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NO DIA DO PROFESSOR

Há alguns anos, uma amiga confidenciou-me sua preocupação com o futuro do filho único, que se preparava para o vestibular na Universidade de Brasília. Procurei tranquilizá-la: inteligente e estudioso, certamente o rapaz iria sair-se bem, qualquer que fosse a carreira escolhida. Ela suspirou fundo:

- É aí que está o perigo. Com voz embargada, prosseguiu:

- Imagine você que ele quer fazer o curso de licenciatura em História! O que ele vai fazer na vida? Ser professor? E logo de História?!

Era tão sincera em sua preocupação, que não me senti magoada, professora de História que fui durante décadas. Pelo contrário, tentei levantar-lhe o ânimo: que não se afligisse tanto, aceitasse a escolha do filho, pois o importante é trabalhar no que se gosta, fazer o que lhe agrada. Mesmo quando a remuneração não for boa, a realização profissional é importante.

Ela me interrompeu e perguntou:

- Você acha que salário de professor dá para viver, sustentar família?

- Dá, sim – respondi. E emendei: Claro que não dá para ficar rico, mas dá para uma vida modesta, de classe média, fazendo um trabalho interessante.

Minha amiga balançou a cabeça, desalentada; era a própria imagem da frustração materna.

No Dia do Professor – 15 de outubro – o episódio veio-me à lembrança e fiquei a pensar sobre a tão desejada melhoria do ensino brasileiro, nos seus diversos níveis. Falar em ensino é falar em professores: se forem competentes e dedicados, os resultados serão bons; com docentes medíocres e relapsos, poderão ser exemplares os prédios escolares, as bibliotecas, o planejamento e os currículos – mas o ensino e os resultados colhidos continuarão irremediavelmente comprometidos.

Há um dado pouco divulgado sobre as licenciaturas, onde se formam os professores: são os cursos menos procurados nas universidades e faculdades. Enquanto os mais prestigiosos, como os “antigos” cursos de direito, medicina e engenharia – e os mais “novos”, de comunicação e informática – são disputadíssimos nos vestibulares, com 30, 40 e 80 alunos brigando por um lugar, em algumas licenciaturas não se chega a preencher as vagas existentes.

Parece inegável que os candidatos mais competentes, os que tiveram melhor desempenho na escola média não se destinam ao magistério. Irão ser professores os menos preparados e menos inteligentes? Nem sempre, pois há muitas e honrosas exceções. No entanto, a regra geral é o círculo vicioso da falta de base prejudicando o desempenho acadêmico do futuro docente – cujas deficiências serão repassadas aos seus alunos ...e assim por diante.

Qual o perfil dos alunos de licenciatura? Geralmente, de origem modesta, alguns são realmente desejosos de seguir carreira no magistério que, além de realização profissional,  também lhes trará relativa melhora de status social. Esse fato poderá ser altamente positivo, uma vez que – ao menos nas escolas públicas – prevalece o alunado proveniente de estratos menos favorecidos da sociedade. Entre docentes e discentes estabelecer-se-á relativa identidade, o que facilitará maior entendimento e cooperação.

Ocorre, porém, que muitos dos estudantes procuram nas licenciaturas um meio menos competitivo de ingressar na universidade para, mediante artifícios legais e regimentais, chegar a outros cursos, nos quais não lograram ser aprovados no vestibular. Há licenciandos inteligentes e até brilhantes – mas, destes, poucos irão ser professores, preferindo atuar em outras áreas de atividade.

Por que? Qual o motivo de o magistério parecer tão pouco interessante como carreira, mesmo para aqueles que, em tese, preparam-se para exercê-lo? Quais seriam os atrativos que deveriam funcionar como ímãs, para que jovens de melhor capacidade intelectual, imaginação criadora e disposição para o trabalho quisessem ser professores?

Lembremos alguns: salário digno, na perspectiva de uma carreira fundamentada na meritocracia; ambiente de trabalho favorável e seguro; condições propícias ao aprimoramento pessoal e intelectual do professor. Atendidos tais requisitos, a própria essência do magistério atrairá os mais capazes para a profissão, que tem como compensação maior o estabelecimento de laços afetivos entre mestres e discípulos, mediante o intercâmbio de valores e a permuta de sentimentos que se prolongam pela vida afora.

Deu-se um “nó” de mediocridade na carreira docente, reforçado pela admissão aleatória de “professores leigos”, cuja contratação emergencial acaba sendo definitiva. Para sanar o despreparo dos docentes já admitidos - por quais critérios? - oferecem-se licenciaturas emergenciais e parceladas, cursadas em finais de semana, sempre com enorme esforço pessoal, mas de resultados duvidosos.

É um saco sem fundo: sem atrair os bons, os professores e o ensino serão irremediavelmente medíocres, quando não ruins ou péssimos. O que fazer? Na Universidade Harvard, nos Estados Unidos, há alguns anos foi implantado um programa em que os melhores alunos, de diferentes cursos, foram selecionados e preparados para ensinar em escolas de nível médio, recebendo um bom salário, durante dois anos. Resultados altamente positivos foram obtidos, sendo que alguns dos novos docentes optaram por ingressarem definitivamente no magistério. Seria esse um caminho?

Em tempo: Meu abraço afetuoso aos colegas de magistério (são muitos os ex-alunos)  pelo “nosso dia”, em 15 de outubro.

 (Publicado no jornal "Diário da Manhã" de Goiânia em 17 de outubro de 2017)