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A CADA DIA

A cada dia, a mídia capricha no noticiário político com feição policial, se é que assim se pode dizer. Altos figurões da República são postos em evidência pela prática de “mal feitos”, como dizia D. Dilma Rousseff ao referir-se às traquinagens dos companheiros. É de chorar – mas também faz rir, tal a desfaçatez presente em tais relatos. 

Nesta última semana voltou com força total o affaire Aécio Neves, um lamaçal em que o político mineiro chafurdou de forma desastrada, com a consequente perda da credibilidade e do respeito de boa parte dos quase 50 milhões de eleitores que sufragaram seu nome, na última eleição para a Presidência da República. Eu, inclusive.

Há toda uma pirotecnia em andamento com vistas a iludir os incautos e confundir as pessoas de boa fé. Em nome da autonomia dos poderes da República, o neto de Tancredo Neves livrou-se das medidas cautelares que lhe foram impostas pelo Supremo Tribunal Federal e foi reintegrado no Senado; além, é claro, de voltar a circular na noite, seja em Belo Horizonte, seja no Rio de Janeiro ou em Brasília. A propósito: alguém me explica qual o sentido do recolhimento noturno imposto a ele pelos luminares do STF? Estaria o ínclito homem público tramando golpes na calada da noite? Por que não o faria (fará?) à luz do dia?

Argumenta o reinventado senador que houve uma armação sórdida contra ele, e que foi vítima de gravações ilícitas e divulgadas de forma criminosa. Que os milhões recebidos dos irmãos Batista eram um negócio privado, simples empréstimo para pagar advogado – e que, portanto, nada se prova contra ele, vítima inocente de pessoas ardilosas.

Se a gravação não foi autorizada pela Justiça, pelo que seria questionável como prova judicial, nem por isso é possível desconhecer ou negar os fatos nela documentados para sempre. E dos quais todo o País ficou sabendo.

Assim é que, falando do Senado da República, a mais elevada instância do sistema democrático brasileiro, o senador Aécio Neves expressou-se como se fora um mafioso em diálogo com outro, ou seja, com o indigitado Joesley. E mostrou-se íntimo de quem hoje acusa de serem pessoas desprezíveis; pessoas a quem reconhece, entretanto, como decisivas para que ele (Aécio) chegasse aonde chegou.

No diálogo recheado de palavrões – de fazer corar um frade de pedra, como diriam os antigos - está o retrato por inteiro dos interlocutores: Joesley, reticente, bajulador, fazendo-se de respeitoso, mas subliminarmente crítico e superior; Aécio, em atitude temerária e sem medir consequências, alardeando prestígio, pedindo dinheiro a alguém que é/foi cria e cúmplice dos governos do PT. Logo ele – candidato da oposição, que iria dar início à guinada salvadora do pós-petismo, com um governo em que prevaleceriam a decência, a dignidade e a competência. Além de inaceitável do ponto de vista ético, é muita burrice!

Ante o inusitado das imagens gravadas há muitas perguntas no ar: por que os milhões emprestados (?) o foram em espécie? Por que não através de simples transferência bancária? Entre os Pais da Pátria será rotineiro remunerar causídicos com dinheiro “de contado”? 

No diálogo gravado, está dito que a dinheirama deveria ser entregue a alguém que – nas palavras textuais do senador – “a gente mata ele antes de fazer a delação”(sic). Não se chegou a tanto: o escolhido foi o primo Fred, que antes exercera a função de coordenador da campanha de Aécio à Presidência. Isso mesmo: na disputa pela mais alta investidura da República!

Tudo planejado, as cédulas teriam sido distribuídas em quatro malas; uma delas foi flagrada pela Polícia Federal ao chegar às mãos de um preposto de outro enroladíssimo político mineiro. Nessa história, como fica o advogado a quem se destinariam tais milhões?

Outra notícia que nos chega vai além da imaginação. O doutor Marcelo Miller – aquele que ainda trabalhava com o doutor Rodrigo Janot e passou a colaborar com a JBS - ao ser interrogado pela Justiça Federal explicou-se de forma irrefutável. Nada demais: com suas luzes de jurista, Miller  teria se reunido algumas vezes com o empresário, mas o fez na defesa da língua pátria. Ou seja: teria por objetivo corrigir eventuais erros de gramática, de concordância, de regência e que tais, nos textos e nas falas daquele “campeão nacional” e sua equipe de notáveis. Ao que parece, os resultados foram pífios.

Em tempo: será que não existe a gravação de um único diálogo entre Joesley Batista e D. Dilma Rousseff? Com todo o respeito, seria um monumento à clareza, à lógica, à elegância da palavra e da forma!

(Publicado no jornal "Diário da Manhã" de Goiânia em 24 de outubro de 2017)