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ILHA DA FANTASIA

Muito se tem dito e escrito sobre Brasília, implantada no âmago do País, a mais de mil quilômetros do litoral. Ninguém lhe fica indiferente: há quem a ame e há quem a odeie, quem a elogie e quem a condene com igual veemência.

Cidade artificial, criada na prancheta de arquitetos e urbanistas, o próprio perfil de Brasília faz dela um corpo estranho à nossa cultura. Inspirada na “cidade modernista” de Le Corbusier, em nada se identifica com as cidades brasileiras tradicionais, estranhamento que é acentuado pelas formas inusitadas de edifícios e monumentos que a distinguem. Alguns são belos, como o Palácio da Alvorada e a Catedral; outros, simplesmente horrendos, parecem gigantescos túmulos de concreto, vidro e aço escovado. Tais obras primas brigam com o meio ambiente: nelas, é necessário o uso contínuo da luz elétrica, quando lá fora a claridade ofusca; e não se dispensa o ar condicionado, enquanto os ventos refrescam a amplidão do cerrado.

Esse descolamento da realidade acaba por tornar-se em regra geral, à qual aderem administradores e políticos. Contra Brasília diziam seus opositores que ficaria longe das pressões da opinião pública dos grandes centros urbanos, o que poderia levar a abusos de toda a sorte. Certo é que, desde a inauguração da nova capital, ali aconteceram e continuam a acontecer fatos inimagináveis.

Lembro, em 1960 a rebelião de certo deputado federal contra “o desconforto” do apartamento funcional que lhe fora destinado; literalmente, ele jogou na rua a mobília e demais apetrechos domésticos. Nada mais dissociado da vida real: o obscuro parlamentar representava o Maranhão, onde a maior parte das moradias sequer dispõe (ainda hoje) de água encanada e esgotos. Nos muitos anos decorridos, aquele estado empobreceu mais ainda, enquanto enriquecia o grupo dominante no governo, do qual, aliás, fazia parte o benemérito político.

Outro episódio vem-me à memória: estávamos na década de 1970 quando, a despeito da censura, a imprensa ensaiava denúncias contra os poderosos de plantão. Alguns repórteres descobriram na lata de lixo notas de compra do açougue que abastecia a casa de um ministro de estado. Era carne que daria para alimentar um batalhão! Não satisfeitos, os bravos rapazes da imprensa esmiuçaram outros gastos: o número de empregados da mansão localizada na Península dos Ministros; o consumo de gasolina com os carros à disposição da família ministerial; as compras diárias de flores, bebidas e guloseimas – e denunciaram tais desmandos sob a rubrica “mordomia”.

Publicada a matéria, foi um deus nos acuda! Não me lembro se os corajosos jornalistas foram punidos de alguma forma. O fato é que, até então, as expressões “mordomo” e “mordomia” eram coisa de castelo inglês; a partir de então, passaram a ser empregadas de forma usual, para designar abusos de autoridades estreladas ou de seus apaniguados.

Não é sem motivo a ideia de que, na nova capital – “ilha da fantasia” - tudo é superlativo, irreal e contabilmente nebuloso. Quando fui trabalhar em Brasília, há muitos anos, recebi convite para uma reunião informal, onde encontraria amigos de longa data. Qual não foi minha surpresa quando, no endereço do Lago Sul, vi-me em uma sofisticada mansão com mordomias mil, inclusive garçons enluvados que serviam vinhos de safras privilegiadas, acompanhando caviar, lagostas e etc.

 Aquilo me intrigou: assim como eu, o anfitrião era professor universitário e ocupava uma diretoria na área educacional, o que não significava rendimentos de marajá. Procurei saber se seria herdeiro de família rica. Nada disso: ele se orgulhava de descender de imigrantes que vieram para o Brasil porque perderam tudo durante a guerra. De onde viria o dinheiro para tais requintes? Mistério!

Com o tempo, agravaram-se o exibicionismo e a granfinice careta. Os maus exemplos vêm de cima, como acontecia com o serviço de bordo do Aerolula de saudosa memória, sob a batuta do ecônomo (dispenseiro) oficial da presidência. O preço de cada refeição individual era equivalente a um salário mínimo mensal – isso mesmo! Certamente os privilegiados passageiros degustavam as iguarias sem questionar valores; enquanto isso, na surdina atuavam os “consultores gastronômicos” e que tais. A propósito: lembremos a “chef de cuisine” que, na gestão de Fernando Henrique Cardoso, vinha do Rio de Janeiro especialmente para preparar o “menu” semanal do Palácio da Alvorada. Como dispunha de tempo de sobra – ao custo de doze mil dólares a visita – para passar as horas ela dava aulas de enologia ao sociólogo-presidente, que assim se aperfeiçoava na arte de conhecer e degustar vinhos raros.

Lembremos que tanto Lula como FHC se autodefinem como expoentes da esquerda socialista marxista. Isso sem falar na defenestrada D. Dilma Rousseff, ex-guerrilheira que, quando presidente, esnobava as embaixadas brasileiras e hospedava-se nos mais caros hotéis do circuito europeu. Tais luminares e seus seguidores atribuíam-se (ainda se atribuem) a primazia dos mais puros ideais de justiça social, pelos quais teriam lutado como heróis, combatendo a burguesia capitalista e suas elites burras e insensíveis.

Não tenho notícia de como se comportam os atuais donos do poder em matéria de mordomias; ao que parece elas não desapareceram de todo, mas diminuíram de visibilidade. Até porque os tempos são de vigilância e cobrança na mídia e nas redes sociais. Que certamente estarão atentas neste ano da graça (e de eleições) de 2018.

(Publicado no jornal "Diário da Manhã" de Goiânia em 02 de janeiro de 2017)