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LÍNGUA PORTUGUESA

Ao participar do julgamento de um concurso para estudantes, tive acesso a dezenas de redações versando sobre o tema: “Minha perspectiva diante do Ensino Médio”. Os autores são alunos da rede pública e têm, em média, entre 15 e 17 anos; uma garotada alegre e bonita, de olho nos prêmios que incluem modernas geringonças eletrônicas.

A primeira leva dos textos é de 240 redações, das quais 9 (nove) foram selecionadas como boas e 3 (três), como ótimas. Isso mesmo: somente 12 (doze)! Sendo que o número de zeros chega a mais de metade.

Não se poderá apontar uma causa ou um responsável único por essa escalada de ignorância e de alienação coletiva, entre os agentes/pacientes envolvidos: professores, alunos, administradores, linguistas, teóricos e formuladores de políticas educacionais etc e tal. Na amostragem analisada, fica evidente que, a cada dia, os jovens brasileiros estão escrevendo pior e expressando-se de maneira mais precária. Ou seja: nós emburrecemos gradual e coletivamente!

Enquanto isso, prospera o debate sobre a pertinência (ou não) do ensino da norma culta da língua portuguesa, havendo quem a ela renuncie em nome da autenticidade da linguagem popular. Não há que discutir sobre a constante evolução das línguas vivas; e também não se pode deixar de reconhecer a necessidade da gramática, para que se garanta a estabilidade e inteligibilidade dos falares, bem como a consequente intercomunicação, no tempo e no espaço. 

O que me leva a escrever essas mal traçadas linhas, contudo, não são veleidades eruditas. O que me motiva é, antes, o sentimento de perda que me assola, diante da pobreza vocabular, da indigência gramatical e da limitação estética que são visíveis na imensa maioria das redações percorridas.

Em verdade, aos estudantes das nossas escolas pouco se possibilita o acesso à riqueza e à beleza da nossa língua mãe. Como regra geral, crianças e adolescentes não têm a oportunidade de conhecer nossos bons autores, a começar pelos clássicos da poesia – tais como Castro Alves, Casemiro de Abreu, Fagundes Varela, Cecília Meireles... Quando muito são apresentados ao Chico Buarque, Caetano Veloso, Cazuza, isso sem falar no filósofo-cantante Gabriel, o Pensador, além de forrozeiros e funkeiros de última geração.

No campo da prosa narrativa – romance e conto – pouquíssimos têm a chance de se aventurar pelas belezas da literatura universal e da literatura de língua portuguesa. Só para exemplificar: quem, da nova geração das feministas de hoje conhece Iracema, ou Capitu, ou qualquer das mulheres perfiladas por Eça de Queiroz? Em outra perspectiva – quem já se aproximou de Ana Karenina, ou de Emma Bovary? Entretanto, elas são personagens-símbolo da condição feminina no seu tempo. O presentismo da nossa escola as ignora, assim como a tantas outras – tais como Inês de Castro e Marília de Dirceu, figuras de carne e osso, convertidas em mitos pela magia da poesia.

“Minha pátria é a língua portuguesa”, diz Fernando Pessoa, na voz de um dos seus heterônimos no “Livro do desassossego”. Com efeito: quando se fala tanto em cidadania, há que lembrar que no cerne da cultura está a língua com a qual o sujeito se comunica. Em verdade, a dimensão do pensamento é demarcada pelo vocabulário de cada um; de onde se conclui que o não saber expressar-se denuncia a limitação vocabular do indivíduo.

Fala-se muito em escola inclusiva, com vistas a reduzir as desigualdades sociais em nosso país. A inclusão social começa pelo desenvolvimento da capacidade de entender e de falar – ou seja, pelo domínio da língua pátria, indo além do simples grunhido, da gíria efêmera, das frases feitas e dos lugares comuns. A escola verdadeiramente inclusiva desenvolve no aluno a capacidade de ler, de entender, de falar e de escrever – e isso se faz com o ensino efetivo da língua portuguesa, tanto do ponto de vista pragmático, como do ponto de vista estético, que leva à fruição da literatura.

É com tristeza que assinalo mais esta enganação populista: a de diplomar alunos do ensino médio em grande parte semi-iletrados, incapazes de entender o que leem (quando o fazem), ou sequer redigir corretamente um relatório, uma exposição de motivos, uma simples carta. Poderão até assimilar vagas ideias de cidadania, mas simplesmente não conseguirão expressá-las e reivindicá-las, de forma inteligível. E ainda há quem se espante diante dos milhões de jovens desempregados em nosso país!

(Publicado no jornal "Diário da Manhã" de Goiânia em 01 de agosto de 2017)