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Advento: A espera do Menino Deus

Em 380 da Era Cristã, o imperador romano Teodósio (378-395) promulgou o Edito de Tessalônica, tornando o cristianismo a religião oficial do Império. Vale lembrar que o cristianismo nasceu como seita do judaísmo, sendo então uma herança judaica. Com o documento teodosiano, a nova religião começou a apropriar-se de muitos elementos culturais greco-romanos, considerados pela hierarquia eclesiástica, como pagãos, e ressignificando-os, dando uma nova identidade a eles. O cristianismo primitivo ou o catolicismo nascente se expandiu de uma religião perseguida para uma religião expansionista. Em 476, com a queda do Império Romano do Ocidente, por vários fatores, entre eles, as invasões dos povos germânicos, o cristianismo conseguiu a façanha de convertê-los para a fé em Cristo.

Nos séculos VIII ao XI, houve as famosas invasões vikings, povos nórdicos, na Europa. Novamente o cristianismo tornou-se a religião desses povos. Também não devemos deixar de mencionar a importância da filosofia platônica e aristotélica na formação da doutrina cristã, a qual passou a ser chamada de patrística e escolástica. O catolicismo com todo esse contato cultural e filosófico tornou-se uma religião multicultural, com elementos apropriados de vários povos.

Não é o nosso intuito nesse artigo trabalhar como o catolicismo formou a celebração do Natal, mas sim o Advento: quatro semanas que antecedem a festa do nascimento de Jesus Cristo, justamente para preparar os seus fiéis para o Natal, que é a segunda maior festa do catolicismo. Essa preparação também é uma apropriação do culto religioso greco-romano, pois a palavra advento deriva do latim, “adventus”, significando vinda, chegada. Era usada para designar a chegada da divindade romana ao templo, a fim de visitar e abençoar os seus fiéis. Eles acreditavam que o deus, cuja imagem ficava no templo, permaneceria com eles durante o culto.

Advento também tinha outro significado na sociedade romana, simbolizando a primeira visita oficial que uma liderança política ou religiosa fazia ao assumir o seu cargo. Algumas moedas romanas encontradas em Corinto estão marcadas com o “adventus augusti” e também há relatos de cronistas falando do “adventus divi”, o dia da chegada do Imperador Constantino.

Com a institucionalização do catolicismo não poderia ser diferente: deveria também haver uma preparação especial dos fiéis para a chegada do seu Messias, o Redentor que lhes concedeu a salvação eterna. É no século V, que aparece o primeiro indicio de uma preparação para o Natal, com Perpétuo, bispo de Tours (461-490), estabelecendo um jejum de três dias antes desta festa. No final do século V, surge no Ocidente cristão, a “Quaresma de São Martinho”, um jejum de 40 dias, começando no dia seguinte à festa deste santo, 11 de novembro. Gregório Magno (590-604) foi o primeiro Papa que elaborou um ofício para o tempo do Advento, o Sacramentário Gregoriano, livro mais antigo a conter missas próprias para este tempo litúrgico. Já no século IX, o tempo do Advento passou de 40 dias para 4 quatro semanas. E no século XI, o tempo de jejum passou para uma simples abstinência de carne.

Chegando aos dias atuais, uma informação interessante, até mesmo para compreender um pouco mais o catolicismo: o ano litúrgico católico não começa, a exemplo do calendário civil, no início do mês de janeiro, mas sim no primeiro domingo do Advento. O ano litúrgico de 2018 começará no dia 03 de dezembro de 2017, com o Advento, e encerrar-se-á na Festa de Cristo Rei no último domingo de novembro de 2018.

Paulo Afonso Tavares é jornalista, mestre em Ciências da Religião pela PUC GOIÁS. É sócio jovem aspirante da Academia Trindadense de Letras Ciências e Artes (ATLECA). E-mail: jor.pauloafonso@gmail.com