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“Balaio de puta”: território da prostituição, miséria e exclusão no espaço trindadense.

Resumo

 

 

O presente artigo discute a questão de ocupação do espaço trindadense numa visão diacrônica. Insere, nesta discussão, os preconceitos típicos de uma sociedade formada sob a égide da religião e as principais modificações que o espaço local sofreu, no sentido de expurgo da zona de prostituição das proximidades do antigo centro urbano, próximo ao local sagrado da igreja, por conseguinte, não afeito à presença das práticas pecaminosas das “mulheres de vida airada”, ao criar o território do “morro”, somente acessado pelos “balaios de puta”, charretes de uso das mulheres damas. Destaca a caminhada histórica de uma sociedade marcada pela segregação, mesmo em práticas de tanta religiosidade e das muitas entidades voltadas à oração e ao culto católico; o que representa um chocante paradoxo. Nesse estudo insere-se o caso particularizado da prostituta Benedita tatu, assassinada em plena rua, em 1929, como prova maior da bestialidade de uma sociedade que se apregoava correta e pura, na “terra santa da devoção”. São marcas da caminhada humana, marcada tantas vezes por hipocrisias que só o tempo é capaz de trazer a lume às gerações que virão.

 

 

 

 

Palavras-chave: Trindade. Prostituição. Preconceito. Território. Violência.

 

 

Abstract

 

In the year 1910 the surveyor and teacher Francisco Ferreira dos Santos Azevedo, in the city of Goiás, published a Historical, geographic and Yearbook Descripton of State of Goyaz which was a milestone in studies related to Earth goiana. Given the difficulties of the time, in the isolation of Goiás by a geographic determinism, the report represented a breakthrough and a way to put the State in line with the others in the study of itself and of its potential. The present study seeks to evoke the city of Goiás with customs in that year, the biography of fruitful geographer who made the Charter of Goiás in 1910 and analysis of the content of the Yearbook under the umbrella.

 

Keywords: Trinity. Prostitution. Prejudice. Territory. Violence.

 

 

Resumè

 

L'année 1910, l'arpenteur-géomètre et professeur Francisco Ferreira dos Santos Azevedo, dans la ville de Goiás, publié un historique, géographique et annuaire Description d'état de Goyaz qui a été une étape importante dans les études liées à la terre goiana. Compte tenu des difficultés de l'époque, dans l'isolement de Goiás par un déterminisme géographique, le rapport représente une percée et un moyen de mettre l'état en conformité avec les autres dans l'étude elle-même et de son potentiel. La présente étude cherche à évoquer la ville de Goiás auprès des douanes dans cette année-là, la biographie du géographe fructueuse qui a fait la Charte de Goiás en 1910 et l'analyse du contenu de l'annuaire sous l'égide.

 

 

Mots-clés : Trinity. Prostitution. Préjudice. Territoire. Violence.

 

 

Introdução

 

Paisagem pretérita, memória diluída, translúcida. Marca identitária de um tempo que passou, traduz ao hoje, as modificações do ontem, as interferências do homem no seu meio. Nesse caso específico a Geografia tem um papel fundamental, único, insubstituível de analisar as possibilidades engendradas, pois segundo Cavalcanti (2008, p.64): “A Geografia é uma leitura, uma determinada leitura da realidade”.

Nesse âmbito, é pela observação acurada, atenta e aprofundada da paisagem que é possível a concepção do espaço, que passa a ser melhor compreendido, visto acima de tudo como uma produção (CAVALCANTI, 2008) e esta produção social é contínua, contraditória, levando-se em consideração o cultural e o social, pois sempre houve, desde os tempos remotos as marcas de fossos entre classes distintas.

A Geografia estuda a escala intraurbana na verificação do arranjo, no enfoque da problemática da vida cotidiana e a relação entre a cidade, dinâmica interna e cidadania. Na cidade, eclodem dinâmicas diferenciadas que vão constituir, assim,

diferentes territórios; muitos deles marcados pela exclusão e pelo ideário tão antigo da eugenia, de forma velada, mas contundente.

As cidades em todo o mundo, na ordem lógica das acomodações sociais foram constituídas excluindo. “Atualmente a cidade é o lócus privilegiado da vida social, na medida em que, mais do que abrigar a maior parte da população, ela produz o modo de vida que se generaliza” (CAVALCANTI, 2008, p.64). No estudo em foco, a cidade de Trindade ou a antiga Vila de Barro Preto, mesmo com o ideário sagrado que permeia sua formação, a exclusão e o preconceito com as minorias não poderiam ser diferentes.

Todos esses fatos resvalam para a questão cultural. Sahlins (1997) destaca em suas pesquisas antropológicas que cada cultura foi moldada pelas peculiaridades geográficas e temporais do local onde é exercida. Esse importante antropólogo americano, nascido em 1930, foi um neorevolucionista, contrapondo a concepção de progresso. De fato todo progresso gerado a todo custo é questionável.

Todo o ideário e mito fundador das cidades, desde as épocas coloniais no território goiano tiveram por foco os episódios de fronteiras sociais, numa odiosa fusão entre a questionável civilização e a barbárie. Houve, na concepção de Pinheiro (2011), um tempo mítico e um tempo real na fundação das cidades, principalmente as goianas.

Assim, ocorreu com os índios, negros, hoje com os pobres, homossexuais, moradores de favelas, moradores de rua e outras minorias. Ao que parece, a sociedade modifica ao longo do tempo os focos de exclusão, mas esta sempre se faz presente.

Neste trabalho, a proposta está centrada na discussão da questão da exclusão social, na criação de território marcado pelo abandono e pela segregação das prostitutas na cidade de Trindade, Estado de Goiás, ao longo do tempo.

Dessa forma, a pesquisa buscará compreender a formação territorial da cidade, por meio do desdobramento urbano que, a princípio, acatava a junção da zona meretrícia junto ao centro histórico que é a Igreja católica, já que o simples arraial era deveras diminuto. Com o passar do tempo e a solidificação de uma pretensa sociedade e as melhorias urbanas, as prostitutas foram relegadas a outra região bastante distante do centro da cidade, alcunhada de “morro”.

Assim, será estudada a formação social e urbanística de Trindade sob a égide da fé católica e por isso preconceituosa de práticas tidas por pecadoras, e a identificação de uma fronteira entre o sagrado e o profano em territórios bem identificados, culminando com o caso da prostituta Benedita Tatu, como exemplo da

estupidez humana no massacre às minorias, já que a mesma foi relegada à penúria, arrastando-se pelas ruas da cidade e assassinada em plena luz do dia, no ano de 1929.

Assim, busca-se discutir as falsas ideologias de uma sociedade tida por santificada, piedosa e caridosa, na “terra santa da fé e da devoção” ou “capital católica do Centro Oeste brasileiro”, mas que a história, com seus documentos nos evidenciam práticas desumanas e indiferentes à dor e ao sofrimento alheios.

 

O território do morro com as suas alegrias e dores

 

 

A charrete alcunhada de “Balaio de puta” que tinha o seu ponto ao lado da Rodoviária de Trindade, inaugurada em 1970, e que transportava as meretrizes que foram expurgadas do centro antigo da cidade para o chamado “Morro”. Acervo de Bento Fleury.

 

 

Na observação mais profunda – e dolorosa – da paisagem trindadense que é possível compreender melhor o espaço, pois nesse caso, conforme Santos (1988), espaço urbano e cidade se confundem, mas há interdependência.

Se o “espaço urbano é produzido histórica e socialmente” (CAVALCANTI, 2008, p.133) no caso específico de Trindade tal fato se justifica pelo atores hegemônicos do poder.

A cidadania foi negada quando as prostitutas foram expurgadas da Rua da alegria para o Morro, então muito distante do centro da cidade, hoje já no perímetro urbano do Setor Samarah. Não houve uma escolha, mas, sim, uma imposição, como se uma limpeza da cidade do seu “lixo humano”.

A região periférica de Trindade passou então, naqueles tempos a ser habitada por gente excluída: carregadores de lenha, furadores de cisterna, desempregados, apanhadores de café e algodão, gente com profissão incerta e esporádica, já que, segundo Haesbaert (2006) desde a época da dominação colonial o trabalho exaustivo e mal pago foi uma característica marcante da maioria da população, sempre presente, também, uma minoria privilegiada e ociosa que hoje ainda existe, na maioria das vezes, na política.

Os espaços obedecem a um processo de ornamento territorial que são insuflados por ordens diversas e que obedecem a uma lógica de mercado. Grupos ou indivíduos ocupam pontos no espaço e contribuem para as mudanças, pois sempre presente está uma escala de poder que agrupa ou separa os atores territoriais. Em certas vezes ocorre um embricamento e diferentes atores na territorialidade.

A questão da cultura de um local foi discutida por Tylor (2005) numa concepção mais profunda, entendendo aspectos como crenças, arte, moral, direito e costumes, numa avaliação mais profunda. As possibilidades de conhecimento de um local, nessa visão antropológica, ficam pais evidentes e abrangentes, embora a distância do tempo desse autor, com quase um século do seu desaparecimento. A contribuição desse antropólogo britânico é importante à compreensão de todo um processo de formação social, no caso específico, a trindadense.

Ainda segundo Geertz (2004) a questão do tempo e da cultura está forjada numa tentativa de interpretação da realidade. Este antropólogo estadunidense analisou a prática simbólica no fato antropológico, permitindo diferentes visões ao longo do tempo, por meio de uma antropologia hermenêutica, ao considerar as modificações pela passagem do tempo e todos os elementos presentes em cada cultura.

Este antropólogo, em seus estudos, compreendeu a necessidade de estranhar não só aos outros, mas a si mesmo. Destacou ainda a necessidade humana da representação simbólica, sendo a cultura como um texto, ao qual o ser humano está inserido.

A inserção do ser, no passado, em se tratando do mundo do trabalho, ainda mais na questão do gênero, era extremamente difícil, quanto mais se evocando os sertões goianos. Não havia espaço para a ocupação trabalhista da mulher. As mulheres que não estavam afeitas ao casamento, tornavam-se excluídas também.

Dessa forma, as instâncias territoriais identificam e marcam a repartição do trabalho vivo nos lugares. O não trabalhar, o não ter trabalho, não ser “fichado”, o

“trabalhar como puta” carrega de negatividadade o espaço. É o lugar de “gentinha” como bem definiu Coralina (1969) em seus poemas.

As singularidades do uso do espaço instauram-se nessas instâncias. Não existem lugares iguais. Mesmo com este nivelamento de casas de conjunto, todas iguais e simétricas no espaço, marcando a “vida de gado” de gente marcada, não garante uma igualdade.

Os conjuntos habitacionais da COHAB tão presentes no espaço das cidades goianas a um só tempo, constituem essas prerrogativas. Mas há expressões visíveis e invisíveis no uso do espaço e conseguir explicar este múltiplo é tarefa da Geografia na atualidade, não uma Geografia estanque, fria, impalpável, mas aquela mais sensível e que represente a desordem e busque estratégias de planejamento compatíveis com a realidade sócio-espacial.

No falso encantamento da transformação do mundo produz uma ilusão de que a modernidade é justa e que o desenvolvimento só traz benefícios. É um equívoco. Vivenciamos mais que nunca, hoje, a Geografia das incertezas. Nada mais efêmero que a atualidade; apagada e vazia no laconismo das relações.

Assim, o território dividido gera o ideário de uma hierarquia entre os lugares. Dessa forma, no ordenamento urbano de Trindade, a divisão de classes está subordinada aos diferentes territórios inseridos no espaço.

E o território dividido, pulverizado, desconstrói ainda mais a questão da identidade, que, para Oliveira (2006) era um conjunto complexo de relações ao longo do tempo. Na visão deste destacad0 etnólogo, as relações entre a realidade dos problemas sociais e o distanciamento do estudioso, era algo que deveria ser abolido. Roberto Cardoso de Oliveira (1928-2006) foi um dos fundadores da antropologia moderna.

Assim, pela visão também da antropologia, a história do território especificamente é una e diversa ao mesmo tempo, pois tal fato ocorre de maneira generalizada em todos os lugares, já que a sociedade é classificada também pelo lócus. “Diga-me onde tu moras e eu direi quem tu és”, numa paródia com o ditado. O desenvolvimento sempre foi desigual, desumano e excludente, conforme asseverou Giddens (1991).

Nesse aspecto se apresenta a ação. Malinowski (apud. DURHAN, 1986), nos seus estudos antropológicos, reconheceu a representação da ação com participação cotidiana, na antropologia. Este antropólogo polaco, de indiscutível presença, foi um

dos fundadores da antropologia social e fundou a Escola funcionalista, valendo-se também da subjetividade.

A lógica capitalista, no parecer de Paviani (1987) afetou a organização espacial num território urbano em que as pobres terras periféricas, cada vez mais distantes; incluiu um intenso pauperismo, insuflado não só por uma distância física e geográfica, mas a falta de acessibilidade socioeconômica e também cultural. Na disputa centro versus periferia, a distribuição de benefícios é sempre perversa.

O real processo de desenvolvimento sócio espacial ocorre quando há uma melhoria da qualidade de vida e um aumento da justiça social. Para tal é urgente o planejamento equacionado e pensado para todos, conforme preconiza Souza (2003). Este planejamento precisa ser inovador, criativo, isento de preconceitos e aberto à autonomia, pois a “sociedade não é uma massa homogênea e indiferenciada” (SOUZA, 2003, p.83).

O espaço urbano trindadense vem marcado assim, desde os tempos mais remotos, pela agressiva exclusão. Os pobres são fadados ao sofrimento, na assertiva de que “quanto mais se encara a riqueza como prova de mérito, mais se inclina a considerar a pobreza como prova de fracasso” (Marshall, 1967, p.78). Pobre é aquele “Mané” que não se deu bem na vida, não aproveitou oportunidades e fracassou.

Esta é a situação geográfica trindadense no ontem e no hoje. Recriar esta situação nas suas muitas contradições é dever do geógrafo atual, conforme assevera Silveira (1999), já que a situação geográfica decorre de um conjunto e forças, as coisas únicas da história, forjadas na interação entre o tudo que há no espaço geográfico, na busca de um sentido, de uma explicação.

Assim, os espaços urbanos se articulam na morfologia das cidades. Trindade não foge a esta regra. A primeira continuidade visível é a da paisagem, pretérita ou não e esta se funde ao espaço em suas múltiplas modificações na esteira do tempo. A paisagem como domínio do visível carece de estudo das conotações sociais e culturais, segundo Oliveira (2005). Paisagem e espaço nesse caso formam um par dialético.

A exclusão social em Trindade sempre esteve presente, não somente na expulsão inicial das prostitutas, mas no próprio ordenamento urbano, criando bairros distantes, isolando áreas que receberam denominações pejorativas.

Quando se criou no início dos anos de 1980, o Conjunto Sol Dourado, em plena era dos mutirões do governo Iris Rezende, o local ficou conhecido como

“Malvinas”, em razão da guerra que acontecia na época. Morar nas “Malvinas” era não ser ninguém.

O mesmo ocorreu quando se criou a Vila do Sonho, alcunhada de “Inferninho”, o Setor Vida Nova, hoje chamado de “Afeganistão” e a Vila Roberto Monteiro até hoje chamada de “Sapolândia” por ficar numa antiga região alagada.

O Conjunto Arco Iris feito de casas de placa de cimento, todas em um único dia, ficou conhecido por “Pombal”, devido o tamanho das casas. Toda a Região Leste, também chamada de “Trindade II” é alcunhada de “Nem”. Morar no “Nem” induz uma rima em não ser “ninguém”.

Também, na Vila Pai Eterno, há grande fluxo de ciganos ali residentes, ao que se sabe, um fato sui generes em toda a história, pois a maioria é nômade. Trindade chegou, inclusive, a ter um vereador cigano, fato inédito em todo o mundo. Há um desdobramento mais pejorativo ainda, nos terminais, na alcunha das pessoas que chegam para o embarque a Goiânia. São os “pés de Toddy”.

No espaço trindadense, diversos territórios, então, ficaram marcados ao longo do tempo com suas dolorosas alcunhas: Putinhas do morro, negrada do “nem”, gente pezuda do pombal, maloqueiros do Afeganistão, maconheiros do inferninho, ciganada da Vila Pai Eterno, esta vila, inclusive, se parte em territórios distintos internamente. Vila Pai Eterno antes da BR é elite, depois da BR é periferia, o que é plenamente corrente no cotidiano do lugar. Gente de verdade mora mesmo no centro de Trindade. E o direito à cidade, onde fica?

Essa visão de pobreza massiva e sua persistência também foi foco de estudo do antropólogo Escobar (1998), que buscou elucidar as causas dessa ramificação e persistência da pobreza, ao realizar uma ferrenha crítica ao desenvolvimento a qualquer custo, num exacerbado capitalismo egoísta, que não privilegia a vida, mas sim, o possuir.

Hoje, com o “Programa Minha casa minha vida”, diversos outros bairros e centenas de casas têm sido feitas, propiciando uma explosão demográfica em Trindade para todos os ângulos.

Esta ocupação urbana de Trindade, preconiza o que destaca Castells (1983, p.86): “Urbano designaria então uma forma especial de ocupação do espaço por uma população, a saber, o aglomerado resultante de uma forte concentração e de uma densidade relativamente alta, tendo como correlato previsível, uma diferenciação funcional e social maior.”

É o que Santos (1996) destaca como a preocupação básica da Geografia: a compreensão da sociedade e todos os seus valores ou desvalores, na definição de seu objeto. A sociedade para ele deveria ser a preocupação fundamental de todo e qualquer ramo do conhecimento humano. Tal fato, segundo ele, garantiria a unidade da ciência como compreensão e análise do mundo.

Em meio a todos esses aspectos é possível estabelecer referência com a identidade. Segundo Hall (1996) é preciso pensar a identidade como algo que nunca se completa, que está sempre em processo e sempre constituída internamente e não externamente à representação.

Nestas identidades culturais refletem as experiências históricas em comum e os códigos culturais partilhados, como uma busca pelas histórias ocultas (HALL, 1996, p. 69). Na questão trindadense, a busca histórica pela memória recuada e pulverizada das prostitutas é emblemática.

Assim, nos elementos também da sensibilidade profunda, é possível um olhar histórico pelos feitos que fizeram a formação da cidade de Trindade em Goiás.

 

Santíssima Trindade do Barro Preto de Goyaz: lugar do santo e do profano no território de Deus e dos homens

 

 

O Arraial da Santíssima Trindade do Barro Preto de Goyaz apareceu oficialmente, pela primeira vez, nos livros de registros de batizado de Campinas em 1848, muito embora desde 1801 já existisse a Sesmaria nessa região, agregada ao Julgado de Bonfim de Goyaz, hoje Silvânia, termo de Santa Cruz de Goyaz, desde o século XVIII, mais precisamente em 1749.

O Arraial nasceu do culto doméstico em que o medalhão de barro cozido, encontrado na olaria, passou a ser a gênese de um povo que, pouco a pouco, fazenda a fazenda, passou a venerar a imagem, constituindo-se, assim, numa romaria com características peculiares, sertaneja e cabocla do coração do Brasil.

 

 

Uma das primeiras estampas da Romaria de Trindade. Acervo de Bento Fleury.

 

 

Compreender a ocupação do espaço também é preocupação constante da Geografia, pois, segundo Cavalcanti (2008, p.16):

 

 

 

O enriquecimento das diferentes interpretações na Geografia, conduz à necessidade de reformular categorias e conceitos para compreender melhor o movimento da sociedade, para refletir sobre a problemática espacial, à luz das categorias de uma teoria social crítica.

 

 

 

Assim, na história da ocupação do espaço no âmbito da história goiana, os jogos de poder, nos diversos territórios, tiveram supremacia com as Sesmarias, divididas entre grandes latifundiários.

É o que preconiza Ianni (1992) sobre o desterritorialização, Giddens (1991) sobre o desencaixe e Harvey, (1989) a compressão pelo uso do poder, oprimindo e excluindo as minorias e as classes soci

iais menos favorecidas, desde a gênese da

iocese, somente a partir de 1860 seriam realizados batizados e casamentos no Arraial de Barro Preto. Talvez por isso, sua insignificância, este lugarejo não foi citado por viajantes e historiadores que percorreram Goiás nos primeiros decênios do século XIX, sendo somente Oscar Leal, já no período Republicano, o primeiro a relatar sobre a vila e sua romaria.

Dessa maneira, os primeiros habitantes da Santíssima Trindade do Barro Preto de Goyaz ainda eram inexistentes, não agregavam valor econômico ou social, pois, segundo Galeano (1990), cada indivíduo tem a sua participação e suas possibilidades na sociedade, fortemente influenciadas por sua localização no território, ou seja, as desigualdades econômicas da região de Campinas naquele tempo fazia de sua gente, um povo ainda invisível, pois desigualdades sociais são também desigualdades espaciais e territoriais.

Sobre esta reflexão destaca Santos (1988, p. 43): “Cada homem vale pelo lugar onde está: O seu valor como produtor, consumidor, cidadão, depende de sua localização no território” Assim, nos primórdios do Barro Preto, era preciso legitimar a posse, a origem, a devoção.

No Barro Preto, conforme se verifica antropologicamente, houve passagem da selvageria, barbárie e tentativa de civilização, embora esta última seja questionável. Era, a princípio uma terra sem norma, sem dono e sem lei.

Dessa forma, 05 de setembro de 1850, Anna Rosa de Oliveira, esposa de Constantino Xavier, assinou a escritura de doação de terras para o patrimônio do Divino Pai Eterno, terreno esse que media desde a Cruz das Almas, em linha travessa ao Córrego Barro Preto, pelo veio d’água abaixo, até completar a distância de uma légua, medindo desde a Cruz das Almas, onde hoje se acha o Santuário Novo.

Este espaço foi modificado ao longo das décadas, passando a constituir o núcleo urbano pioneiro de Trindade, na transfiguração da paisagem, hoje completamente remodelada, conforme preconiza Chaveiro (2001) de que a cidade pode ser vista como uma metrópole mutante em travessia com paisagens cindidas, ao passo que também discute a necessidade de um discurso amplo para o tema do urbano, espaço dos mais complexos dentro das discussões da Geografia atual.

Assim, no processo inicial da formação urbana de Trindade havia apenas a ocupação desordenada do espaço, transfigurando a paisagem. Mas, conforme Topalov (1988) a cidade é um produto social, um conceito de consumo coletivo, fonte de

intensos movimentos sociais, e, dessa forma, o arraial agregou-se em torno das primeiras capelas que eram fonte de renda e de acúmulo de pessoas.

As duas primeiras capelas foram construídas, segundo informações, para a devoção ao Medalhão, representando a imagem do Divino Pai Eterno, ambas construídas por Constantino Xavier de Maria, datadas de antes de 1854, quando faleceu Constantino:...²Aos 16 dias do mês de abril de 1854, foi sepultado no adro da Igreja Matriz de Campinas, Constantino Xavier, casado com Anna Rosa, morador da Santíssima Trindade, e, para constar, fiz esse Termo. Assinado: Vigário Basílio Antônio de Santa Bárbara”.

O primeiro documento histórico sobre o Barro Preto da Santíssima Trindade, foi escrito entre os anos de 1877 e 1885 quando Manoel Pio exerceu as funções de zelador do Santuário. Em próprio punho, este assim descreveu como sendo o início do arraial: “Está decorrendo quarenta e dois anos que Constantino Xavier, casado com Anna Rosa, deu principio à Romaria do Divino Pai Eterno do Barro Preto de Goyaz”.

Segundo ainda o Jornal Santuário de Trindade, de 01 de julho de 1924, em sua página 002, relata que Constantino Xavier chegou a Goiás proveniente de Minas Gerais em 1830, restando, com isso, um espaço de pouco mais de 20 anos para realizar tudo que lhe é atribuído.

Segundo ainda na Polyanthéia em homenagem a Dom Francisco Ferreira de Azevedo (1819 a 1855) conhecido por Bispo Cego, em suas visitas, consta uma “Casa de Oração” no Barro Preto. Já no Manual da Santíssima Trindade, datado de 1905, relata como início da Romaria de Trindade o ano de 1843.

Conforme Rodrigues (1973) 1840 foi o ano do “achamento” do Medalhão e 1842 como sendo o rezamento da primeira missa no local na “Capela Burity” do arraial do Barro Preto, aliás, denominado de várias formas Barropreto (emendado), São Francisco de Barro Preto (Livro de batizado de Campinas), Bairro da Santíssima Trindade (a partir de 1854), arraial da Santíssima Trindade de Barro Preto e depois Barro Preto.

Segundo ainda o Manual da Santíssima Trindade, datado de 1905, hoje em sucessivas e remodeladas edições, consta que Constantino Xavier, por volta de 1840 possuía uma olaria nas cercanias de Campininhas das Flores.

Ali trabalhava com sua esposa Anna Rosa, quando encontraram um medalhão de Barro cozido, representando em alto relevo a coroação da Virgem Maria

pela Santíssima Trindade. Consta ainda que o Medalhão media 10 cm de altura por 08 cm de largura (quem a mediu?), assim nascendo a devoção à Santíssima Trindade.

Nos estudos de Artiaga (1951, p. 87) em seus estudos, salienta: “A origem desse lugar (Barro Preto) foi religiosa. O ponto de partida de Trindade foi uma Capelinha dedicada ao Pai Eterno.”. Ainda no Manual, consta que em 1866, com o dinheiro arrecadado junto aos romeiros, foi construída outra Capela confortável e espaçosa e doado o terreno de Constantino ao Patrimônio do Santo. Acontece, porém, que já havia se passado 12 anos do falecimento de Constantino!

No referido Manual consta que, para recompensar a fé dos fiéis depois disso, (o falecido) Constantino decidiu viajar até Meia Ponte (que aquela época nem mesmo arraial mais era, pois em 10 de julho de 1833 foi promovida à condição de Vila em 06 de julho de 1850 à cabeça de Comarca e em 02 de agosto de 1853 pela Lei n° 003 elevada à categoria de Cidade, passando a denominar-se “Pirenópolis” somente em 27 de fevereiro de 1890). O objetivo dessa viagem segundo o Manual, era encomendar ao célebre escultor Joaquim José da Veiga Valle uma nova imagem à semelhança do Medalhão já desgastado pela ação do tempo.

E ainda, Souza (1967) narra que para confirmar a troca do Medalhão pela imagem houve “exigência do povo” e também que por disposição diocesana não se podia expor, à veneração dos fiéis, imagens que tivessem sem menos de um palmo e com imperfeições.

Segundo ainda pesquisa de Salgueiro (1985, p.48): “É indiscutível considerar a imagem do Divino Pai Eterno como uma das primeiras obras de José Joaquim da Veiga Valle. Se ele executou uma imagem para o Santuário de Trindade pouco leva a crer que seja sua imagem que lá se encontra atualmente...”.

Segundo estudos de Frei Simão Dorvi e Pe. João Cardoso de Souza, além de Miguel Archângelo Nogueira dos Santos havia uma “Casa de Oração” no Barro Preto (sem constar medalhão), foi visitada pelos primeiros vigários de Campinas, Pe. Inácio Basílio de Santa Bárbara e João Francisco do Nascimento, que ali, em tempos alternados, celebravam ofícios religiosos.

Portanto, segundo o Manual do Devoto da Santíssima Trindade do Barro Preto de Goyaz, publicado em 1905 pelo Bispo Dom Eduardo Duarte da Silva na cidade de Uberaba, consta que depois de Constantino Xavier reconstruir a igreja em 1866 (Constantino Xavier faleceu em 1854!) seguiu até Pirenópolis com Joaquim Vieira da Cunha para encomendar uma imagem a Veiga Valle a partir do medalhão. Quanto

engano! Constantino nesse período já era falecido e Veiga Valle, já era idoso, residia em Goiás, antiga capital.

Na narrativa folhetinesca de Dom Eduardo, o Constantino veio a pé de Pirenópolis trazendo a imagem junto ao peito, pois deixou o cavalo como parte do pagamento do difícil negócio, sendo recebido com festas pelo povo junto ao córrego bruacas!

Não existem relatos exatos escritos a próprio punho e sem dados comprobatórios foi Manuel Pio. Segundo este, por volta de 1876 teve inicio a construção de uma irmandade, sendo tesoureiro desta, Antônio Joaquim dos Santos, substituídos por João Pereira, conforme termo de compromisso abaixo:

Com a morte desses, o lugar foi ocupado por Elias Pereira de Araújo. Este último contratou serviços de João Pimenta de Abreu e Felício Pires Martins para a construção da capela mor, do trono, dos arcos e dos coros das imagens e Manuel Pio pintou o teto, dourou algumas cimalhas, encarnou imagens.

Até então haviam sido Bispos de Goiás: Dom Francisco Ferreira de Azevedo, Dom Domingos Quirino de Souza, Dom Joaquim Gonçalves de Azevedo e Dom Cláudio Gonçalves Ponce de Leon, os primeiros a visitar a romaria do Barro Preto, seguindo de Dom Eduardo Duarte da Silva que viria enfrentar uma serie de dificuldades no local, com suas brigas com a liderança local, por intermédio do Coronel bulhonista, Anacleto Gonçalves de Almeida.

Até então, Barro Preto não passava de um arraial insignificante, sem nenhuma construção mais arrojada, sem nenhuma estrutura para comportar a romaria do Divino em franco crescimento entre os sertanejos.

Era um espaço de dominação dos mais fortes sobre os mais fracos, conforme destaca Amorim Filho (2007) em que podem ser lidos nesse mesmo espaço os elementos e configurações do imaginário social. Era uma vila de poucos habitantes, na maioria pobres, vivendo das atividades rurais, dominados pelos coronéis, que detinham o poder: Carlos Baptista, Anacleto Gonçalves de Almeida, Francisco Gomes do Nascimento.

 

 

Escritor português Oscar Leal que visitou o Estado de Goiás em 1890, e que deixou suas impressões acerca da política e economia em seu livro Viagens às terras Goyanas que foi publicado em Lisboa.

 

 

No ano de 1890, o viajante português Oscar Leal, em suas viagens pelas terras goianas esteve no Barro Preto, e, como arguto repórter, registrou fatos interessantes da Romaria do Divino Pai Eterno. Em Viagens às Terras Goyanas encontramos notícias interessantes, considerações tecidas por um culto homem das lides intelectuais.

Oscar Leal relatou fatos sobre o fanatismo, cenas bárbaras de sádicas promessas e ascetismo dos sertanejos na fé cega e surda. Narrou ainda um verdadeiro "Can Can" no Largo da Igreja, narrando ainda fatos pitorescos da exploração do comércio, a pobreza da Igreja que tinha como instrumento musical um realejo! Falou ainda da presença (ilustre) de pessoas influentes de Pirenópolis e da Banda de Joaquim Marques da Cidade de Goiás.

Oscar Leal ainda, como visionário, atentou para a má qualidade da água ao arraial (que era buscada no córrego Bruacas). Não fez; porém, nenhuma pesquisa histórica; como cronista, retratou suas observações, descrevendo o Barro Preto como "Arraial de água suja e desmandos morais". Foi o pioneiro a retratar a prostituição que

ganhava corpo na pequena cidade, que já não era apenas santa a pia, na devoção, mas procurada por outros interesses que não os da igreja.

 

 

Barracas de romeiros nos velhos quintais trindadenses nos anos de 1910, algumas servindo ao ofício da prostituição, ao colocar em evidência a precariedade das acomodações.

 

 

Proveniente da Capital Federal, o Rio de Janeiro, chegava à antiga Capital de Goiás em 29 de setembro de 1891 Dom Eduardo Duarte da Silva, então, novo mentor da sede episcopal goiana que governou a Diocese de 1891 a 1908.

O referido Bispo foi recebido friamente pelo Governo, sem festas ou recepções oficiais, o mesmo ocorrendo com a saída de Dom Cláudio Ponce de Leão, devido ao conturbado momento político por que passava o Estado nos primeiros dias da República, em razão também do governo Republicano ser opositor à Igreja, por suas ideias avançadas e livres. Moraes (1984).

Foram sérios os problemas enfrentados pelo Bispo Dom Eduardo Duarte da Silva na Diocese de Goiás. Ele enfrentou o mais difícil período da Igreja em Goiás, o mais turbulento e, por seu espírito irrequieto e desassossegado, criou várias brigas em Goiás, principalmente no tocante à Romaria da Santíssima Trindade, verdadeira pedra no sapato da autoridade eclesiástica daquele tempo.

Na edição de 03 de outubro de 1891, num sábado, no jornal O Estado de Goyaz, órgão do Partido Republicano, encontramos a seguinte nota:

 

 

Dálli (Barro Preto) escrevem-nos: Aqui chegou a 21 do corrente e partiu a 23, o Sr. Exmoº e Revm. Dom Eduardo Duarte da Silva, Bispo de Goyaz. Durante os dias em que esteve aqui, o prelado, foi enorme a affluência popular. S.Exa. chamou às contas a administração e examinou minuciosamente os negócios da Igreja depois do que achado n'ella uma irmandade, cuja administração funciona illegalmente por ter por meio de uma sedição, despedido os funcionários eleitos em mesa, antes de findar-se o tempo designado pelo compromisso, elegendo outros que actualmente estavam administrando a Igreja e seus rendimentos. S.Exa. em vista desta e de outras graves irregularidades, sobretudo a de estar applicando os rendimentos da Igreja para fins alheios ao Culto Divino, sendo o Bispo a única autoridade competente para reger, governar, administrar e punir as corporações religiosas de leigos existentes na Diocese, declarou sem existência legal a actual administração intrusa e nomeou uma comissão composta pelos senhores Felício Rodrigues Galvão, Francisco José Xavier e Joaquim Lúcio Tavares para, em nome do diocesano, administrar a Igreja prestando-lhe contas exatas as vezes que exigir, ficando desde já suspensa a irmandade".

 

 

Este foi o primeiro disparo de uma guerra longa de ataques variados. A partir da verificação da real situação do Santuário do Divino Pai Eterno, o Bispo Dom Eduardo Duarte da Silva, concebeu na imaginação o desejo de entregar a administração da Romaria a uma irmandade religiosa, visto que, na Capital, a situação da Igreja não era boa, onde, com freqüência ocorriam balbúrdias variadas, foliões invadiam igrejas, a catedral estava em ruínas com a pequena Igreja de Nossa Senhora da Boa Morte servindo como catedral interina; faltavam recursos, para as visitas pastorais (as desobrigas), e crises generalizadas que exigiam esforços extenuantes.

 

 

Largo da Igreja em 1911 com a matriz em construção.

 

Em 18 de junho de 1892, o Jornal Estado de Goyaz publicou duas repor-tagens sobre e arraial do Barro Preto: ... "S. Exa. Revma pretende daqui seguir para Barro Preto dia 27 do corrente mez. Sabemos que muitos são os desta Capital que para alli se dirigem a fim de assistirem as festas da Romaria.

A segunda notícia do Jornal Estado de Goyaz, ano I, n.º 52, de um sábado, 18 de junho de 1892, assim relatava:

 

 

De Barro Preto comunicaram-nos no mez passado o seguinte: O princípio da disposição vem produzindo suas conseqüências lógicas por toda parte. No dia 09 do corrente mez o arrayal da Santíssima Trindade foi theatro de scena barbaresca. Um tal Manuel Martins, homem desordeiro, tentou depor de marido o Sr. Antônio Magalhães para tomar a sua mulher à luz do dia arrostando assim a moralidade pública. Depois de 08 dias de tentativa e não podendo só levar adiante tão criminosa quam immoral pretensão; fez-se accompanhar de dois capangas e apresentou-se à porta da casa da Sr. Antônio Magalhães e declarou-lhe o seu intento. O Sr. Magalhães que se achava a dias prevenido em companhia de seu irmão Jerônymo respondeu-lhe com uma balla que penetrou-lhe o lado direito estragando-lhe os pulmões. Assim mesmo nesse estado tão offendido o agressor com dois capangas descarregaram cada um sobre os deffensores um cano de suas garruchas. Enquanto um dos capangas penetrou a cavalo a casa, atirando sobre esses pacíficos cidadãos, outro seu companheiro rodeava a casa para não deixá-los evadirem-se e assim tirar-lhes a vida com toda a barbaridade, o povo acudio e por ordem do subdelegado o Sr. Joaquim Lúcio Tavares, foi intimado com voz de prisão o réo José Soares que acabava de sabir de dentro da dita casa e assim mesmo a cavallo e que apeava para munir-se de armas de Martins já cabido e quase examine. O Sr. Anacleto Gonçalves e João Evangelista romperam com tal ímpeto e rapidez que o agressor não teve tempo de usar de suas armas e assim foi preso imediatamente. O seu companheiro a vista d'isto tractou de escapulir para fora do arrayal n'uma disparada a toda brida. Houve quatro ou cinco tiros, mas o único ferido foi o chefe desta matta o tal Manuel Martins que poucos minutos depois viveu. Os Srs. Antônio Magalhães e Jerônimo ficaram ilesos sem ferimento algum. O capanga José Soares está preso e deve seguir amanhã para a capital ou Bonfim.

 

 

Era esse o clima de desordem reinante no Arraial do Barro Preto nos primeiros dias da República. Não era sem fundamentos, portanto a preocupação do Bispo Diocesano com os destinos do Barro Preto e as questões de “desmandos morais”. Urgia uma atitude saneadora, principalmente em relação à prostituição.

Das muitas tentativas do Bispo Dom Eduardo Duarte da Silva de apaziguar o clima agitado do Barro Preto, consta à nomeação do Reverendo Capelão Francisco Ignácio de Souza para gerir os destinos da Romaria da Santíssima Trindade, o que não foi de todo do agrado dos moradores da localidade, segundo consta no Jornal Estado de

Goyaz em seu número 111, ano III, circulado na edição de domingo de 17 de setembro de 1893:

 

Tendo o Reverendo Capelão da Romaria do Barro Preto feito uma viagem a esta Capital a chamado da auctoridade competente e sendo sabedor, na véspera de sua sahida, que certos indivíduos alli residentes pretendiam desacatá-lo, o povo de sua freguesia promoveu um abaixo assignado, pedindo a S.Exa. Revma o Sr. Bispo para que se mantenha naquella Romaria o mesmo Padre Francisco Ignácio de Souza, cuja administração, tem satisfeito as expectativas do povo e de todos os romeiros. Os assignatários, em n° superior a seiscentos cidadãos, se compromettem a defende-lo ainda que a custa da própria vida, visto que o Padre Souza tem sido solícito no cumprimento de seus deveres e sacerdote e zeloso guarda e defensor do cofre da Romaria. Pode o povo tranqüilizar-se porque já antes de abaixo assignado sabemos que S .Exa. Revma estava resolvido a manté-lo no cargo com o applauso de todos, tem exercido..."

 

 

 

Trindade recebendo os tropeiros e carreiros nas antigas estradas que davam acesso a cidade.

 

 

O jornal Estado de Goyaz de 10 de julho de 1894, n.º 135, anno II, publicou breve nota sobre a Romaria do Barro Preto, calculando um número de dez mil almas presentes ao evento religioso que na visão do jornal só tendia a crescer, como realmente ocorreu.

Nesse mesmo jornal, fundado em 06 de junho de 1891 por Monsenhor Inácio Xavier da Silva, semanário que a partir de 1896 passou a ser dirigido por Luiz Gonzaga

Jayme e Augusto Alves de Castro que circulou ate 1897, encontramos a seguinte nota:

 

Como nos annos anteriores, correram bastante animadas às festas do arrayal do Barro Preto no ano presente. No dia 17 de junho d'aqui seguiu o Revmo Padre Pedro Ribeiro da Silva, que por ordem do Sr. Bispo assumiu a direção da festa na ausência do Reverendo Padre Souza. Com o Padre Pedro seguiram afim de ajuda-lo nas mesmas festividades o incansável dominicano Frei Joaquim Mestelan e o Capitão Antônio Basílio da Fonseca. Com feliz viagem chegaram os três a Barro Preto ao cahir da tarde de 21. Começaram as novenas dia 22 de junho, sendo ellas feitas com maior solenidade os três dias que precederam a festa. Na Quarta-feira, 28, seguiu e pregou o Padre Pedro e no dia 29 o Revmo Frei Joaquim, explicando ambos diversos pontos da doutrina Cristã, com grande proveito dos ouvintes. No sábbado, 30, teve logar a festa de Nossa Senhora, recentemente instituída pelo Padre Souza e que foi muito concorrida. Foi celebrante o Revmo Vigário de Bela Vista, Pe. Braz, como diácono o Padre Ribeiro e como subdiácono o vigário de Campinas Padre Ignácio Antônio da Silva. Ao evangelho, Frei Joaquim discorreu eloqüentemente sobre as prerrogativas de Maria, coroada no céo, Rainha dos Santos. Às 11 horas do dia primeiro de julho, começou a missa solemne em honra a Santíssima Trindade. Foi cantada pelo Pe. Ribeiro, acolytado pelos Reverendos Padres Braz e Ignácio Antônio Ribeiro, servindo o primeiro de diácono e o segundo de subdiácono. Foi ainda Frei Joaquim que ao Evangelho discorreu brilhantemente sobre o amor que a Santíssima Trindade consagrou em todos os tempos aos homens e fez tomando para texto do seu belo Sermão da Doxologia "Gloria Patri et filho et epirituio Sancto". Às 06:00 horas da tarde d'esse dia deu-se o gyro do costume importante procissão. Em púlpito preparado a entra da Igreja fez breve, porém tocante allocução o Reverendo Frei Joaquim, o qual depois, por delegação apostólica deu a todos a benção a todos os objectos que e povo llhe apresentou, concitando em seguida o povo a orar pelas necessidades da Santa Igreja ergueu calorosos vivas à religião Cathólica Apostólica Romana e a Santa Cruz, os quais foram delirantemente correspondidos.

 

 

 

Notamos então, pelas informações do referido jornal que em 1894 foram iniciados em Trindade o culto à Virgem Maria e que os Padres lutavam pela valorização da Igreja Católica, que, à época, estava sendo alvo dos ataques ideológicos nascidos de ideais vindos de fora, pregando pela liberdade de ação, pelo livre culto e o nascimento de outras religiões que viriam abalar a estrutura católica.

Por esta razão, neste mesmo ano, em dezembro, chegaram a Goiás os Padres Redentoristas Bávaros para sanearem as questões morais que envolviam não só a romaria de Trindade, como também a de Nossa Senhora da Abadia de Muquém.

 

 

Arraial de água suja e desmandos morais: barracas com cortinas de chitão florido

filtrando o pecado.

 

Existia na antiga Santíssima Trindade do Barro Preto de Goyaz, como em toda e qualquer cidade, de território sagrado ou não, a zona do baixo meretrício com tantas alcunhas e apodos: zona, fuá, fubá, fuzarca, lama, muezada, puteiro, boca do lixo. Era na Rua da Alegria, logo após o hoje mercado municipal que já foi em dias do século XIX um antigo cemitério, depois o Asilo de São Vicente de Paulo.

 

Cavaleiro na Rua da Alegria, ao lado do muro do antigo cemitério, de terra socada e rebuçado de telhinhas. Trindade, 1926. Era a rua do puteiro, rua das putaiadas, rua das quengas, rua das libertinas, rua das perdidas, rua das mulheres a toa e tantos outros preconceitos do tempo.

 

 

A zona meretrícia de Trindade tinha algo peculiar, pois sua renda triplicava no período da Romaria, haja vista o grande fluxo de homens, caboclos e sertanejos, vivenciando a abstinência sexual no alto sertão, isolados do mundo de uma maneira

geral, aproveitavam o período da Romaria para uma farra, já que havia grande fluxo de prostituição no período, com umas barraquinhas com cortininha na porta. Borges (1991) destaca sobre tais acontecimentos:

 

 

Tocada do mesmo fervor religioso, a desordenada leva de gente de todas as categorias ocupava quintais alugados, dor-mindo em barracas de folhas de bananeira ou de bacuri. Men-digos e inválidos, em total promiscuidade, espalhavam-se na periferia do arraial. Malandros, jogadores de baralho, de buzo e de roleta; ciganos e prostitutas.

 

Era emblemático esse item. Moça, mulher casada, criança e “gente honesta” por ali não passava. Era um território proibido. Criava-se muros, barreiras, pois o território é resultado do exercício do poder dos diversos atores territoriais.

 

 

 

Destruição do antigo cemitério de Trindade em 1927, local próximo à Rua da Alegria e da zona meretrícia.

 

 

Em Trindade, nessa época de romaria, criava-se, nesses territórios isolados e expurgados, uma espécie de vida própria, marginalizada, totalmente anexa à vida da cidade. Era uma cidadania negada àqueles que fugiram às regras de conduta impostas, segundo Marshall (1963), destoando do meio comum. Somente receberia benesses do meio e a aceitação de todos, os ditos cidadãos que andassem conforme as regras comuns de seu tempo. Assim sempre foi; assim sempre será.

Tal fato parece um chocante paradoxo nesse mundo moderno, mas não o é. As diferenças entre Prostituta antiga, vilependiada, odiada, escrachada, podada, presa e colocada para capinar o largo do chafariz da cidade de Goyaz no século XIX continua pelas esquinas esquecidas, desassistidas, ou nas garotas de programa que se expõem em jornais ou na internet, em casas fechadas nas apresentações aos homens que pagam. Qual a diferença entre o território das zonas dos bequinhos tristes e antigos com as grandes casas de shows eróticos dos tempos hodiernos?

Até mesmo nas denominações parece haver distinção: Garota de programa, prostituta, meretriz, puta, biscate, piranha, piriguete, prosti, rampeira, mulher da vida, mulher perdida, mulher à toa, mulher da zona, mulher de vida airada, quenga, aparentam uma “hierarquia”, abrindo campo ainda para os diminutivos que mais decrescem o ser: puta é diferente de putinha, se é que pode haver hierarquia, putinha é o resto, a escória entre as prostitutas.

 

 

 

Nesta esquina, subindo-se à esquerda, tinha inicio o beco da perdição que seguia até o antigo cemitério, abraçando-o rumo à Rua da Alegria, num chocante paradoxo com a tristeza da morte.

 

 

Conhecida como mais antiga profissão do mundo, a prostituição lança suas raízes na antiguidade como a “troca consciente de favores sexuais por interesses

econômicos e não afetivos” (Aurélio, 2002, p. 754). Reprovada pela sociedade em razão da transmissão de doenças venéreas e incitar o adultério, a prostituição foi disseminada em todos os recantos como uma necessidade biológica “amparando as exigências brutais do homem” no dizer poético de Coralina (1969, p. 72).

De endeusadas como divindades no Egito, a segregadas e pagadoras de pesados impostos na Grécia e em Roma, algumas como ricas cortesãs, as prostitutas avançaram com as gerações até o ideário de morte e exclusão na cultura judaica e na moral cristã da Idade Média, além da clandestinidade após a Reforma Protestante, embora sempre houvesse exceções.

Com a Revolução Industrial, houve aumento da prostituição em razão das desumanas condições de trabalho relegadas às mulheres. Nesse período, ampliou-se a escravidão e tráfico de mulheres. No século XX, a prostituição disseminou por todo o mundo de forma aberta, até o surgimento da AIDS que freou por determinado tempo as atividades em razão de riscos de contaminação.

O fator mais agravante desse período foi o surgimento da prostituição infantil e até o “turismo sexual” em razão da miséria e do tráfico de drogas. Hoje, a atuação se expande com o uso da internet, a prostituição virtual.

Há extensa literatura na área, com diversos enfoques do assunto, sendo o mais recente o polêmico livro Filha, mãe, avó e puta, de Gabriela Leite, de forma autobiográfica, relata o orgulho diante da atividade de prostituição e a criação, inclusive de uma grife “Daspu”, da ONG Davida.

Nesse relato, a prostituição não vem encoberta com o manto da marginalidade e do preconceito, assim como a emblemática música “Lama”, cantada por Núbia Lafayete (1937-2007), um dos ícones da música brasileira, cantora da fossa e do desamor, nesta canção faz uma espécie de hino às prostitutas no Brasil:

 

Se quiser fumar, eu fumo

Se quiser beber, eu bebo

Não interessa a ninguém!

Se o meu passado foi lama

Hoje, quem me difama

Viveu na lama também!

 

Comendo da minha comida

Bebendo a mesma bebida

Respirando o mesmo ar.

E hoje, por ciúme ou por despeito

Acha-se com o direito

De querer me humilhar!

 

Quem és tu

Quem foste tu?

Não és nada!

Se na vida, fui errada,

Tu foste errado também.

 

Não compreendeste o sacrifício

Fugiste do meu suplício

Me trocando por alguém!

 

 

 

Se eu errei, se pequei,

Pouco importa

Se aos teus olhos estou morta

Pra mim, morreste também!

 

 

Ser prostituta na antiga Santíssima Trindade do Barro Preto de Goyaz não era tarefa fácil. A origem do arraial estava articulada como a maioria das vilas e cidades goianas do século XIX ao verdadeiro caos e a desordem social.

A prostituição reinava como uma forma de manutenção da própria vila, já que muitos afluíam de regiões limítrofes, dentro ou fora da Romaria, para procurar os lupanares, pois havia distâncias imensas entre as pequenas cidades, no caso específico, Alemão (Palmeiras), Goiabeiras (Inhumas) e Campinas (hoje bairro de Goiânia), Santo Antonio das Grimpas (Hidrolândia) e Suçuapara (Bela Vista de Goiás) e Barro Preto.

A Romaria de Trindade era, além do aspecto religioso, a perspectiva de novidades sexuais, já que as barracas de prostituição na pequena vila eram muitas.

 

 

Largo Novo de Trindade onde se realizava a festa profana, numa vista aérea de 1954. No canto à esquerda acima, o destino das prostitutas que foram relegadas além da mata, na região do Morro. Acervo de Bento Fleury Curado.

 

 

Os lupanares na vila do Barro Preto ficavam na antiga configuração urbana, na saída para o Arraial de São Sebastião do Alemão (hoje Palmeiras de Goiás), abaixo e lateral ao antigo cemitério onde hoje está o Mercado Municipal. As casas de prostituição ficavam num beco onde hoje é a Rua Bacharel Valdir das Neves e em parte, numa antiga estrada chamada de “Rua da Alegria”, hoje, parte da Rua Coronel Anacleto, até a descida de um beco de terra, onde atualmente é a Rua Nicodemos Nery, fazendo limites com as fazendas de Abrão Manoel da Costa e Salvino Vaz da Silva, isto até 1927, quando o cemitério foi transferido.

O antigo e pequeno cemitério, cercado por muros de terra socada, coberto de telhinhas, era minúsculo e “abraçado” pelos lupanares, o que constituía fato comum, haja vista que na antiga Capital de Goiás, Vila Boa, a zona meretrícia também ficava próxima ao Cemitério de São Miguel.

Prostitutas famosas em Trindade foram Sinhaninha Bico Roxo, Benedita Tatu, Luzia, Hozana, Elza, Maria Cândida,”Santinha”, Nadir, Zanita, Filhinha, Ana do Bobo, Maria Pepé, Bastiana Linguiça, estas, do tempo antigo.

Os mais famosos lupanares trindadenses eram constituídos por elegantes e procuradas mulheres, com ricas vestimentas, mantidas muitas vezes por fazendeiros da região. O mais famoso cabaré de Trindade pertenceu à Adelina; por todos chamada de “Dilina”; que ficava numa esquina da Rua da Alegria com a estrada de terra limítrofe com as fazendas, onde hoje funciona (pasmem!) uma escola. Mas quem pode contestar que o bordel também não seja, a seu modo, uma escola?

Suas mulheres elegantes e bem vestidas eram freguesas no comércio local, que as atendia por encomenda, em horas mais caladas, nas lojas do Coronel João Braz (Casa João Braz), no armazém do Coronel Antonio Francisco Ottoni, na Farmácia Americana, de Joanito Costa, e até mesmo recebiam encomendas de sorvete, da “Sorveteria Linde”, inaugurada em 1926. Porém, não saiam à rua onde transitavam pessoas honestas e gente de bem. Lugar de puta era no puteiro, de fato, um muro social, uma barreira havia. Mulher da vida não circulava pela cidade onde imperava a “castidade e a pureza”.

Até mesmo quando se inaugurou a primeira usina de força e luz, a empresária Adelina adaptou-se à modernidade, colocando luz elétrica ainda insipiente em seu lupanar, o que era de grande aceitação por parte de seus fregueses.

Como a luz era irregular, Adelina foi reclamar ao proprietário da usina, Gabriel Alves de Carvalho, e este retrucou que, para o ofício regular da casa, luz não fazia falta, o funcionamento era garantido mesmo no escuro.

O ofício de prostituta é muito efêmero e passageiro, devido à beleza. Geralmente, o final quando não trágico, vem acompanhado de miséria e exclusão. Muitas famosas prostitutas trindadenses terminaram seus dias em grande sofrimento, tornando-se penitentes, mendicantes pelas ruas, no mais completo abandono.

 

 

 

A procissão que se fazia com todas as imagens da velha matriz tinha a intenção de purificar a cidade de tantas manifestações imorais da prostituição reinante. Largo da matriz em 1929. Acervo de Bento Fleury.

 

 

Foi o que ocorreu com Benedita Tatu, umas das mais belas de seu tempo, chegou ao Barro Preto em 1887, tornando-se famosa nos lupanares pela sua “atuação”. Ela nasceu em 1854 em Corumbá de Goiás, foi casada, mas abandonada pelo marido. Aos 23 anos entrou para a “vida” numa romaria de Trindade, permanecendo na vila.

De grande fama e procura, passou à decadência, agressões, surras e espancamentos, até um que lhe quebrou a coluna vertebral, deixando-a torta, caminhante dobrada, sendo abandonada e expulsa do lupanar, passando a mendigar pelas ruas.

Benedita Tatu se nos afigura como a prova mais hedionda da miséria humana e da maldade dos homens nos tempos antigos. Andava curvada sobre si mesma, daí, recebeu o apelido de tatu, por estar emborcada e ter as unhas muito grandes. Catava lixo, dormia na poeira, era enxotada como bicho pernicioso, adquiriu lepra e escorraçada, foi proibida de se arrastar no então novo “Jardim Público” que foi construído em 1927 no antigo largo de terra, com coreto de alvenaria, calçamento de pedra tapiocanga e luz de lampião de gás acetileno. A Benedita Tatu não pertencia a esse mundo, era a escória.

 

Antiga cadeia colonial da Santíssima Trindade do Barro Preto de Goyaz construída em 1887 e destruída em 1966. Nela, muitas prostitutas eram recolhidas e açoitadas. Acervo de Bento Fleury Curado.

 

 

Ela morreu a pauladas em plena rua, às três horas da tarde do dia 27 de outubro de 1929, com 75 anos de idade, coberta de feridas e de sujeira, enterrada no então novo cemitério em vala comum e a causa mortis foi “violenta” ficando seu assassino impune, já que ela não representava o “nada” e da qual, todos tinham nojo e fugiam.

No seu atestado de óbito, declarado pelo comerciante Moysés Jacinto de Lemos, aparece como “Benedita de tal (Tatu), profissão de mendiga e os pais ignorados e causa da morte alcunhada de “violenta”. São coisas que a história oficial não registra da “terra santa da devoção”!

 

 

 

Atestado de óbito de Benedita Tatu, de 28 de outubro de 1929, assinado por Osório Carlos da Silva, então oficial do registro que, mais tarde, seria Prefeito Municipal de Trindade. Acervo de Bento Fleury.

 

A zona meretrícia de Trindade sofreria exclusão logo após, com a reformulação urbana da cidade, nos anos de 1930, com a criação do Grupo Escolar, a construção do novo cemitério bem longe, na saída de Campininhas das Flores, a construção do Asilo de São Vicente de Paulo no lugar do antigo cemitério, a melhoria do Jardim Público, a reforma do sobradão da cadeia, a reforma do Santuário, o cascalhamento do Largo Novo, a abertura de novas estradas com o ideário de Goiânia que surgia nas proximidades. Trindade não era mais uma vila qualquer e prostituta manchava o status de cidade.

 

 

 

Jardim Público de Trindade construído em 1927 e onde Benedita Tatu foi proibida de trafegar com sua presença sempre imunda e denunciante da miséria das prostitutas de Trindade. Acervo de Bento Fleury

 

 

Assim, se criou o território das mulheres da vida, num morro bem longe do centro, saída para Goiabeiras (Inhumas) e o Povoado de São Geraldo (Goianira) que se alcançava pela estrada do Bugre. Nascia dessa forma um novo território, o “morro” que, de tão longe, quando uma prostituta precisava sair, usava-se a charrete, então alcunhada de “Balaio de puta”.

O morro sobreviveu como zona boêmia por várias décadas, até a decadência insuflada pela abertura da sociedade 

em relação às práti

egião. Hoje, o Setor Samarah, que abriga o morro, está completamente tomado de novas casas, lojas comerciais, escolas, conjuntos habitacionais em construção. Há, ali, uma escola importante denominada Escola Estadual Professor Esmeraldo Monteiro. O Patrono desta instituição é pai da notável geógrafa Celene Cunha Monteiro Antunes Barreira.

Para diferenciação da atividade, evitando situações constrangedoras, algumas casas escrevem nos muros o termo “família”, indicando ali não ser um bordel.

Ficaram famosos, ali no território do morro, os bordéis da Maria das Couves, Cabaré do Zezinha (que se travestia de mulher), a “Casa das máquinas” numa grosseira alusão de prostituta nova como “máquina”, da “Maria Bussanha”, o mais pobre e de prostitutas velhas, de terrível decadência e o único que sobreviveu com a sugestiva denominação de “Toca das gatas”, ainda em funcionamento, numa movimentada avenida no Setor Samarah.

 

 

Conclusão

 

A Geografia, sob a égide da contemporaneidade, necessita entender os vários enfoques do ser humano no uso do espaço, nas dimensões de sua mobilidade em territórios múltiplos e que constituem novas paisagens entrelaçadas por redes cada vez mais complexas, no intuito de que cada homem tenha o seu lugar no mundo, em todas as suas contradições e desacertos.

Dessa maneira, foi possível compreender a formação geográfica, histórica e cultural da cidade de Trindade, Estado de Goiás, sob a égide religiosa, que, ao mesmo tempo, mascarou um mundo de intensos preconceitos em relação às diferenças sociais, notadamente as prostitutas que foram relegadas a um território alcunhado de “Morro” em zona distante do centro da cidade, no intuito de “sanear” moralmente uma sociedade que, sabemos, também se marcou pela hipocrisia, já que, à sombra da religião católica, promoveu eugenias absurdas e atrocidades inacreditáveis, como o caso específico da prostituta Benedita Tatu, assassinada em plena luz do dia num dos becos da cidade, em 1929.

Pela antropologia percebemos que, no mundo sempre houve o limiar da diferença e que esta, recuada ou não, permanece. O que dizer de hoje, quase cem anos depois. O que de fato modificou? Que novas identidades nasceram?

Clareamos, com uma minúscula candeia de luz, o obscuro e triste fim de Benedita Tatu, há 83 anos passados; largada e relegada ao pó da indiferença. Na sua pequenez, jamais pensaria ser lembrada quase cem anos depois, num trabalho científico de uma Universidade. E clareando o sofrimento humano, discutido à luz da Geografia, não impede uma retomada à paisagem pretérita daquela Trindade das três horas da tarde do dia 27 de outubro de 1929, onde na poeira milenar e no pó de suas feridas, Benedita Tatu encontrasse alguém que a olhasse nos olhos, estendesse a mão, a levantasse da miséria e a tomasse ao lado, limpasse suas deformidades da lepra e dissesse como Cora Coralina (1969, p.88): “mulher da vida, minha irmã”.

É que nos lugares, nos territórios, nos espaços, há que se encontrar o homem e este nem sempre entende, à luz da misericórdia, aqueles que com ele convivem na caminhada interminável do tempo.

 

 

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