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REVOLUÇÃO RUSSA

Noticia a mídia que ao ensejo dos cem anos da Revolução de 1917 reuniram-se cinco mil pessoas na Praça Vermelha, em Moscou; e que o governo russo (leia-se: Putin) preferiu não se envolver com o assunto, nem participar de eventos ou celebrações que tivessem por finalidade lembrar a implantação do comunismo soviético, seus feitos  e protagonistas.

É algo extraordinário que um fato tão marcante da História Contemporânea seja assim ignorado oficialmente, até porque ninguém pode negar que nos cem anos transcorridos a Rússia tenha emergido da condição de país atrasado para potência mundial, com avanços educacionais e científicos de peso e nova feição de sua sociedade e do seu povo.

O que certamente retira o brilho e a pertinácia de eventuais comemorações seria o preço pago pelo povo soviético para que tais avanços se dessem: quarenta milhões de condenados, perseguidos e mortos pelo regime implantado em 1917. Isso em nome da ditadura do proletariado que afinal se converteu em ditadura do Partido Comunista e suas lideranças, férrea nomenklatura que comandou o processo a ferro e fogo, com sacrifício de liberdades individuais as mais básicas, como a de pensar e opinar, e a de ir e vir.

Certo é que ao tempo dos czares tais liberdades inexistiam, sendo a Rússia governada pelos Romanov há séculos, com uma tradição de despotismo que chegava às raias da insanidade. Verdade que, a despeito de tais percalços, os russos projetaram-se com píncaros de genialidade – na literatura, na música, nas artes plásticas, nas matemáticas, na física etc. Além de destacar-se na guerra e no patriotismo, ainda hoje quase palpável para quem visita aquela grande nação.

Estive em São Petersburgo e em Moscou, tempos atrás, já passados alguns anos da queda do muro de Berlim e da débâcle da União Soviética. Surpreendeu-me a grandiosidade da natureza russa, em pleno verão. Por toda a parte, via-se o esforço nacional no sentido de restaurar tesouros e revalorizar tradições, como expressão do sempre presente amor à Mãe Rússia, inclusive na referência compulsiva aos sacrifícios do seu povo no altar da pátria.

Não vi miséria, nem pedintes, nem crianças abandonadas, nem desmazelo: as ruas são limpas, os monumentos bem cuidados, os museus belíssimos com acervos fantásticos. Mas o que há de melhor e de mais bonito – até nos parques – data de período anterior à Revolução Russa, sobre a qual procuramos ter notícias, mas a barreira da língua não o permitiu. O pessoal do hotel (de cadeia internacional) simplesmente sorria às nossas perguntas; os guias de turismo preferiam tratar de outros assuntos.

Edifícios e monumentos do período comunista são pesados, grandiloquentes, quando não feios e de mau gosto. Dois quarteirões além de onde nos hospedávamos, em uma escola infantil, lindos russinhos brincam e cantam alegremente, curtindo o sol e o calor que por lá é raro e pouco. Com energia e vitalidade incomuns, correm, pulam, sobem em escorregas e brigam entre si. Jovens professoras veem separá-los em meio a imprecações barulhentas e gestos autoritários; e nada de passar a mão nas cabeças, nem gestos de compreensão ou de cumplicidade!  A criançada acaba por obedecer e seguir docilmente em filas disciplinadas para as salas de aula.

Fiquei a pensar como se terá dado a evolução de ideias e convicções entre os cidadãos comuns, na transição do mundo do partido único e do culto à personalidade para a democracia e a economia de mercado. Durante pelo menos cinco gerações os russos foram doutrinados e educados para reverenciarem o estado como onipresente e atuante em todas as esferas da vida pessoal e institucional. De repente – a liberdade! Ou – pelo menos – a promessa de liberdade, junto com a revelação das atrocidades e dos desmandos cometidos pelo regime deposto.

Onde havia a certeza absoluta dos acertos e glórias da Revolução, passou-se ao questionamento, à dúvida, à busca da verdade até então escamoteada. Heróis e líderes de ontem denunciados como assassinos de multidões; verdades e certezas - disseminadas por décadas - convertidas em dúvida, em crítica, até em repulsa.

Em frente ao nosso hotel, instala-se uma feira livre de barracas com legumes, verduras, pequenos animais e belos artesanatos, em meio a gritos e música barulhenta.  Um senhor que vendia toalhas bordadas logo perguntou em espanhol se éramos cubanos. Quando nos identificamos como brasileiros, deu um grande sorriso, juntou as mãos e exclamou em êxtase: “Escrava Isaura!”. Por incrível que pareça, a novela brasileira fazia sucesso em Moscou, mesmo falada em português, com uma voz em off traduzindo o que se dizia para a inescrutável língua russa.

 (Publicado no jornal "Diário da Manhã" de Goiânia em 14 de novembro de 2017)