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Miraculosa S. continentallis

Miraculosa S. continentallis

 Miraculosa S. continentallis

Há dezessete anos, fomos convocados, eu e uma equipe de profissionais do meio científico – botânicos, ecologistas, agrônomos, engenheiros genéticos e florestais – para compormos uma frente de pesquisas comandadas pela University of Tókio em parceria com grandes nomes e universidades da Austrália, Canadá, Brasil, China e Índia, cujo objetivo seria desenvolver uma variedade de planta de crescimento rápido, ciclo de vida controlado. Sua principal função seria, como chamamos na ecologia, a de pioneira na reestruturação de um ambiente florestal degradado, ou seja, recomporia o solo em uma fase, mas daria lugar às espécies nativas em seguida. 

                No começo, nos valemos dos métodos tradicionais de cruzamento entre espécies diferentes selecionando os portadores das características desejadas. Porém, como do cruzamento, até o desenvolvimento da planta adulta levaria um tempo absolutamente grande, principalmente pela seleção das herdeiras das características genéticas desejadas, inviabilizaria a pesquisa, chegamos a essa conclusão após os primeiros 14 meses sem sairmos do lugar. Por essas percepções, dois engenheiros genéticos propuseram a técnica de DNA recombinante para que se desenvolvesse um indivíduo completamente novo. Com isso, naquele início do século XXI parecia o momento propício para que se iniciasse o grande feito. Por um certo momento me vi naqueles longos diálogos do álter ego do escritor Michael Crichton, na figura de Ian Malcon, em Jurassic Park, apresentando a teoria do caos e a capacidade da vida ser livre.

Justamente por isso, nós; da botânica, juntamente com ecologistas e geógrafos, em contrapartida, nos opusemos àquela loucura. Verdadeiros embates tomaram dias e noites, cujo o principal inimigo era o tempo que a natureza exercia para que pudéssemos seguir a diante com a pesquisa, e a necessidade de ver o projeto concluído. “E se a perdermos o controle sobre a planta?!” defendíamos, “É só uma planta, claro que podemos controlar sua reprodução, serão estéreis, não poderão se reproduzir sem flores”, nossa defesa e argumento foi posta imediatamente a baixo por dois engenheiros indicados pelo grande financiador do projeto, Mon Santo.

Logo iniciamos o sequenciamento genético, de uma variedade de plantas. O projeto Genoma, que já havia concluído a maior parte do que propunha àquela época, foi fundamental para que usássemos sua tecnologia e seus métodos para aplicarmos à nossa pesquisa. Consultamos dois brasileiros técnicos da Embrapa em regiões hostis, sobre qual planta poderíamos apresentar como contribuição para as características desejadas. Das pradarias do sul do Brasil, região de aridez, baixas temperaturas no inverno, se contrapondo ao verão com temperaturas elevadas e de alto índice pluviométrico, veio à tona uma espécie de Estilosante que se adaptara bem ao cerrado, na década de 90, cujo alto valor nutritivo para o solo, raízes fortes e profundas, capazes de reter água, fixar nitrogênio ao solo (sendo uma leguminosa), atrativa para a alimentação dos rebanhos, foi amplamente aceita como espécime base para dar origem à nova espécie.

De um tipo de bambu chinês, vieram os genes que permitiriam crescimento rápido e ciclo de vida curto. Para o objetivo a qual nos planejamos, necessitávamos de um porte elevado, ao qual selecionamos de eucaliptos australianos e de sequoias das florestas do norte da américa. Após inúmeros brotos de tecidos vegetais avaliados, por quase dois anos de inúmeras análises laboratoriais, estava pronta.

Nos seis anos seguintes, vieram os trabalhos de campo, após exaustivas observações de interações ecológicas em áreas controladas, novos sequenciamentos genéticos observando mutações, isolamento de genes com características expressadas de formas inadequadas, reajustes de loci genéticos, já poderíamos registrar a nova espécie e a nova marca como patente, a Stylosanthes continentallis. Enquanto em campo fechado obtivemos grande sucesso, nos dois últimos anos de pesquisa, em campo aberto nos associamos a uma universidade Chinesa, sendo a proposta a de reflorestamento de um trecho do rio Yan Tsé Kiang, com suas cheias incontroláveis que o assoreavam cada vez mais e ameaçavam as populações crescentes em sua margem e a vasão da hidrelétrica de Três Gargantas a jusante.

Desde a semeadura o projeto foi um sucesso. Em duas frentes, associamos dezenas de espécies florestais nativas da China e em menos de cinco meses os barrancos foram tomados por um vende intenso em contraposição aos campos de arroz amarelados remanescentes. As espécies nativas cresciam rapidamente, dado a qualidade nutritiva do solo, e em dois anos a S. continentallis  havia concluído seu ciclo sem nenhuma forma de reprodução. Na outra frente, como espécie única, no mesmo intervalo de tempo de plantio, os rebanhos foram liberados para pastarem a atrativa e nutritiva planta, o maior recorde de produtividade de proteína animal alcançando por hectare, próximo aos índices de animais em confinamento, mas em um processo totalmente orgânico e ecologicamente correto.

No início de 2013, o governo japonês e a University of Tókio, pronunciou a conclusão da pesquisa em artigo na Nature, e o nosso maior patrocinador lançando no mercado o último produto da Revolução Agrícola. A S. continentallis, em fim se tornara a “espécie dominante”. Em oito meses, passou a compor, ao contrário do objetivo inicial do reflorestamento e alternativa às pastagens em degradação do solo, praticamente todas as grandes lavouras, em associação às outras culturas, cujas colheitas chegaram a safras recordes rapidamente, mais uma queda do preço de comandites, arrasando com economias subdesenvolvidas. A empresa arrecadou trilhões em menos de três anos fornecendo as sementes que só ela detinha, por serem “estéreis”. Nós faturávamos nossa rica parte com a patente e contrato firmado. Um verdadeiro sonho, sem preocupação com horas a fio nos laboratórios, escrevendo e fazendo infinitas análises que acabaram com minha saúde nos últimos anos. Em cinco anos os cinco continentes agricultáveis tinha áreas enormes cultivadas de alguma forma em associação com a milagrosa planta

Cobrando sua alíquota, no entanto, a natureza mostrou-se, como previa e demonstrava Crichton, soberana e eliminaria àquela ameaça gritante que liquidava a diversidade, nós. De alguma forma, após a 11º geração de sementes, algo estranho que havíamos conseguido combater em laboratório, começou a se manifestar, a reprodução vegetativa. Provavelmente herdada do bambu, inúmeros brotos passaram a estender lavoura a lavoura competindo com as espécies agrícolas pelo espaço e exterminando-as. Não era possível controla-la, não havia fabricante de defensivo agrícola que pudesse ser reproduzido a tempo para contê-la, a final as indústrias do setor haviam falido ante a proteção que a planta garantia. Rebanhos passaram a ser poupados do abate na tentativa de serem confinados em piquetes até comerem toda a vegetação. O que a princípio de certo.

Mas como todo sistema interligado, as cidades iniciaram crises de abastecimento impossíveis de conter a revolta social pelo preço abusivo e escassez de alimentos. As fazendas invadidas, sistema de selvageria se instalara, rebanhos dizimados. Todo setor de segurança passou a ser redirecionado para pequenas comunidades a fim de se conter as revoltas e lançar uma solução para esse desequilíbrio. Áreas florestais que detinham o avanço da planta e mantinha a diversidade, passaram a serem alvos setores familiares de agricultura, mas não sobrevivendo a três anos de ciclo, por invasões, matanças e disputa pela escassa terra produtiva e ocupação dos brotos. O fato é que padecemos pela fome, em meio a fartura e promessa que tínhamos desse milagre. Dois terços da população mundial devastada, sem previsão de conter as revoltas, as cidades são territórios de facções, poucas formas de governo interligadas, sobrevivo sim, observando minha criação ganhar vontade própria, responsável por mais mortes de inocentes que qualquer guerra, sem previsão de alguém conseguir se opor a ela, a miraculosa S. continentallis.

 

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