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MAGIA DO CINEMA

Sou do tempo em que ir ao cinema era programa obrigatório nos finais de semana. Quando jovem, morava na Tijuca, perto da Praça Saenz Peña, onde havia o Metro e o Ritz, salas que figuravam entre as melhores do Rio de Janeiro.

Era tempo do pós-guerra e as telas ficavam inundadas com histórias de heroísmo e de romance, exaltando os feitos dos aliados, vitoriosos no terrível conflito que abalou o mundo nos anos de 1939 a 1945. Os cenários levavam à Inglaterra, à França, à Itália, aos Estados Unidos – e até à Rússia, ainda que vista com certa suspeição. Da minha geração, quem não se lembra de “Os girassóis da Rússia”, com Sophia Loren e Marcelo Mastroiani?

Pelos anos afora, continuei aficionada ao cinema e assim continuo até hoje, mesmo com as Tvs por assinatura e modernidades outras. Em tese, seria preferível assistir a filmes em casa, no conforto do lar – só que, para nós mulheres, não há uma única vez em que você se poste diante da telinha e o telefone não toque, ou o interfone não insista, ou a funcionária não a interrompa com questões transcendentais como o tempero da sopa.

No escurinho do cinema, você pode enfim desligar-se e deixar-se envolver completamente pelo suspense da narrativa, pela sedução da música, pela qualidade das imagens, da iluminação, da angulação... E até captar mensagens subliminares nos closes, nos diálogos,  nos detalhes do décor ou da indumentária, na expressão corporal das personagens. É tudo fruição e magia.

Hoje assisti a um grande filme: O destino de uma nação, tradução medíocre para o dramático título original: Darkest Hour (A hora mais escura). Em verdade, desenrola-se  durante alguns dias do mês de maio de 1940, quando a Europa era varrida pelas tropas nazistas. Como uma avalanche, as divisões de Hitler dominaram a Holanda, a Bélgica e parte substantiva da França, ameaçando a Inglaterra e, igualmente, os ideais de democracia e de liberdade que fundamentam a civilização ocidental.

No cargo de primeiro ministro britânico, a Winston Churchill coube liderar seus compatriotas nesse momento dramático, quando parte do parlamento inglês tendia para a busca de uma conciliação com o führer, com vistas a manter a Inglaterra à margem do conflito. A história é consabida: prevaleceu o ponto de vista de Churchill, contrário a qualquer composição com a tirania, insistindo em estratégias que levaram à sofrida e demorada vitória dos aliados, inclusive o Brasil, sobre o nazismo e o fascismo. 

O filme centra-se na personalidade extraordinária de Churchill, vivido pelo veterano ator Gary Oldman, cujo trabalho é coadjuvado pela espetacular caracterização que o transformou fisicamente no excêntrico, agressivo e tenaz primeiro ministro britânico. As nuances da interpretação fazem jus à melhor tradição da arte dramática inglesa – corroborada, aliás, pelos demais atores.

A par da fruição estética, Darkest Hour levou-me também de volta à infância e a cenas que guardo na memória relativas à Segunda Grande Guerra Mundial. Em 1940, eu tinha nove anos. Lembro-me do grupo de pessoas que se reuniam toda noite, em casa de Celso e Marie, primos de minha mãe. Em Parnaíba, onde morávamos, havia poucos rádios – o melhor deles (que pertencia àquele casal) era um potente aparelho que conseguia captar as transmissões da BBC de Londres. Democratas convictos, eles recebiam pessoas da sociedade parnaibana, inclusive alguns estrangeiros antinazistas, para ouvir o noticiário de última hora.

Nós, crianças, brincávamos pelo casarão e pelo quintal; sem entender bem, intuíamos que o assunto era sério e, de algum modo, também nos dizia respeito. Os adultos discutiam o avanço dos panzers alemães, a nova guerra de movimento, as esperanças depositadas na Linha Maginot, trincheira em território francês, que deteria o avanço dos nazistas. 

Em uma parede, havia um mapa onde alfinetes coloridos marcavam as linhas beligerantes; até que veio a notícia da queda de Paris (não enfocada pelo filme), quando todos choraram, e eu também chorei.

Tantos anos passados, Darkest Hour recria com precisão as graves questões que estavam em jogo, sobretudo os totalitarismos que pressionavam o mundo livre. Atentemos para um detalhe: foi a extraordinária capacidade oratória de Churchill que, através de discursos impactantes, conseguiu mobilizar seus conterrâneos e os aliados contra a ameaça nazifascista. Reconheceu-o Lord Hallifax, implacável opositor do Primeiro Ministro, quando disse: “Churchill convocou a língua inglesa e arrastou-a para o campo de batalha”. Com o que chegou à vitória.

O que me leva a pensar um tanto melancolicamente: quando a maior parte de nossos políticos mal sabe falar de forma inteligível; quando é corriqueiro que se expressem através de palavrões porque não conhecem vocabulário mais adequado às suas ideias - o que nos espera, a nós, brasileiros, como chance de desenvolvimento econômico, social e cultural? 

 (Publicado no jornal "Diário da Manhã" de Goiânia em 16 de janeiro de 2017)