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DE MALAS E MOCHILAS

As imagens são repetidas à exaustão: o deputado (ou seria ex?) Rocha Loures puxa a mala de rodinhas, recheada de notas - meio milhão de reais. Ele parece novato no ramo: está apavorado, corre pela calçada, espreita em redor, toma um taxi e some com a dinheirama.

De acordo com a mídia, o flagrante foi engendrado e registrado pela Polícia Federal, com autorização da justiça. A operação comprovaria que o presidente da República – que seria o destinatário do dinheiro – teria recebido propina em espécie, paga pela insuspeita JBS, conforme denúncias do honorável Joesley Batista e seu assecla-pagador. Só que – com tudo assim legalmente tramado e armado – esqueceram de seguir o trajeto do taxi e documentar a entrega da grana!

Não, não estou a defender o presidente Michel Temer, até porque não votei nele; na minha lógica talvez enviesada, o peemedebista está a cumprir o terceiro mandato presidencial do PT, tendo em vista a aliança partidária vitoriosa em 2014. Como nunca fui eleitora desse partido, acompanho de longe os fatos e me angustio ao pensar em 2018.

Neste domingo empoeirado de agosto são muitas as motivações que me levam e refletir sobre malas e mochilas, a começar  pela imagens repetidas que as mostram sempre recheadas de dinheiro, espremidinho em pacotes presos com elástico.

Na minha infância, arrumar malas era sinônimo de férias – ou íamos para a fazenda, ou para a praia, o que vale dizer que elas anunciavam o paraíso. Eram malas duras, tinham cantos de metal e cintas que lhes emprestavam ares de cofre ou de “burra”, como ainda se dizia. Para que não se estragassem nas viagens em precárias estradas de chão batido, ganhavam caprichadas capas de brim caqui. E eu achava chiquérrimas as letras iniciais do nome de meu pai, bordadas no pano de uma imensa mala-baú que levava (sem dobrar) seus ternos de linho inglês 120.

Nas viagens a cavalo – de uma fazenda para a outra – nossas roupas iam embrulhadas em toalhas cheirosas, dentro de malas de couro cru, que eram penduradas numa cangalha. Em cima delas, ajeitava-se o moleque Raimundo, que atiçava o burrico com sonora onomatopeia de “upas”, fustigadas com um galho de goiabeira e cutucadas com o calcanhar descalço.

Mais adiante, ganhei minha própria mala – dizia-se “maleta” – para levar o enxoval de menina interna no colégio de freiras; nela iam também meus (poucos) pertences pessoais quando ia para casa de meus pais, nas férias de verão. Nesse tempo distante pouco se falava de mochilas. A não ser quando fui “bandeirante”, já adolescente, e ia acampar com minha patrulha em Jacarepaguá, em Itaipava ou na Ilha de Brocoió - paradisíaca, nem sei se ainda continua como a conheci no final da década de 1940.

Na infância de meus filhos as crianças usavam pastas escolares; pouco a pouco foram surgindo mochilas que meus netos carregaram, logo transformadas pelo merchandising em ícones de consumo. Havia excesso de material escolar para levar; pediatras recomendavam cuidado com a postura, com a sobrecarga na coluna vertebral, com a correta posição no transporte de tanto peso da precoce educação e cultura.

Nem em pastas, nem em mochilas, nem em malas – delas não se falava para o transporte de dinheiro, que sempre era contado e escasso. Mochilas com dinheiro farto apareceu de uns anos para cá, coincidindo com o consulado petista.

Confesso que me impressiona fortemente a visão de tantos milhões e bilhões assim acondicionados e transportados. Amigo leitor, imagine-se no lugar do apavorado Loures: e se aparecesse um trombadinha e arrebatasse a mala e a grana, e saísse correndo, numa cena de faroeste caboclo? Ir atrás? Nem pensar! Quem se arrisca a tanto – além de jovem e rápido – deve ter cúmplices por perto.

Outra perplexidade que me perturba ante o flagra do Loures e outros menos cotados - vide aquele dinheiro na cueca - é como e onde se conseguem tantas notas de cinquenta e cem reais. Nós, mortais comuns, temos rigoroso (e baixo) limite de saque nos caixas eletrônicos. Se alguém precisar de, digamos cem mil reais em espécie tem de avisar com antecedência à agência, identificar-se, justificar-se. De repente, meio milhão, um milhão de reais é coisa banal e anda circulando por aí, quem sabe até na mochila do jovem ao meu lado, no ônibus de Brasília para cá?

Imagino que haja um controle na Casa da Moeda quando da impressão e distribuição de cédulas - como fica essa facilidade, essa fartura sem limites nas mãos de políticos e seus financiadores, melhor dizendo, seus corruptores? Do que se viu e se vê, há um mar de dinheiro competindo com a circulação legal de notas e moedas. Por que ninguém parece se preocupar com isso?

(Publicado no jornal "Diário da Manhã" de Goiânia em 15 de agosto de 2017)