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CIDADANIA TRINDADENSE

Neste 21 de agosto, a Câmara Municipal de Trindade confere-nos o título de Cidadãos Trindadenses, a mim e ao meu marido, Professor Floriano Freitas Filho. Uma honra insigne que muito nos enobrece; e que é acentuada pela companhia dos demais agraciados: a querida Ana Braga Machado Gontijo, o Dr. José Francisco Vaz e o Secretário Tyrone de Martino. Além da inesquecível confreira Maria Emídio Evangelista de Souza, homenageada “in memoriam”.

O título de cidadania tem significado especial. Nada há mais forte do que o sentido de pertencimento, que em todos nós aflora à lembrança do lugar em que viemos ao mundo. Mesmo pervagando por terras distantes, quando levados pelas imposições da vida e da sorte vária, jamais esquecemos o local em que sorvemos o primeiro hausto da vida e abrimos os olhos para a luz.

No ir e vir dos passos do destino, muitas vezes somos arrastados para terras distantes, mas guardamos no recôndito da alma os sons, os cheiros, as vozes e os luares do rincão natal. Compartilhar tal tesouro com adventícios é sempre um ato de generosidade. É assim que vemos e sentimos a outorga da cidadania trindadense que ora nos é feita pelo povo desta cidade hospitaleira, nas pessoas dos ilustres vereadores desta Câmara, eleitos e ungidos segundo a liturgia da representação democrática.

De nossa parte, foram longos os caminhos e diversas as circunstâncias que nos trouxeram para cá, a mim e ao Floriano – vindo residir no município de Trindade em 1997, ou seja, há exatos 20 anos.

Ele, paulistano; eu, piauiense - nós morávamos em Brasília, onde nos aposentamos como professores, respectivamente da UnB e da UFG, à disposição dos Ministérios da Educação e da Cultura. Sonhávamos em desfrutar da aposentadoria – após 40 anos de trabalho – em um ambiente tranquilo, cercados de verde, rodeados de familiares e amigos.

E assim aportamos à chácara Santa Cruz, com as bênçãos do Divino Pai Eterno, de cuja majestosa Basílica estamos perto, creio mesmo que o bastante para ouvirmos o magnífico carrilhão de 72 sinos que ali serão instalados, segundo o projeto ora em execução.

Trindade nos abraçou com hospitalidade e simpatia. A história desse município é sui generis, enlaçando-se com as origens da romaria do Divino Pai Eterno que, todos os anos, faz fervilhar de fé e de energia a Rodovia dos Romeiros, passando à nossa porta. Assim como se repete na encenação da Via Sacra, realizada por artistas trindadenses.

Nos últimos anos, a visitação a Trindade como centro religioso tem aumentado, passando de celebração anual para semanal, sobretudo nos sábados e domingos. Pessoas de todo o país e também do exterior percorrem o caminho da Romaria, nacionalmente conhecido graças à divulgação focada nas graças e milagres alcançados na capital goiana da fé.

Com efeito: na medida em que se espraia e atrai mais e mais peregrinos, a Romaria do Divino Pai Eterno como que se enraíza mais forte e mais autêntica no solo trindadense. Cresce sua identificação com o homem sertanejo - o roceiro goiano – suas raízes, seu linguajar, seus costumes, suas origens. Assim, a Festa do Divino adquire a feição de celebração da vida rural, dos valores do homem do campo e das pequenas cidades, da cultura dita caipira ou roceira, dos cidadãos e cidadãs que são o cerne da alma brasileira.   

Em que pese o fato de que a cidade cresce e se transforma em polo de ensino superior, ao valorizar e preservar o modo de ser goiano Trindade não perde – e não perderá, jamais – seu jeito peculiar. De que são exemplos: a romaria dos carros de bois, os desfiles de muladeiros e tropeiros, as filas de romeiros que beijam o medalhão da Santíssima Trindade, os ex-votos oferecidos em pagamento de promessas, os caminhantes que carregam cruzes de madeira às costas, os fieis andando ajoelhados sobre pedras, a solidariedade prestada aos pobres e desassistidos, a alegria dos encontros familiares e muito mais.

Ao recebermos o título de cidadão/cidadã trindadense, Floriano e eu nos sentimos muito felizes por adentrarmos nesse universo mágico e acolhedor, cercados de confrades da Academia Trindadense de Letras Ciências e Artes, a quem expressamos nossa gratidão. Em especial à Professora Iraci Borges, autora da proposta inicial encampada pela Câmara Municipal – anjo que se mantém como sombra benfazeja nesse momento de alegria, e a quem abraçamos com carinho. Assim como aos demais amigos que, na mesma solenidade, recebem a Comenda Iraci Borges, pelos bons serviços prestados ao crescimento de Trindade.

(Publicado no jornal "Diário da Manhã" de Goiânia em 29 de agosto de 2017)