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SETEMBRO CHEGOU

É com expectativa que aguardo a chegada de setembro e, com ele, o anúncio da primavera. Hoje o dia amanheceu ventoso, levantando poeira e arrancando as folhas remanescentes das árvores. A grama está crestada pelo frio e pela seca – e tudo parece desolado na paisagem ressequida.

Há dias venho atentando para as pontas dos galhos quase despidos, em busca de sinais de vida. Eis que, em frente à janela, a cássia começa a despontar em flores miúdas; logo será como um buquê cor-de-rosa, acolhendo ninhadas de pássaros que cantam a glória de viver.

As buganvílias saíram na frente. Rústicas e resistentes, floresceram ainda em agosto, emprestando vida à hera que recobre as pedras. Pouco além, a trepadeira sobre o arco da escada abriu-se em dezenas de graciosos candelabros pendentes. Tem o nome charmoso de “sapatinho de judia” – por que será? Olhando de perto vejo que, isoladamente, cada flor em púrpura e ouro lembra um minúsculo sapato feminino, daqueles usados no Oriente. Talvez fossem assim na Judéia antiga; talvez a cortesã Maria de Magdala tenha usado algo parecido quando seguia o Mestre pelos caminhos da Terra Prometida.

A alameda de flamboyants mostra somente galhos secos; os jacarandás-mimosos continuam como mortos. Será preciso que as chuvas cheguem para que se dê a eclosão de seiva e de vida, que os faz reviver em tons de ocre, vermelho, amarelo e azul, segundo os caprichos da palheta do Criador.

Nos canteiros adubados, as roseiras também esperam para desabrochar em plenitude. Mais afoitas algumas se anteciparam e foram além da expectativa, exibindo tímidas amostras, que certamente se multiplicarão no momento certo.

Fico a pensar em como esses espécimes híbridos produzem muito, mas suas flores não têm perfume. É o preço pago pela seleção biológica que resulta em formas e cores inusitadas, aliadas à resistência contra insetos e pragas. Falta alguma coisa, porém, às rosas inodoras; é como se fossem belas mulheres que jamais sorriem.

Cultivando o prazer de cheirá-las e fruí-las inteiramente, mantenho uma roseira das antigas – dita de Santa Terezinha – que é bisneta (ou seria trineta?) de um exemplar que havia no jardim de minha saudosa mãe. Pequena e delicada, meio furta-cor, sua florada acontece em pequenos cachos intensamente perfumados. Colho-as para enfeitar a capela, junto com delicados galhos de jasmim-limão.

É tal o poder evocativo do olfato que, fechando os olhos, sinto como se eu tivesse sido transportada de volta à casa ancestral. Dá até para escutar as rezas e os cânticos, entreouvir o crepitar das velas nos castiçais, partilhar a sensação de segurança e de pertencimento à família que se reúne em intermináveis novenas, ao longo do ano.

Abro os olhos e caio na real. Quase todos os que ali estariam já partiram. A velha fazenda resta semiabandonada; ainda que tenha sido oficialmente declarada patrimônio histórico, nenhum dos atuais donos mora lá. O teto do engenho caiu; suas robustas moendas de ferro desapareceram. Desabou a casa de farinha, a bolandeira, o armazém, a “Atractiva Cruzense” – que assim se chamava a pequena loja onde se comercializava coco babaçu e vendiam-se gêneros de primeira necessidade, como o sal e o querosene. Consta que o pátio, com suas filas duplas de mangueiras, foi tomado pelo mato; e que morreu o belo pau d´arco onde se aninhavam os xexéus.

Tantos anos...tanto tempo... Pessoa alguma está verdadeiramente morta enquanto sua fisionomia persiste na lembrança e no coração de alguém. Eu os lembro, a cada um dos entes queridos – os familiares, os empregados, os meninos e meninas que foram meus companheiros de brincadeiras. Não os verei novamente, mas é bom ir buscá-los no fundo da memória, junto com os cheiros e os sabores da infância.

Nesse último quesito, há também novidades com a chegada da primavera: o pé de cajá-manga está coberto de frutos pequenos, mas deliciosos. Teremos pitangas, deliciosas pitangas com sabor peculiar – sabor de travessura, o caldo vermelho e cheiroso escorrendo da boca. A florada das mangueiras parece promissora, assim como os limoeiros carregados; os cajueiros começam a dar os primeiros frutos.

Bem-te-vis e pássaros pretos passam em vôos rasantes, que aqui o espaço é deles, como também dos beija-flores, dos coleirinhas, das maritacas, dos tucanos. Em tudo se vê beleza e harmonia – não será essa a voz de Deus, regente supremo da vida e da natureza?

Setembro chegou – virá outra vez a primavera!

(Publicado no jornal "Diário da Manhã" de Goiânia em 05 de setembro de 2017)