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MULHERES NO PODER

Vantagem da velhice é acompanhar as mudanças que vêm com o tempo. Nesse item, minha geração tem sido privilegiada, tantas e tão espetaculares foram as que presenciamos e vivenciamos. Uma delas é, sem dúvida, o novo estatuto da mulher, traduzido na liberdade com que mesmo as mais jovens ora se conduzem.

Para que se chegasse a esse ponto, uma longa estrada foi percorrida, tendo as feministas como precursoras e batalhadoras. Não faz tanto tempo assim que mulheres lutavam pelo simples direito de votar. No Brasil, somente com o Código Eleitoral, editado por Getúlio Vargas, passamos a fazê-lo. A partir do federalismo vigente na Primeira República, alguns estados chegaram a permitir o voto feminino. Como aconteceu em Goiás, onde o assunto apaixonou a opinião pública, na década de 1920, quando Benedita Chaves Roriz, de Santa Luzia (Luziânia), conseguiu alistar-se como eleitora, graças a sentença judicial que foi revogada em instância superior.

Certo é que desde o Código de 1932, mulheres elegeram e foram eleitas para o congresso nacional, assembleias estaduais, câmaras municipais e prefeituras. De alguns anos para cá, cresceu o número delas – inclusive como governadoras, ministras e até presidente da República, trazendo consigo a esperança de que a política se renovasse e aperfeiçoasse, sob o influxo da presença feminina.

O que, infelizmente, não ocorreu – e uma primeira avaliação nada tem de animadora. As mazelas tradicionais do fazer político persistiram, nem sequer foram alteradas para melhor. Se mudança houve, diria que foi para pior, tendo em vista a proliferação das candidatas matrimoniais ou parentais: mulheres que se candidatam e se elegem à sombra dos maridos ou dos pais, homens de projeção no cenário político-administrativo.

O fenômeno não é brasileiro, mas supranacional. Na vizinha Argentina, o casal Kirchner fez dobradinha: de início, ela foi “primeira dama”; na sequência, ele se tornou “primeiro marido”. Com o detalhe de que a presidenta Cristina sempre se apresentou como manequim de moda retrô, a basta cabeleira solta, o batom carregado, o rímel exagerado.

Nos Estados Unidos, depois de um escândalo midiático, os Clinton voltaram às boas com vistas ao projeto político da senadora Hillary. Que, efetivamente, quase retornou à Casa Branca, desta vez como primeira mandatária, mas viu-se preterida pelo carismático Obama e, já agora, pelo imprevisível Trump.

No Brasil, curiosamente, é nas regiões supostamente mais machistas que a presença feminina é maior, em altos postos do executivo e do legislativo: governadoras, senadoras, prefeitas de capitais. A defenestrada ex-presidente Dilma Rousseff conseguiu a façanha de reunir muitas mulheres no ministério e em outros cargos de primeiro escalão da República - com a infausta característica de todas serem enroladas na vida pessoal e profissional, além de mal educadas, feias, quando não horrorosas! Exceção feita da ínclita Gleisi (Narizinho) Hoffman, que funciona como garota-propaganda de bisturis estéticos.

Nesse meio tempo, usos e costumes mudaram. Nunca se falou tanto em respeitar as diferenças, em aceitar o outro, em condenar preconceitos. Passaram a serem especialmente valorizadas as autoproclamadas minorias, tais como afrodescendentes, mulheres, índios e portadores de necessidades especiais. Tudo bem, em relação aos últimos; quanto aos dois primeiros, as estatísticas provam que eles formam a maioria da população brasileira.

Leis foram editadas para incentivar mulheres a entrar na política, instituindo-se a obrigatoriedade de determinados percentuais de candidatas nas chapas dos partidos – o que seria ampliado, nas próximas eleições. Nem assim aumentou a presença feminina nas disputas eleitorais: simples desinteresse? Ou desencanto diante das chamadas “realidades” da vida político - partidária? Dado interessante diz respeito ao pequeno percentual de mulheres diretamente envolvidas nas teias da Lava Jato. Ou será que elas foram mais cautelosas e deixaram menos pistas de mal feitos, como diria D. Dilma, ela própria encarnando a mais acachapante frustração do eleitorado feminino?!

Agora, uma réstia de esperança nos acena no fim do túnel escuro em que se tornou o noticiário do dia a dia: as mulheres estão à frente dos mais altos cargos do Poder Judiciário, sabidamente o mais seletivo e o mais exigente dos poderes da República. Esta cronista de província as vê com admiração e simpatia; e torce para que resgatem (para melhor) a imagem da mulher brasileira em altas funções governamentais.

À frente dos tribunais superiores e da Procuradoria Geral da República, que se mostrem competentes, preparadas, sensíveis e éticas, capazes de trazer um sopro renovador e higienizador ao nosso cotidiano tão conspurcado. A esse perfil, que acrescentem o toque de generosidade e a capacidade de doação próprios da natureza feminina. Além, é claro, de continuarem a se apresentar com discrição e elegância – como o fazem desde sempre, levando ao esquecimento o vocabulário de sarjeta que esteve em voga até há pouco tempo atrás.

(Publicado no jornal "Diário da Manhã" de Goiânia em 03 de outubro de 2017)