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TEMPUS FUGIT

Participei, recentemente, da reunião comemorativa dos 45 anos de formatura da segunda turma do curso de Comunicação Social – Jornalismo, da Universidade Federal de Goiás. O convite veio-me pelas mãos de Jales Naves, organizador do evento, que gentilmente me presenteou com o livro de sua autoria sobre o ex-governador Otávio Lage; além de um exemplar da reedição de “Contribuição à História da Imprensa Goiana”, de José Lobo (1ª edição: 1949).

O gesto tocou-me e fez-me aflorar lembranças há muito soterradas.  Diziam os antigos: “Tempus fugit”, porquanto meses e anos como que se atropelam em desabalada carreira, pouco marcando a lembrança de quem os vivenciou. Entretanto, aqueles idos de 1969 a 1973 gravaram-se em minha memória com nitidez. Nesse período, fui Diretora do Instituto de Ciências Humanas e Letras – o ICHL, então  maior e mais complexa unidade didático-administrativa da Universidade Federal de Goiás.

Com efeito: ali funcionavam os cursos de Ciências Sociais, História, Geografia e Letras – nas modalidades Vernáculas, Neolatinas e Anglo-germânicas; e, claro, Comunicação Social, na habilitação Jornalismo. O mesmo Instituto oferecia também o Primeiro Ciclo Geral de Estudos, que era básico e comum àqueles cursos, além dos de Direito, Pedagogia e outros mais. E ainda matriculava alunos de toda a Universidade, em matérias eletivas.

Fui designada Diretora pro-tempore do ICHL em 1969, sucedendo o professor Olavo de Castro, de Ciência Política, que se transferira para Brasília. Em 1970, a Congregação elegeu-me para a direção dessa unidade, com mandato que se estenderia até 1973.

Dentre os muitos desafios que se apresentavam o bom funcionamento do curso de Jornalismo estava entre os mais prementes. Ao momento de fundação – de sabor pioneiro e heroico – segue-se a rotina da adequação às leis e normas que regem a matéria. Para que os diplomas tivessem validade, fazia-se preciso o reconhecimento do curso, o que presumia o regular provimento de disciplinas, instalações, biblioteca, equipamentos e assim por diante. 

O curso fora criado em 1968, resultando de gestões, junto à Reitoria, da Associação Goiana de Imprensa e do Sindicato de Jornalistas Profissionais de Goiás, que assim expressavam reivindicação dos aspirantes a formação de nível superior nessa área.

À época, eu integrava o Conselho Federal de Educação, sendo membro da Câmara de Ensino Superior, onde seria debatido o pedido de reconhecimento do curso, antes de seguir para o Plenário. Nos Relatórios encaminhados como Diretora do ICHL à Reitoria (1969-1973) são referidas as gestões e os incontáveis pedidos relativos a providências que eram necessárias ao bom termo desse desiderato. De igual modo, são referidas parcerias com a ECA (Escola de Comunicações e Artes de São Paulo) e com a Universidade de Brasília; contamos com a colaboração do Jornal do Brasil e do Correio da Manhã (RJ), dentre outros grandes jornais; e recebemos a visita de “experts” de renome nacional e internacional, como Abraham Moles (Estrasburgo) e Tvetzan Todorov (Paris).

Enfrentando dificuldades, providenciamos a contratação de um professor e a instalação do Laboratório de Fotojornalismo; apoiamos a publicação do jornal laboratório “O Foca”; ampliamos o quadro docente do Departamento de Comunicação. Colaboramos com iniciativas dos alunos e de órgãos da imprensa na realização de seminários, semanas de estudos, pesquisas etc.

Depois de prolongadas démarches, em 1973, realizou-se concurso público, em nível nacional, para o cargo de professor titular em áreas especializadas da Comunicação, sendo contratados os doutores José Carlos Rocha de Carvalho, Francisco Eduardo Ponte Pierre e Hélio Furtado do Amaral. A eles, somaram-se assistentes e auxiliares de ensino, completando-se o elenco do Departamento de Comunicação, que viria a tornar-se um dos mais atuantes do ICHL. Tais esforços objetivavam, sobretudo, o bom nível de ensino ministrado pelo curso de Jornalismo da UFG, reconhecido como um dos mais conceituados do País.

Como visto, minha modesta contribuição nesse longo e atribulado processo resultou de circunstâncias pessoais e institucionais que se somaram. Além de eu mesma ser jornalista, filiada à AGI, há muitos anos, como cronista da “Folha de Goyaz”, do “Jornal de Notícias” e de “O Popular”.

Finalmente vencidos entraves burocráticos e acadêmicos, o reconhecimento do curso veio a efetivar-se em 1977, quando era diretora do Instituto a saudosa Professora Maria Antônia França Gonçalves. Com alunos e professores, ela esteve em minha casa, no Setor Sul, convidando-me para a formatura da primeira turma que receberia o diploma depois do tão almejado final feliz. Fiquei tocada com a gentileza – assim como agora, 45 anos depois, ao ser lembrado o trabalho desta velha professora aposentada. Que – orgulhando-se de ser sócia da AGI - ainda continua a escrever e a acreditar na liberdade de pensamento e de expressão, assim como na força das ideias para a construção de um mundo melhor.

 (Publicado no jornal "Diário da Manhã" de Goiânia em 26 de setembro de 2017)