Publicações

Babalu, o craque da bola

Estamos em ano de Copa do Mundo e ainda mais no Brasil! Tudo parece ter ficado esférico, “descendo redondo”; já que o próprio planeta é uma bola. E essa bola vai rolar ainda mais por ser, também, ano de eleição estadual. Podem rolar bolas e cabeças! Esse clima de gente correndo atrás da redonda, ao que parece, contaminou até mesmo os nossos queridos bichinhos.

Meu pai, já com 83 anos, mora com sua esposa numa casa de interior, em Trindade, com um belo quintal todo plantado, e, entre jabuticabeiras, pés de romã, laranja lima, coqueiros da Bahia, atas e acerolas, há um calçamento original que eles mandaram fazer. Na massa de cimento, fizeram colocar, tal qual um mosaico, centenas de cacos de cerâmicas, trazidas do entulho, que formaram um piso bem original. Na maioria, brancos, os cacos, nas noites enluaradas, parecem pequenas estrelas e clareiam o quintal de uma forma surpreendente.

Como todo quintal, não poderia faltar os bichos. A gata Jandira ou Bolinha, de três cores, já idosa, pariu um gatinho único, bem pretinho, pequeno e magricelo. Era um cisco! Minha filha Maria Paula o batizou de Babalu. Ele era horrível, meio banzé, encardido, de cor indefinida, manchado; não tinha nenhum atrativo.

Rapidamente ele cresceu entre mimos e brinquedos, tomando conta do quintal. Virou um gato enorme, todo preto, de cor firme e olhos grandes, caneludo, comprido, de rabo grosso, gordo, mimoso, mimado, voluntarioso. Diferente da maioria dos gatos, ele aprecia um banho na torneira do tanque, bem fresquinho nesses dias de calor. Gosta de shampu cheiroso para deixar sempre lustroso seu negro pêlo.

Como todo gato quando filhote, Babalu gostava de brincar com coisas miúdas como gravetos e folhinhas, dando saltos e pulos bem engraçados. Milha filha Maria Paula fez um kit de brinquedos e bugigangas para ele como fitinhas, brinquedinhos de borracha e de plástico. Ele, por vezes, saía correndo atrás dos brinquedos ou se enrolava com eles, ficando de pé apenas com as patas traseiras. Andava um tempão feito gente, mas meio de banda; o que era engraçadíssimo. Também, gostava das rolinhas desprevenidas no quintal. Fazia saltos incríveis, como qualquer desportista e váp!, pegava a bichinha no ar.

O que ninguém sabia é que o Babalu era um craque no futebol!

Foi por um feliz acaso a descoberta. No quintal há um estaleiro de maracujá, daqueles pequenos, redondos, de fazer deliciosos sucos. Quando maduros, os mesmos despencavam pelo calçamento meio inclinado para a rua. E para surpresa de todos nós, um belo dia, numa manhã de sol, estava o Babalu a jogar freneticamente com um maracujá em sensacionais dribles e correrias, deixando muitos craques no chinelo!

Sozinho ele poderia garantir uma Copa do Mundo! Jogava até a exaustão com seu maracujazinho amarelo. Quando auxiliado por meu pai que lhe arremessava os maracujás, o bichano dava provas do seu insuperável talento como craque da bola.

Como homenagem ao seu esforço como jogador, eu e minha filha Maria Paula lhe compramos uma bolinha de borracha, imitando a bola real do jogo, que constituiu sua alegria. Todos os dias, o craque Babalu bate sua bolinha no quintal, para alegria de muitos.

O problema é que, como todo craque de futebol, aliás, como todo ser humano, Babalu tem suas fraquezas. Ficando adulto, dono da bola e do quintal, apaixonou-se por uma gatinha branca da vizinhança e partiu para a vida boêmia. Por vezes seus jogos são interrompidos porque suas pândegas são violentas. Chega em casa de manhã bem cedo todo escoriado, manco, pêlo rasgado, faltando até pedaços de pele, num miado fino, comprido, desatinado; pedindo ao meu pai o seu substancioso café da manhã, o carinho e os cuidados com suas perebas, além de um banho mais morno, no tratamento de seus arranhões.

Como todo craque do futebol, Babalu excede. Não cuida da saúde. Dorme pouco e é apaixonado por gatas brancas. Gosta da pândega, do barraco, do balacobaco, da quiçaça, da farra, do freje, da esbórnia, da muvuca, da furupa.

Até quando irá a “carreira” de Babalu? Já fica ele até alguns dias sem jogar porque machuca sempre a perna na briga com outros gatos pelos telhados da vizinhança.

E quando descansa, como mostra na fotografia, o craque não larga sua bolinha, abraçando-a perto do coração. Com ela junto ao peito ele dorme e sonha que o mundo é um grande quintal onde os sonhos são como bolas, arremessadas, fugidias, trêfegas, difíceis de alcançar.

No ano da Copa do Mundo no Brasil um espaço de ternura para o Babalu, mascote, amante da bola e dos jogos, gatinho preto jogador!