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DE GUARDANAPOS E QUE TAIS

Nos anos de colégio interno, a mestra do refeitório ensinava: o guardanapo grande, feito de tecido, deve ser dobrado ao meio e posto sobre os joelhos durante a refeição; finda esta, colocá-lo de volta sobre a mesa, à esquerda do prato. Nunca amarrá-lo ao pescoço ou enfiá-lo no decote da roupa. E mais: para levantar-se e descartar seus guardanapos, os convidados devem esperar que o anfitrião/anfitriã o faça primeiro. Jamais – em tempo algum – ouvi qualquer sugestão no sentido de usá-lo como adorno de cabeça, ou como peça de encenação festiva.

Nos últimos dias, entretanto, voltou a ser lembrada a assim chamada “farra dos guardanapos”, agora associada à prisão dos seus participantes. Com efeito: depois do ex-governador Sérgio Cabral e de sua mulher, Adriana Ancelmo (a das joias!), chegou a vez dos mandachuvas que governaram o Rio de Janeiro de 2007 a 2015. Ano em que aquela excelência renunciou ao cargo; coincidentemente, quando se agravou a crise daquele estado fluminense, que veio à falência sob o governo do sucessor, o ínclito Luiz Fernando Pezão.

É de deplorar a terra arrasada em que se converteu uma das mais ricas e influentes unidades da federação, que tem por capital a bela cidade do mesmo nome, cartão postal do turismo e vanguarda da cultura brasileira. É também de espantar o fato de que um eleitorado urbano e escolarizado tenha elegido reiteradamente políticos tão ruins para governá-lo – e, o que é pior, roubá-lo descarada-mente.

Senão vejamos: estão lá, na Internet e em qualquer veículo de comunicação, as imagens da “farra dos guardanapos”, ocorrida na noite de 14 de setembro de 2009. Vê-se um alegre grupo de homens e mulheres reunidos em ambiente elegante, finamente decorado, com móveis e serviço luxuosos, mesas enfeitadas e belos arranjos de flores. Tudo chique, tudo bonito e refinado.

Segundo consta, a reunião aconteceu em “um restaurante  parisiense” –  no Le Ritz Paris, cinco estrelas localizado na Place Vendôme,  coração da capital francesa. Esse badalado hotel data do século XIX e é reconhecido como templo do luxo, da opulência e do esnobimso. Oferece opções com ambientes diversos, dentre os quais o Bar Hemingway, homenagem ao escritor americano, que – como outras celebridades mundiais - foi cliente assíduo.

Naquele distante setembro, o então governador Sérgio Cabral estava em Paris, acompanhado de vistosa caravana, para receber do governo francês a prestigiada Légion d´Honneur. Paralelamente, comparecia a reuniões em que se resolvia sobre a realização das Olimpíadas de 2016 no Rio de Janeiro; e, igualmente, sobre a distribuição de propinas para integrantes do Comitê Olímpico Internacional. Extraoficialmente, aconteciam também acertos para a divisão amigável do faraônico butim de verbas que seriam despendidas em obras, a fim de viabilizar o megaevento na Cidade Maravilhosa.

Em um dos chiquérrimos restaurantes do Le Ritz Paris, um grupo de senhoras (Adriana Ancelmo à frente) exibia os sapatos Laboutin, comprados naquela tarde. Havia música ao vivo, comida preparada por “chefs” renomados, uísque, champanhe e vinho do bom e do melhor. Lá pelas tantas, um dos presentes brincou de vocal ao microfone; começaram as danças e os mais desinibidos passaram a exibir-se.

Cada qual mais animado, eis que alguém inventa de amarrar os guardanapos de linho branco na cabeça, como se fossem lenços de pirata. Mais risos, mais alegria, mais brincadeiras. Nenhuma preocupação com a conta: dado o caráter oficial da missão em que se empenhava a caravana, todas as despesas seriam (foram) pagas pelo que se convencionou chamar de dinheiro público. Na verdade, o suado dinheirinho dos contribuintes.

Alguém do próprio grupo (um espião infiltrado?) documentou a esbórnia, em cenas que são demolidoras. Está tudo ali: a descontração, a risadaria, a música, as coreografias! Tal documento foi entregue ao inimigo político de Cabral, o ex-governador Anthony Garotinho - que o divulgou somente em 2012. Foi um Deus nos acuda – mas as coisas se acomodaram e parecia que tudo seria esquecido.

Eis que agora – oito anos depois - voltam à mídia as imagens no Le Ritz Paris.  Desta vez com final diferente: a quase totalidade dos participantes da “farra dos guardanapos” está presa - até o emblemático empresário Jorge Sadala, o Rei das Quentinhas, beneficiário de sucessivos contratos milionários para o fornecimento de refeições para os presidiários do estado do Rio de Janeiro.

De onde a pergunta: foram “quentinhas” as refeições servidas até agora ao ex-governador Sérgio Cabral em Bangu?

(Publicado no jornal "Diário da Manhã" de Goiânia em 28 de novembro de 2017)