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EDUCAÇÃO CANADENSE: NO FRIO, FECHEI AS JANELAS

O frio canadense era de fazer o queixo bater. Sentia aquela brisa gélida de inverno enquanto meu rosto parecia congelar, na cidade de Winnipeg, capital da Província de Monitoba, a terra dos búfalos. Esperava meu ônibus para minha nova escola, o Vincent Massey Collegiate, como um boneco de neve no ponto de ônibus. Naquela sensação térmica polar, reparei, ao entrar no ônibus, que o frio só estava do lado de fora da condução. Alunos e alunas acalorados, ansiosos para a volta às aulas, tomavam  todos os assentos. Só depois de conhecer a escola, percebi o motivo da euforia:  a partir daquele momento eu era um Trojan (nome de guerra dos times da escola; toda escola canadense tem seu time), ou seja um aluno Vincent Massey, um futuro atleta, político ou médico. Daquele momento em diante, eu era o futuro do Canadá, parte de uma família,  que começava a partir do curso de interação de estudantes internacionais e ia até o time de Soccer, do qual fiz parte, mesmo na condição de intercambista.

 No Canadá, a educação é responsabilidade das Províncias. Cada Província tem suas regras, entretanto o sistema educacional segue uma mesma linha em todo o país. Cada Subdivisão provincial possui um Departamento de Educação, que elabora as regras e padrões válidos para seu sistema educacional.

A educação canadense não se limita aos espaços dos colégios, pois é regida por um sistema que entrelaça o comprometimento da família dos estudantes, com os funcionários públicos, capacitados e bem pagos, com a fiscalização e com os incentivos aos alunos e professores. É uma questão de prioridade.

Os canadenses adotam a teoria "Das janelas quebradas", dos criminalistas James Wilson e George Kelling,  a qual, superficial e metaforicamente, afirma que se deve procurar arrumar os problemas enquanto forem pequenos. Afinal, depois da primeira janela quebrada, a impressão que se terá é que as demais não estarão sob cuidado e atenção, logo serão também quebradas.

O investimento começa na pré alfabetização, conservando assim as janelas intactas e resistentes. Um exemplo dessa perspectiva, em minha experiência internacional, foi percebido quando uma quadra poliesportiva do colégio sofreu uma rachadura e a verba para o concerto demoraria alguns meses para ser direcionada. Os alunos imediatamente fizeram uma ação conjunta, reconstruindo a parte danificada, ou seja, em termos metafóricos, consertaram a janela para evitar que outras fossem quebradas.

O sistema educacional brasileiro poderia utilizar-se de várias metodologias canadenses. Temos uma realidade social e demográfica dessemelhante do Canadá. Priorizar a educação, desde os níveis de base, é fundamental para um país que se administre com perspectivas de longo prazo.

O incentivo do profissional da educação é outro fator destacável. O "profissional da educação"  não é só o professor que deve estar envolvido no processo educacional, mas também os agentes públicos, os psicólogos, os nutricionistas, as enfermeiras, enfim, uma gama de profissionais que possibilitariam um "upgrade" no sistema educacional, o que viabilizaria a geração de empregos, da qual estamos carentes. Afinal, somos um país com 18 milhões de desempregados, muitos desses com diplomas e boa formação técnica.

Na limitada visão de minha curta experiência nas terras frias do Canadá, percebi um país com níveis de analfabetismo e desemprego dentre outros dados socioeconômicos, tão baixos quanto os níveis de temperatura.

No nosso Brasil, país tropical, "abençoado por Deus e bonito por natureza", vemos políticos no papel de demônios lutando contra os planos divinos, e nossa beleza natural sendo devastada e desrespeitada, assim como nosso direito natural a um ensino de qualidade. Vejo como solução mediata e posterior a priorização da educação e das demais garantias fundamentais, direitos esses garantidos na Constituição no seu Art. 6°.

Há dinheiro para concertar "janelas quebradas". O que não há é vontade de uma minoria em ver as janelas consertadas, prejudicando assim, toda uma nação. É hora de uma reconstrução, respeitando nossa ordem social e nossa pluralidade étnica, regional e econômica para construir um país como o do slogan político federal que cresci vendo na TV: "Brasil um país de todos", principalmente dos jovens que perdem seu potencial por falta até das "janelas".