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NO DIA DOS PAIS

Neste Dia dos Pais bateu uma saudade! Certo, toda a gente sabe que dias desse tipo são jogadas de marketing, e que a relação entre pais e filhos é cotidiana, sem agenda marcada. Mesmo assim, a data faz-me lembrar do meu querido Pai, falecido há mais de 30 anos. Céus! Há tanto tempo não o vejo, não lhe abraço, não converso com ele em pessoa!

A mais antiga lembrança que guardo de meu Pai leva-me de volta à infância. Eu teria pouco mais de três anos: estávamos na Atalaia, praia quase deserta onde passávamos férias. Era noite e havia uma fogueira sobre a duna.

A família estava reunida para comemorar o São João. Revejo o clarão da fogueira e meu Pai soltando rojões que me deslumbravam, com suas trajetórias de luz. Em certo momento, ele me pegou ao colo, sentou-me nos joelhos. De uma caixa, tirou pequenos fogos em tirinhas, acendeu-as e ficou segurando-as comigo, enquanto as “estrelinhas” se consumiam. A memória registrou para sempre aquele momento mágico, assim como o cheiro de pólvora e de maresia.

Meu Pai era um homem de feições regulares, porte elegante,  austero e educado. Andava sempre bem vestido; quando estava na cidade, não dispensava o terno, a camisa social e a gravata. No campo, usava calças e camisa de brim cáqui, botas de cano alto e chapéu de abas duras, que o protegia do sol e da chuva, na rotina de sua profissão de engenheiro. 

Formou-se na Escola Politécnica da Bahia. Não foi fácil: meu avô paterno era fazendeiro no interior; os filhos e filhas que iam estudar deslocavam-se para a capital, em longas viagens a cavalo e de trem. E muitas vezes tiveram de esconder-se do bando de Lampião que assombrava a região.

Recém formado, na década de 1920, foi para o sudeste do Piauí, contratado pelo Departamento de Obras Contra as Secas, criado pelo governo federal para combater (desde então!) a seca no Nordeste. Era o fim do mundo! Daqueles anos iniciais de sua carreira, contava histórias sobre jagunços e valentões, como certo Joaquim Sebereba, com muitas mortes nas costas, mas amigo dos doutores que prometiam trazer água para o sertão.

Trabalhava na Estrada de Ferro São Luis-Teresina quando,  numa estação ferroviária, veio a conhecer minha mãe. Ela terminara o curso normal em São Luis e voltava para casa, em companhia do pai; desceram na estaçãozinha poeirenta, a fim de seguirem a cavalo para a fazenda onde moravam.

Ao ser apresentada ao homem alto que a cumprimentou formalmente, a charmosa normalista pensou que ele fosse casado, pois o achou muito sério e velhusco - ele tinha 31 anos. Por artes de Cupido, casaram-se pouco tempo depois e viveram uma bela história de amor, que se estendeu por mais de 50 anos.

Enfrentaram dificuldades, canseiras, mudanças forçadas de residência em função do trabalho de meu Pai. Mas o amor foi mais forte, resistiu ao tempo e às diferenças de temperamento. Ele era calado, introspectivo; ela, alegre, extrovertida. Arredio, desprovido de ambições e vaidades, ele gostava de isolar-se. Sociável, ela adorava visitas - quando conversava à vontade, enquanto ele se mantinha caladão. Discretamente, ela dizia: “Fala meu bem!” E ele se esquivava com um resmungo: “Falar o que?!” 

Desde pequena, via meu Pai no seu escritório a fazer cálculos, a desenhar na prancheta, a datilografar, a atender colegas e auxiliares. Ali era território proibido às crianças. Eu ficava espiando da porta, com olho comprido, sentindo o cheiro bom de tinta e de borracha que impregnava o ambiente Ás vezes, ele me mandava entrar e me deixava martelar algumas teclas da Remington: era a glória! Conhecido como Dr. Sabe-Tudo, mantinha-se atualizado como profissional e em dia com a literatura; gostava de cinema e de boa música, acompanhava a política nacional e internacional. Só não tolerava os políticos. Desses “beneméritos” – como os chamava – costumava dizer que  desconfiássemos deles quando pregavam moralidade e honestidade. 

Meu Pai acompanhava e incentivava nossos estudos e leituras. Comprava livros, fazia questão que tivéssemos professores de idiomas estrangeiros e assinava para nós a  revista Tico-Tico, cujos heróis eram Reco-Reco, Bolão e Azeitona. Eu adorava as aventuras da trinca e com ela me identificava. Como fosse gulosa e gorducha, ele passou a chamar-me carinhosamente de Bolão; e assim o fez, até eu chegar à adolescência. Daí em diante, só o fazia em momentos especiais - como no dia do meu casamento quando, entrando na igreja ao som da marcha nupcial, ele me deu o braço e falou: “Vamos, Bolão!” 

Bem velhinho, sofreu um AVC e passou a depender de outras pessoas. Com seu temperamento independente, sofreu muito, dadas as limitações da doença. Ia vê-lo todos os dias; encontrava-o sentado numa cadeira de balanço na varanda, os fartos cabelos de outrora convertidos em flocos de algodão. Beijava-o no rosto, perguntava pela saúde e ele dizia que estava bem. Nunca se queixou, mas foi definhando, a velhice minando o vigor do homem forte que ele fora. 

Dá um aperto no coração lembrá-lo assim. Prefiro revê-lo saudável, pisando firme, saindo no jipe de serviço para descobrir novas passagens para a ferrovia que teria Cuiabá como ponto final, em cujo projeto trabalhava – e que nunca foi concluída, com o advento da chamada “era rodoviária” na década de 1960.

Ternura, gratidão, saudade – o que dizer nesse dia ao meu Pai, homem justo e bom, exemplo de retidão e de dedicação à família e à pátria, à qual serviu sem alarde, com absoluta honestidade e reconhecida competência? Seu exemplo está comigo, está conosco, com seus filhos, netos e bisnetos – dos quais três engenheiros seguem orgulhosos seus passos.

(Publicado no jornal "Diário da Manhã" de Goiânia em 22 de agosto de 2017