Publicações

Alba Dayrell, poética e realista, entre razões e emoções

Razão e Emoção, novo livro de crônicas de Alba Dayrell, possui o verdor da escrita, a naturalidade e a graça fortuitas; a beleza acerba, a gritante verdade em cada uma de suas páginas, a revelar segredos, poéticos ou não, na singularidade de uma mulher. Intenso e denso, o livro está sustentado na perspicácia de uma nobre senhora, na madureza da vida, na consciência de si mesma e do mundo, a revelar-se inteira em cada letra, em cada parágrafo; a derramar emoções, mas com os pés sustentados o chão do mundo, altaneira.

Há, no livro, de forma tocante, a sensação de frescor que nos comunica cada página, a franqueza imperturbável, a poética dos sonhos, as sublimações, pois somos um misto de rosa e pedra, verdade e sonho, idealização e concretude. Há uma dualidade constante nesse chocante paradoxo que se assemelha o título. Como encontrar um elo entre a realidade e o sonho? Eis um milenar questionamento que lança raízes nos tempos imemoriais.

Nesse jogo de sentidos, reais ou imaginários, oníricos ou verdadeiros, cada crônica vai, docemente, a tecer filigranas douradas de sentidos, a levar o leitor ao doce emaranhado lingüístico proposto pela autora. Nela, há um resgate do insuperável afeto, como se a vida fosse pouco a pouco sendo descoberta com olhos mais sensíveis, aqueles nascidos da alma enternecida.

Há um esforço contínuo de compreender com ternura o mundo, de criticar com agudeza as contradições e os desacertos; daí a razão do título paradoxal. Mas, por trás de cada crítica, velada ou contundente, há, também, a reconquista lírica do cotidiano, que transforma o livro num tom rosáceo entre o bucólico e o comovido, de uma opacidade translúcida. Há transcendência e, ao mesmo tempo, pés firmes no chão dolorido do mundo, com suas tramas e sofrimentos.

Pelos olhos dessa grande dama, refinada e culta, vemos e amamos o que ela amou, soprado pela genialidade da palavra eternizadora. Há, nela, a apreensão do mundo. Reconquista do mundo. Ternura do mundo. Daí, também, nossa cumplicidade com o que escreve, a identificação do nosso eu derramado na tessitura narrativa.

É um livro para ser lido sem pressa, numa tarde de sol esmaecido. Produto de horas de lazer e entretenimento. Feito para se pegar e se deixar sem mais aquela, de se deliciar em cada linha na impressionante verdade, na fluência remansosa da narradora, que manipula o seu material com certeira e indescritível singeleza, naturalmente, com a presença de espírito lúcido e coerente, sem deixar os ramos poéticos que se entrelaçam em diversas descrições profundas e belas.

Na obra, coexistem mundos diferentes, conflitantes ou não, tecidos por uma exata e espirituosa análise de mundo. Esse universo da coexistência também íntima da autora se contrasta com os divergentes do viver externo e social, ao criar ou elucidar uma agudeza crítica aos errados do tempo. Nesse ponto centra-se a perspectiva da crônica como um retrato imediato do fato, visto no tempo presente, na “dor ou na delícia” do momento.

Nesta obra há todo um universo de minúcias que reconstitui em mosaico, a dimensão concreta de uma cultura genuína, consciente dos seus vigorosos laços e valores científicos e, ao mesmo tempo, populares. Há uma evocação do mundo antigo, mas, também, uma lucidez na concepção do mundo atual, com seus medos e conflitos.

A autora se expressa de maneira acorde, reconstrói saudosamente, fora da corrente do irrecuperável, o avoengo sentimento de solidez e tudo parece estar impregnado de eternidade, mesmo que se assemelhe destruído, há uma acentuada reconquista pelo imaginário e pela expressão de beleza da palavra. E por esse jogo mágico, o leitor alcança, de manso, quase imperceptivelmente, certo clima encantatório inexplicável.

Há um amplo painel que reproduz com emoção e perspicácia, limpidamente, o território humano alcançado na prosa de Alba Dayrell. Um amplo painel que reproduz, limpidamente, o território humano alcançado na dimensão telúrica e onírica desse importante livro às letras de Goiás, fruto da observação de uma mulher segura de si e de seu papel num mundo em frenética mutação.

E nesse mosaico de emoções e realidades, Alba Dayrell, mineira da bela cidade de Araguari, há quase sessenta anos reside em Goiânia, pois aqui chegou em 1957, ainda bem jovem, há tons de rara beleza. Viveu a fase áurea da jovem cidade, do tempo da “capital brotinho”, das festas, do teatro, dos flamboyants floridos da Avenida Tocantins, da Rua 23, do Grupo Escolar Modelo, do Teatro Goiânia, da música; lembranças estas tão bem relatadas em sua obra A descoberta de um mundo encantado, publicada em 2012.

E toda sua existência vem tecida nesse alumbramento diante dos fatos, diante das paisagens que se descortinaram ante seus passos. Menina, moça, mulher, esposa, mãe, avó, escritora, professora, acadêmica. Uma miscelânea de atividades em que sempre pautou por êxito e por coerência, ao misturar realidade e sonho, Razão e Emoção, continuamente.

A bela menina/moça poetizando paisagens desde Araguari, acolhida no resfolegar da Estrada de Ferro Goyaz, até Goiânia nascente, soube escolher suas estradas, na completude do ser. Buscou no amado companheiro, Carlos Leopoldo Dayrell a herança poética, que lança raízes na velha Diamantina, em que, nos longes idos do século XIX, seu ascendente maior, de idêntico nome, foi comerciante em Santa Maria de São Félix e acompanhou o explorador Richard Burton, em 1867, na viagem exploratória, de canoa, de Sabará ao Oceano Atlântico; padrinho da não menos famosa Alice Dayrell Caldeira Brant, a Helena Morley, do diário Minha vida de menina, de reconhecimento mundial.

Nesse cadinho se fez Alba Lucínia de Castro Dayrell, no entrechoque de tantas emoções frutificadas em doce prosa, poética e arrebatadora. Professora de francês e piano na UFG, na Aliança Francesa e, de forma gratuita no Tribunal de Contas e na Brigada de Operações Especiais do Exército; vivenciou décadas de formação de jovens talentos; ela mesma, que bebeu da fonte imorredoura que foi Belkiss Spencière Carneiro de Mendonça, um ícone da música goiana. Na UBE secção de Goiás e na Academia Feminina de Letras e Artes de Goiás empresta o brilho de sua vivência e sua experiência musical e literária.

Razão e Emoção vem tecido por dezenas de crônicas, a maioria enfeixada e colhida de um ramalhete precioso que é o Caderno Opinião Pública do Jornal Diário da Manhã, da capital goiana. Estas produções retratam o seu lúcido posicionamento diante

da vida e dos fatos cotidianos, amarrados com recordações de tempos idos que “assim ela eterniza”, como o fez Cora Coralina.

Gênero relativamente novo, a crônica destaca-se pela rapidez e versatilidade. Desde Machado de Assis, passando por João do Rio, Sérgio Porto, Carlos Drummond de Andrade, Rubem Braga, Paulo Mendes Campos, ganhou notoriedade em revistas famosas como O Cruzeiro e Manchete, consagradas nacionalmente. Nesta primeira, o gênero feminino se destacou com a versatilidade e o talento magistral de Rachel de Queiroz, em belíssimas produções inesquecíveis.

Outros nomes de mulheres brasileiras também elegeram a crônica como pauta de suas reivindicações e lutas como Eneida de Moraes, Marisa Raja Gabaglia, Eugênia Álvaro Moreyra, Lazinha Luiz Carlos, Gilka Machado, Albertina Bertha Lafayete Stokler, Ivany Ribeiro; todas elas, de magistral talento, assim como no Triângulo Mineiro, o nome inesquecível de Dinorah Pacca, também com seus tristes versos.

Em Goiás, o gênero esteve atrelado à imprensa desde o século XIX, com nomes importantes na produção como Honorata Minelvina Carneiro de Mendonça ainda no jornal Matutina Meiapontense, em 1830. Outros nomes vão figurando na imprensa goiana como Genezy de Castro e Silva, Maria Carlota Guedes de Amorim, Mariana Augusta Fleury Curado, Illydia Maria Perillo Caiado, Altair Camargo de Passos, Laila de Amorim, Ofélia Sócrates do Nascimento Monteiro, Maria Ferreira de Azevedo Perillo, Graciema Machado de Freitas, Maria Paula Fleury de Godoy, Nice Monteiro Daher, Nair Perillo Richter, Antonio Juruena Di Guimarães, Jean Pierre Conrad, Bariane Ortêncio, Brasigois Felício, José Mendonça Teles, Belkiss Spencière Carneiro de Mendonça, Batista Custódio, Waldemar Gomes de Mello, Alcyone Hermano de Paula Abrahão, Zina Brill e tantos outros de igual talento,

Os assuntos das crônicas de Alba Dayrell são variados, múltiplos, coloridos; que formam uma colcha de retalhos de sentimentos. Pautam por temas como a natureza, as pessoas, os eventos, as entidades, os momentos, as cidades, as reivindicações, a poesia, a cultura, o místico e o sensorial. Identificam, todos eles, juntos, a autora diante do mundo, na contemplação embevecida das estações da vida, sem, contudo, ser meramente passiva; assumindo sua posição num ambiente de rápidas transformações.

A obra, densa e profunda, apresenta divisões internas. Na primeira, intitulada “Reflexões”, a autora constrói crônicas de elevado valor, ao colocar-se em atitude questionadora e evocativa sobre os mistérios e ocorrências do mundo. São crônicas de grande profundidade espiritual.

Em “O poder da mente”, evoca o estuda profundo da mente humana, a hipnose, os mistérios que envolvem a existência, ao citar o ocorrido com a sogra, com ela e do marido, ao colocar em evidência a existência de um mundo sensorial, e enfatiza, com propriedade, que somos um prolongamento, uma extensão de Deus.

Em “O desafio de nascer” destaca sobre a seletividade da natureza, a luta pela vida antes do nascimento, a própria vida como uma longa corrida para o alcance de uma pretensa vitória. Destaca a força cósmica que cada ser carrega em si, de forma individualizada. Já em “Grandes descobertas”, faz uma análise diacrônica das descobertas na esteira da história, desde os primórdios até a era da informática. Relembra que a grande conquista teve o preço negativo da perda dos elementos e dos valores essenciais da vida, dos costumes e da sadia convivência entre os seres.

Na crônica “A era da informática”, destaca o domínio atual, as ousadias eletrônicas, os absurdos dessa nova era sem precedentes. Destaca o novo sentido ao termo “navegar” e a necessidade de negação da robotização do homem. Prescreve a necessidade de se aliar conforto às atividades humanas, mas na apreciação do belo da vida. Em “Mãe e filho – Elos da mesma corrente”, a autora sublima o papel materno na história, ao relembrar o ícone mariano. Enfatiza os laços eternais da carne sobre este mundo; o significado de ser mãe, ao passo que esta possui o “cosmos” no próprio corpo.

Em “Fases da vida”, contempla embevecida, a vida na comparação com uma grande viagem, feita de escolhas felizes ou infelizes. Descreve a angústia atual do tempo e relembra Mireille Giuliano e os conselhos sobre beleza no fim da vida. Solicita ao Pai a dádiva de chegar aos 80 anos e ver os netos crescidos.

Já em “Doces e nostálgicas lembranças” relembra a natureza e o refazer humano. Coloca-se no exercício da contemplação e revê cada fase da vida; os filhos e seus destinos, como uma revisão do passado pouco a pouco. Na mesma linha de recordações, segue a crônica “Tempos felizes, aqueles!”, em que rememora, nostálgica e doce, a casa sempre aberta, o convívio social, os tempos das festas e filhos, os jovens

mortos quando ainda a vida lhes sorria, numa lembrança saudosa dos que tão cedo chegaram ao grande além. Com essa bela crônica, fecha a primeira parte da obra.

Na segunda parte do livro, intitulada “Religião” a autora muda o foco da produção, antes de opinião, quando passa ao estilo literário narrativo, em que enfeixa a crônica “Um homem desiludido”, ao narrar a história de um homem no banco da praça, e, por meio de um flash back narrativo, faz uma análise da ação daquele homem e tece comparações com a parábola do “Filho pródigo”.

Nessa mesma linha de produção literária, segue a crônica “Uma história sobrenatural” em que narra a trajetória de sua amiga Bartira e seu contato com o mundo espiritual, por meio da aparição de um espírito, que, ao ler uma carta, entendera não pertencer mais a este mundo. É uma crônica envolvente, carregada de estilo abrangente e arrebatador.

Na crônica “Um olhar de bondade” em forma dissertativa, a autora destaca o compassivo e brando olhar do Papa Francisco em sua visita ao Brasil. Evoca e rememora os detalhes dos lugares por ele visitados, a sua homilia e os seus exemplos renovados de humildade, e, ao final, conclama aos leitores seguir o exemplo do santo homem.

Já em “O martírio de São Sebastião” destaca sobre as crenças humanas e a necessidade das mesmas para a completude do homem. Coloca em evidência a vida e a história de São Sebastião, seus martírios e sofrimentos, mas sua renovada fé em Deus. E, fechando essa segunda parte da obra, apresenta a crônica “Visita à Capela de Nossa Senhora de Fátima”, em que rememora o milagre de Fátima, destaca e descreve quando lá esteve; a devoção em Araguari, sua cidade natal e o milagre recebido em criança, como prova de fé.

A terceira parte da obra se intitula “Natureza” e, nesta, evoca diferentes lugares pelo prisma geográfico e ecológico como “Aruanã e seus nobres rios”, ao ressignificar a beleza do cerrado e da natureza de Goiás; o que se evidencia também nas crônicas “Araguaia, meu rio querido”, “o entardecer no Rio Vermelho” e “Acampar no Rio Araguaia”. Em todas, o evocativo canto de amor à história, ao cerrado, às belezas naturais e à preservação de nossas riquezas mais preciosas.

Ainda nessa parte do livro aparece a crônica “Minha nora Carolina”, em que descreve os costumes da mesma, o seu sangue libanês e vilaboense numa doce mistura, seus banhos de rio, suas aventuras pelos ares, mares, rios e, de forma narrativa, destaca uma aventura cheia de peripécias da mesma em um barco com um “Messias” salvador.

Em “Visita à fazenda Pau d’Arco” em forma de narrativa, traça a descrição da chuva e do sol, os cheiros da terra e a chegada e os detalhes de uma estadia na rica região goiana, carregada de motivos e sentimentos. Já em “Piracema”, destaca sobre a questão da água, as mudanças climáticas e, de forma narrativa, descreve os cardumes no enigmático feito natural que nomeia a crônica.

Ainda em “Tubarões de Recife” descreve a cidade, assim como Olinda e seus visitantes e analisa sobre os tubarões vistos no local e a responsabilidade das autoridades com os turistas e visitantes. Há duas crônicas de caráter bastante científico como “A preservação das espécies do mundo animal” e “Os rituais da conquista e a reprodução das espécies”, em que a cronista evidencia a preocupação com a extinção de certas espécies, o amor/desamor filial de certos animais, a questão da comparação entre os hormônios juvenis e a conquista humana e animal, além dos jogos amorosos de várias espécies.

Esta parte da obra é fechada com duas crônicas singulares como “O canto dos pássaros” e “O pomar da nossa casa”, em que a cronista tece, poeticamente, uma relação entre história, existência e sentimento, sob a égide da percepção sensorial, vendo os pássaros urbanos, o pomar da casa com as mangueiras antigas, a origem do centro de Goiânia e do Setor Oeste e as extintas jubuticabeiras. Há, nelas, um halo de saudade.

A quarta parte da obra intitula-se “Viagens”. Nela, de forma diacrônica, a autora vai tecendo suas considerações pelos lugares onde passou. Em “Viajar é viver”, comenta sobre a qualidade de vida no ato de viajar, do conhecimento e do prazer também do retorno ao lar.

Já em “As belezas naturais de Londres”, rememora os belos parques, o Kensington Gardens, os pássaros, descreve a cosmopolita Londres e faz uma analogia com Goiânia e seus parques. Na última crônica desta parte, rememora novamente a

cidade em “Passeando pelas ruas de Londres” em que descreve suas ruas na lírica descoberta de uma cidade diferente num passeio a pé, descontraidamente.

Em “As belezas naturais da Escócia” descreve o cenário montanhoso, as paisagens, as ilhas, os recantos e destaca a tímida presença do sol ali, em apenas quarenta e oito dias no ano. Já em “Edinburg e Grasgow – Duas cidades contrastantes” faz uma analogia entre os charmes e belezas das cidades antigas, o castelo de Edinburgh; sendo esta capital cultural e Grasgow, a capital do comércio. Em “Cidade maravilhosa” descreve o Rio de Janeiro, os seus diversos cenários, o Cristo Redentor, a Lapa e o Corcovado e descreve sua gente e sua história.

Na crônica “A primeira vez que vi Paris” descreve o curso de francês feito naquela bela cidade nos anos de 1980 e, em detalhes, descreve a cidade-luz, no mês que por lá ficou. Ainda, de forma bem contrastante, aparece a crônica seguinte “Viagem à Amazônia” em que o exótico mundo brasileiro é visto no fascínio da natureza vasta, bravia e nua, a beleza agreste de Manaus, além dos detalhes do povo e seus costumes.

Nesse recordar da autora, rememorei a canção de Edith Piaf neste seu centenário de nascimento:, ao evocar o céu parisiense:

Sous le ciel de Paris

S'envole une chanson

Elle est née d'aujourd'hui

Dans le coeur d'un garçon

Sous le ciel de Paris

Marchent les amoureux

Leur bonheur se construit

Sur une air fait pour eux

Sous le pont de Bercy

Un philosophe assis

Deux musiciens, quelques badauds

Puis des gens par milliers.

 

A quinta parte da densa obra de Alba Dayrell intitula-se “Pessoas”, em que traça importantes perfis de personalidades goianas em diferentes tempos. Em “Um

homem de bem” evidencia a figura singular de seu sogro, Carlos Dayrell, que quase chegou ao centenário de existência. Destaca sua história e sua importância para a família e para a comunidade goiana.

Em “O que Amaury Menezes tem em comum com Jacqueline Du Prè” faz uma homenagem ao escritor e artista, suas telas, o complexo ramo de retratar e mostra o âmago dos corações. Compara-o a violoncelista francesa Jacqueline Du Prè, ambos talentosos, mas em planos distintos. Na mesma linha temática, faz brilhante homenagem ao talentoso jurista e causídico Licínio Leal Barosa na crônica “Caro professor Licínio”.

Na área da música em Goiânia a que a autora esteve envolvida na docência por décadas, faz importantes homenagens como nas crônicas “Minha amiga Consuelo”, em que homenageia a grande pianista Consuelo Quirese Rosa, membro da AFLAG e relembra seus tempos de estudantes. Numa crônica logo adiante, aparece seu discurso de recepção à amiga na AFLAG.

Na mesma linhagem homenageia, em discurso, a figura impar de Dalva Pires Machado Bragança, professora e musicista, em “Saudades de Dalva Pires”; assim como “A determinação de um artista”, em que recorda o músico e pianista João Carlos Martins e seu esforço, apesar das limitações e dos sofrimentos na vida.

Na senda musical faz homenagem à pianista Valéria Zanini, goiana radicada na Dinamarca, por meio da crônica “Uma pianista brilhante”, assim como ao maestro Joaquim Tomaz de Aquino Jayme, meu tio-avô, na crônica “Joaquim Jayme – Um maestro que interage com o público”, também como o nome idolatrado de Belkiss Carneiro de Mendonça em “Homenagem a Belkiss”, justa lembrança de uma mulher inesquecível e eterna.

Nesse mesmo campo musical, faz homenagem a Goiandi Lopes de Brito e o “Grupo Yucatan e Vocal 3” e sua vida de lutas, entregando-se à música já mais idoso e fecha o ciclo com o discurso na sessão de saudade, na AFLAG, da professora e pianista Mirza Perotto, também nome valioso da música goiana, recentemente falecida.

Nesse diapasão de homenagear pessoas, a autora, num preito de saudade e gratidão lembra a nobre figura do ilustre Dr. Jerônimo Geraldo de Queiroz em sua lição de vida, na crônica “Um homem extraordinário”. Ainda, destaca a desportista Dona Amneris, senhora dedicada à saúde e à vida saudável, por meio da crônica “Um

exemplo de vida”. Também, em duas crônicas, faz homenagem à escritora Elisabeth Caldeira Britto, na singularidade de seu talento, tanto no discurso de recepção à mesma a uma das Cadeiras da AFLAG, assim como no lançamento de seu livro Sublimes linguagens.

Em outra crônica intitulada “A ascensão dos indivíduos na sociedade brasileira” evoca a figura de José Nunes de Jesus, o Zezinho de Itaberaí e suas lutas para se firmar na vida e elevar os filhos à vida reta e exemplar dos estudos e da formação. Também como oradora da AFLAG, rememora a homenagem feita ao produtor cultural Hamilton Carneiro e, numa nota triste, relembra a morte trágica do irmão Caius Lucilius em “Adeus ao Caius”.

Ainda nessa parte da obra recorda a funcionária Ivana, que numa triste trajetória, tornou-se viciada em bebidas; rememora a figura de Marcel Proust, o grande nome do século XX na Literatura mundial, assim como evoca Eduardo Campos, político tragicamente desaparecido, no lema “Coragem para a luta”.

Também destaca sobre a figura de Nelson Siqueira, ilustre goiano, político e idealista, além de rememorar a vinda a Goiânia da escritora Marina Colasanti, do lançamento na AFLAG do livro Rosarita Fleury – minha mãe, de Maria Elisabeth Fleury Teixeira e evoca a homenagem à grande historiadora, Dra. Lena Castello Branco Ferreira de Freitas ao receber o título de Cidadã Goiana pela Assembléia Legislativa de Goiás.

A sexta parte da obra intitula-se “Artes”. Nela, Alba Lucínia destaca, em acurados estudos, as grandes exposições de arte itinerante pelo Brasil; destaca sobre os grandes compositores clássicos na música mundial em “O Romantismo na música”; relata sobre o Movimento Impressionista na arte e recorda, numa revivescência cultural, os 45 anos de existência da Academia Feminina de Letras e Artes de Goiás, entidade cultural fundada por Rosarita Fleury.

Já na sétima parte da obra denominada “Eventos”, a autora relembra espetáculos ocorridos em Goiânia como o de Maria Betânia, por ela intitulada como “Musa da Música Popular Brasileira”, o show de Paul MacCartney em Goiânia e o seu brilhantismo; a presença de Caetano Veloso no show no Centro Cultural Oscar Niemeyer (que minha filha Elisa me obrigou a ir); destaca sobre o concerto de Ana 

Flávia Frazão e Fábio Presgou em Goiânia, no Projeto “Concertos na cidade”, por meio da crônica “A música em Goiânia”.

Nessa mesma parte, relembra a emblemática figura de Nhanhá do Couto e sua contribuição para a música de Goiás, assim como a grande dama do teatro brasileiro, Bibi Ferreira. Também, relembra, em duas crônicas, o Projeto “Outra vez Primavera” ocorridos na AFLAG, no mês de setembro. Na área das artes plásticas, destaca os talentos de Alessandra Teles e Tainá Pompêo.

Como arguta observadora do mundo, em outras crônicas destaca sobre s comemorações natalinas, a copa do mundo e seus gastos excessivos; o futebol com o mundial chegando às semifinais, o show na Opus e o talento de Clovis Alessandri, pianista goiana radicado na Alemanha, filho da notável benemérita dama espírita goiana, Maria Antonieta Alessandri e irmão de Raquel Teixeira, Secretária de Estado da Educação, Saúde e Esportes e eleita recentemente para uma das Cadeiras da Academia Feminina de Letras e Artes de Goiás.

Na oitava e última parte da importante obra, Alba Lucínia revela-se crítica e severa nos apontamentos relacionados aos erros do presente. Intitulando-se “Reivindicações” a referida parte da obra destaca as aspirações do povo brasileiro em relação aos desmandos políticos e as manifestações de insatisfação por todo o País.

Em “Retrato da atualidade brasileira” critica as drogas, a insegurança, a educação deficitária, a saúde caótica. Tendo Goiânia por foco, traz três crônicas em que discute o transporte coletivo da capital, os pássaros, as orquestras, o trânsito, desde os tempos das jardineiras e a expansão urbana desordenada, lixo e áreas verdes na crônica “Os transtornos de Goiânia”.

É o mesmo espírito de inconformismo com o mundo e suas contradições que aparecem em obras femininas memoráveis como a própria Helena Morley, assim como Maria Helena Cardoso em Por onde andou meu coração, em Adélia Prado, Rachel Jardim, Clarice Lispector e Lygia Fagundes Teles. Não apenas a mulher passiva, mas aquela que se levanta nos pés para observar além do alambrado, os horizontes outros.

E a obra se fecha, como identificado no título, num sonho, numa aspiração, num desejo, idílico, mas forte, com uma sociedade mais séria, ética, solidária e convida o leitor a uma profunda reflexão de quem somos nesse mundo.

Razão e emoção nos convida a uma acurada análise de variados assuntos. Visão real e crítica, mas comovida e poética de uma ilustre dama de nossa sociedade, versátil e inteligente, bela e sensível, trazendo a lume sua singular visão dos fatos e dos acontecimentos, dos lugares e das pessoas, da história e da atualidade; firmando-se no seu verdadeiro lugar, de honra em nossas letras e em nossa cultura, guardiã de valores imperecíveis que o tempo não pode apagar.

Nesse livro, as crônicas também se diluem e se misturam, entre razões e emoções, como fragmentos de uma longa narração sine fine, a vida, a morte, a singeleza, a grandeza, a miséria, a dissolução, a construção, o fluxo ou a duração dos seres perdidos num tempo irremediável. Grande beleza!

É ela o coração de mulher como uma chama viva e pulsante, entre razões e emoções, que entrelaçam infinitas sensações em sopros de vida e ternuras carregadas de cintilações outonais.

E ao evocar Piaf, é preciso lembrar que todo esse livro foi feito por amor à vida e a uma causa maior, que é a cultura imperecível e atemporal, pois “c'est l'amour qui fait qu'on aime/C'est l'amour qui fait rever/C'est l'amour qui veut qu'on s'aime/C'est l'amour qui fait pleurer”.

E tudo cai para a eternidade. Toujours