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MILHÕES...BILHÕES...

 Com a aproximação das eleições, chegou a temporada dos milhões e bilhões. Fala-se na aprovação de um bilionário fundo parlamentar destinado a financiar “eleições democráticas”, a ser distribuído (e gasto) pelos partidos, seus dirigentes, candidatos e parlamentares. Mesmo os partidos nanicos, que só aparecem em tempo de campanha.

Perguntei a um veterano político para onde vai, ou para quem iria essa montanha de dinheiro. Afastado da disputa pelos achaques da idade, respondeu-me que há toda uma estrutura montada para negociar os votos. O primeiro passo é “fechar” com os líderes comunitários ou dos bairros, que controlam o eleitorado das periferias, onde se decidem as eleições. Dá-se uma espécie de leilão: quem “tem” 500 votos, por exemplo, oferece-os aos candidatos A, B e C. O que der mais leva - ou seja, paga em dinheiro a quantia pedida pelo ofertante, com a garantia de que “seus eleitores” irão sufragar o pagante.

E se o número de votos dados não corresponder ao prometido? Nesse caso – ele explica – não há como reverter o resultado; na próxima eleição, entretanto, o líder faltoso não conseguirá negociar com sucesso sua cesta de sufrágios. Indago o que faz com que os eleitores sigam a orientação de tais agentes. A resposta é simples: na base dessa relação, há sempre uma reciprocidade de dons ou de favores, dispensados pelo próprio cabo eleitoral ou resultante da ação direta do político ou do candidato.

Na estratégia das campanhas, é decisiva a atuação do intermediário - “cabo eleitoral” (está fora de moda), “assessor parlamentar”, “consultor eleitoral”, “líder comunitário”. É ele quem está próximo do eleitor; conhecem-se pessoalmente e – até certo ponto – confiam um no outro. A maior parte dos votantes não lê jornal e pouco se interessa pelo noticiário, pelo que são tais agentes que definem a destinação dos votos. A atuação deles intensifica-se com a aproximação das eleições – momento em que a fatura é negociada (leiloada?) entre os candidatos.

E o que é feito com o dinheiro pago? “Cada caso é um caso”, lembra o experimentado depoente. Há despesas com churrascadas, cervejadas, carreatas, forrós e arrasta-pés que funcionam como vitrines da viabilidade do candidato. Isso sem falar em propaganda, impressão de santinhos e cartazes, mala direta ao eleitor... Alguns querem que o candidato pague a conta de luz, as mensalidades do colégio do filho, os óculos, a dentadura da sogra. Outros pedem consultas, exames médicos, cirurgias.

Muitos exigem dinheiro vivo. O cabo/consultor eleitoral embolsa sua quota; entretanto a maior parte do numerário se dilui numa surreal distribuição de renda que, na forma de migalhas, chega aos mais pobres e desassistidos, que são milhões em nosso País.

Meu experimentado informante prossegue em sua análise: o Brasil tem um dos maiores colégios eleitorais do mundo. Mas a maioria dos votantes não concluiu sequer o ensino fundamental, além de haver entre eles grande número de analfabetos. O que significam convicções democráticas ou programas de governo para essas pessoas? Qual a sua capacidade de entender, criticar e sugerir propostas ou ações de interesse público? Quais as expectativas que as motivam a comparecer às urnas, senão seus próprios interesses imediatos? Sabem que naquele momento são lembradas: por que não negociar o voto em benefício próprio?

Dada a crescente complexidade da sociedade e do mercado eleitoral, o valor cobrado pelos agentes eleitorais aumentou: a decorrência lógica é o encarecimento das eleições. Como enfrentar tais custos, agravados pelo famigerado marketing político?

A nova elite política que se formou no País nos últimos anos – diz o veterano depoente - é financiada por negócios de grande vulto e lucros certos (nem sempre honestos), nos transportes públicos, assembleias ou igrejas messiânicas, supermercados, motéis, frigoríficos, empresas de coleta de lixo, postos de gasolina etc. Representantes desses segmentos são numerosos nos vários níveis dos três poderes da República. Aparentemente bisonhos, nada têm de ingênuos quando passam a integrar a elite do poder: querem ganhar mais dinheiro e expandir suas empresas, com recursos provenientes de órgãos e verbas públicas, ou seja, dos impostos pagos pelos contribuintes.

Concluindo, observa que os políticos que rezam pela cartilha do civismo e do bem público estão fadados a desaparecer, engolidos pela espiral de ganância que afeta a política. Parece óbvio que quem investe milhões, precisa ganhar milhões, até para repor o que gastou; além de outros tantos milhões para “irrigar” o eleitorado, via intermediários que igualmente se beneficiam do sistema.

Milhões...bilhões... Outra face da questão é o patrimônio dos candidatos, conforme declarado à Justiça Eleitoral. De onde vieram tais fortunas? Alguns – como o notório Paulo Maluf - são herdeiros de famílias milionárias. Outros fazem alarde de origem familiar paupérrima, mas ostentam “portfolio” de fazendas, imóveis urbanos e empresas florescentes, adquiridos quando no exercício cargos públicos. Sem falar nas contas milionárias em paraísos fiscais no exterior. Seriam resultantes de prêmios lotéricos ou de invulgar tino financeiro e administrativo?

De onde a pergunta: a saída, onde está a saída? No fundo público bilionário que está prestes a ser autorizado pelo Congresso, com vistas às próximas eleições?

(Publicado no jornal "Diário da Manhã" de Goiânia em 12 de setembro de 2017)