguntou:

- O general vai ficar, madame?

Insisti que deveria seguir para a Asa Norte. Com voz grave de baixo profundo ele esclareceu:

- Desculpe. Eu estou esperando o general Correia. Não posso sair sem ordem dele.

Vivíamos a época dos governos militares. Olhei para a porta iluminada do Hotel, por onde passava o vulto desempenado de um homem de meia idade. Aflita, pensei:

- Meu Deus! É o general!

Tratei de sair de fininho, pelo lado contrário. Atrás do carrão preto, meu taxi (preto) estava esperando. Ao entrar nele, vi meus amigos no hall, rindo da confusão. No dia seguinte, a história espalhou-se entre os conselheiros que se divertiram a valer. Um deles deu-me a miniatura de um carro preto, acho que era de uma Mercedes...

Em tempo: certo general Correia foi meu contemporâneo quando, alguns anos mais tarde, cursei a Escola Superior de Guerra no Rio de Janeiro. Era um gentleman, sempre amável e cortês; mas jamais tive coragem de perguntar-lhe se estivera em Brasília, no começo da década de 1970.

Outras saias justas – muitas! – haveria para contar. Fica para depois.

Publicado no Jornal "Diário da Manhã" de Goiânia em 25 de julho de 2017.