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EM SÃO PAULO (I)

Chegamos ao aeroporto de Campinas: é imenso! Construído com o que há de mais moderno, reluz à claridade da manhã ensolarada – são inumeráveis lojas, restaurantes, salas de embarque, balcões de orientação. Esteiras rolantes minimizam as distâncias a percorrer, que são enormes.

Ocorre-me que o mundo moderno é feito para pessoas jovens, ágeis no físico e na mente. Entretanto, o aeroporto está quase vazio. Ao que parece, foi superdimensionado em seu planejamento; da demanda prevista de 24 milhões de passageiros anuais, a crise os reduziu à metade.

Espera-nos Rodrigo, nosso neto - atencioso e gentil como sempre - que irá levar-nos ao Grande Hotel Águas de São Pedro, a pouco mais de uma hora de viagem. A estrada segue entre campos cultivados, seis pistas impecáveis, sem buracos nem imprevistos. De um lado e de outro, canaviais a perder de vista, intercalados por matas nativas e eucaliptos. Antes eram os cafezais que geravam riqueza,  ensejando o investimento em indústria e serviços, no grande salto para frente que fez do estado de São Paulo a potência econômica e cultural em que se tornou.

De permeio, galpões industriais, chaminés, alguns fugidios  aglomerados urbanos. Ao chegarmos a Piracicaba, passamos em frente à centenária ESALQ – Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, instituição modelar que há mais de um século atua no ensino e na pesquisa de ponta.

A cidade é uma metrópole no interior paulista: com cerca de 200 mil habitantes, por toda a parte vê-se limpeza, ordem, pujança, ao lado de valorização dos espaços verdes, inclusive uma bela avenida margeando o rio que lhe dá nome.

Finalmente, as expectativas de nossos corações se convertem em alegria, quando recebo das mãos de Gláucia e Rodrigo o pequeno Raul, nosso primeiro bisneto, com pouco mais de um mês. É um menino lindo, forte e saudável, com uma penugem escura na cabeça e os olhos vivíssimos. Aperto-o contra o peito, sinto-lhe o cheirinho de banho tomado há pouco, acaricio a pele fina das mãos de dedos alongados, que logo seguram com firmeza os meus.

Raul...Tão pequenino és e quantas vidas convergem para a tua! Corre em tuas veias sangue de goianos,paulistas e mineiros; também de piauienses, baianos, portugueses, talvez índios, talvez mamelucos e cafusos. Além de ascendentes alemães e italianos.

Emocionada, contemplo o amor que é quase palpável, em torno do garotinho aparentemente frágil: ele foi esperado e recebido com uma aura de carinho, que continua no dia a dia, nos cuidados dos pais, sem jamais se queixarem das noites mal dormidas ou do choro do bebê. Porque Raul chora com vontade quando tem fome e quando tem sono. Depois apaga, dorme e sorri em seu sono inocente, sonhando com os anjos que lhe rodeiam o berço.

Brasileirinho Raul – quando tiveres minha idade, terá chegado ao fim o século XXI. Até lá, o que será feito do nosso Brasil, da gente brasileira da qual és expoente? Vejo-te na creche, enquanto pequenino; depois na escola em seus diferentes momentos, até à faculdade e à pós-graduação. Porque é certo que terás excelente educação formal e informal, tanto pelo exemplo de teus pais, como pelo zelo com que eles procurarão propiciar-te o que há de melhor.

E depois – que oportunidades de trabalho e de realização pessoal te serão dadas dentro de duas, três, décadas, quando estarás na idade adulta? Como será a sociedade brasileira que ora se mostra incerta e conturbada, mas que deverá emergir mais estruturada da crise com que nos debatemos?

Tudo parece tão distante! O que ora se apresenta é o menininho que começa a ficar inquieto, é sua boquinha ávida em busca de alimento. Na criança que acaricio, a natureza irá reafirmar-se no milagre do crescimento até alcançar a idade adulta. De permeio, entrevejo o bebezinho roliço em seu primeiro balbucio, expressando o elo afetivo que se reforça na cadeia indissolúvel da família que tem por base o amor recíproco.

Dirão que és um privilegiado, bisnetinho querido, o que deve ser verdade: são tantos os que nascem sem teto, sem cobertas, sem pai definido... e há até os que são abandonados pelas próprias mães! O fato de teres uma família amorosa cria também deveres, aos quais irás correspondendo aos poucos. Na contrapartida, em futuro não tão distante, serás um filho dedicado, um cidadão consciente, um homem de bem na cadeia sem fim da humanidade.

Segue em frente, Raul, na longa estrada que te aguarda, atapetada pelos desvelos dos que ora te recebem com amor. Tens a vida pela frente – que Deus te proteja!

(Publicado no jornal "Diário da Manhã" de Goiânia em 06.02.2017)