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GOIÂNIA - 83 ANOS

O noticiário sobre os 83 anos de Goiânia foi enlutado pela tragédia acontecida no Colégio Goyazes – a morte de dois alunos e mais outros atingidos com maior ou menor gravidade. O assassino/agressor é também um garoto; todos na faixa de 13 a 14 anos, quando tudo deveria ser risos e flores, na alegre irresponsabilidade da pré-adolescência.

Acamada com uma gripe que me persegue há duas semanas, faço repouso obrigatório, enquanto o meu espírito pervaga e se perde, meio confuso, meio perplexo, triste e desolado.

Conheci Goiânia há quase sete décadas, quando a cidade se autointitulava “cidade-brotinho”, ou seja, “cidade adolescente”. Seus limites urbanos estavam definidos ao Sul pela Praça Cívica e o Palácio das Esmeraldas. Em direção ao norte, projetava-se em suas avenidas principais: Araguaia, Tocantins e Goiás, chegando ao descampado aonde viriam a ser construídas a Estação Ferroviária e a Praça do Trabalhador. No sentido leste/oeste, a Avenida Anhanguera começava na Alameda Botafogo, cruzava as demais e seguia para Campinas – distante do centro, bairro ao qual se tinha acesso por um precário e moroso serviço de ônibus.   

A poeira estava por toda a parte, quando não a lama. Carros eram raros e caros, todos importados. A casa de meus pais ficava na Rua 8, no centro, de onde eu me locomovia a pé ou de bicicleta para a faculdade (que funcionava no Colégio Santo Agostinho) e para o antigo IAPI (Instituto dos Industriários), onde ingressara por concurso público. À noite, sobrava disposição para fazer o footing na Avenida Goiás, dançar na Associação Bancária, ensaiar na AGT (Agremiação Goiana de Teatro)...

Nos finais de semana, íamos ao Jóquei Clube, aonde cheguei a tomar aulas de tênis, sem muito sucesso. Havia matinês, soirées, desfiles de modas, festinhas em casa de amigos e em nossa casa também. No jardim, minha mãe cultivava rosas que chamavam a atenção dos passantes. Meu pai se sentia gratificado com a profusão de flores e perfumes; sempre que ia a São Paulo trazia mudas e catálogos para incrementar os canteiros e o caramanchão – tão lindos!

Minha irmã mais nova frequentava o Lyceu de Goiânia; a mais velha, cursava Farmácia; eu ingressei no curso de Geografia e História da Faculdade de Filosofia (atualmente da PUC). No terceiro ano, comecei a dar aulas no Ginásio São Vicente de Paulo, que funcionava como Colégio de Aplicação; e o fazia à noite, indo e vindo a pé, sem que me acontecesse qualquer tipo de incidente, fosse assalto, fosse cantada de desocupados.

Eu era pouco mais velha do que a média dos meus alunos, e logo descobri que ali estava minha vocação: ensinar, estudar, adquirir conhecimentos e (mais tarde) pesquisar. Jamais me aconteceu qualquer atitude menos cortês ou desrespeitosa em sala de aula; ou qualquer sugestão de violência entre os alunos, muitos dos quais estudavam em horário noturno porque trabalhavam durante o dia. Verdade que o Diretor era o Professor Genesco Bretas, humano, competente, com peculiar senso de humor – mas que não brincava em serviço. Ao fim e ao cabo, éramos todos amigos, amizades que se estenderiam pela vida afora, a despeito de caminhos percorridos por trilhas insuspeitadas.

Carrancismo? Não, não havia. Faltavam-nos materiais e equipamentos modernos, uma boa biblioteca, quem sabe mapas atualizados... Ganhávamos um cachê simbólico pelas horas-aulas ministradas; havia, naturalmente, questões pendentes, queixas, rixas e rivalidades entre docentes e entre discentes. Mas nunca se cogitou sequer de insultar ou agredir um colega ou professor, de questionar a autoridade do mestre ou o valor intrínseco do trabalho docente.

De repente, fico a pensar: onde está a Goiânia daqueles anos 1950, com a tranquila certeza de que a escola é lugar a ser respeitado, porque voltado para o futuro em construção no âmago de cada um, mas também para o esforço coletivo em favor da sociedade e do País?  Com raras exceções, tínhamos pouco dinheiro e o ganhávamos trabalhando desde cedo. Acima de tudo, nossos pais estavam ali, ao nosso alcance, às vezes rigorosos e exigentes, mas sempre atentos e acessíveis.

Não, não entendo o massacre acontecido no Colégio Goyazes. Nem as vozes que exigem um “culpado” (ou culpados) pelo que aconteceu e apelam para a explicação mais fácil: o infeliz jovem que matou e feriu era vítima de bullying,  pois os colegas o teriam chamado de “fedorento”!

Se assim fosse, muitos de nós, hoje no ocaso da existência não teríamos chegado até aqui: em pequena, eu era “quatro olhos”, pois usava óculos; na adolescência, chamavam-me de “Caxias” e CDF, dado que sempre gostei de estudar. A uma das minhas amigas apelidaram de “perna de bater pomada”, porque as tinha compridas e os joelhos ossudos.

E havia os apelidos que nos faziam chorar e que hoje parecem engraçados: um colega, feio para valer, recebeu o epíteto de “Quase lindo!”.  Outro, comprido e desengonçado, era “Gogó da ema”, lembrando o coqueiro torto das Alagoas.

São complexas as causas e diferentes os motivos que terão levado o transtornado jovem de 14 anos a premeditar o crime, vasculhar a casa atrás de arma e munição, atirar vezes sem conta contra colegas, professoras, administradoras. De onde lhe viria tanto ódio e revolta? Ou tudo poderá ser entendido como um sinal dos tempos? Talvez – com a banalização da violência que está aí, a todo momento e em qualquer mídia, sem cessar, 24 horas por dia.

(Publicado no jornal "Diário da Manhã" de Goiânia em 31 de outubro de 2017)