Publicações

RECOMEÇANDO

E aqui estou eu, recomeçando no ofício de cronista. Recomeçar é de certa forma reviver, sendo razoável esperar-se que a cada renascimento o conteúdo e a forma se aperfeiçoem na tarefa de capturar a fugidia matéria prima que é o dia a dia.

Escritores somos todos nós os que lidamos com a palavra escrita – em cartas, relatórios, poemas, em relatos sob a forma de conto, de novela, de teatro, de romance. Vista como gênero menor, a crônica traz o sabor do seu tempo, porquanto registra o aqui e agora sem pretensões de didatismo, de rigor científico ou de especulação filosófica. Tem muito a ver com a poesia no descompromisso com a tirania dos fatos, alimentando-se em parte da verdade, em parte da imaginação e, outro tanto, da emoção. Pelo que é intimista e pessoal, algo como se o cronista espargisse partes de si mesmo pelo caminho, argamassa de sonho e testemunho do tempo transcorrido.

Comecei muito cedo a publicar crônicas – tinha pouco mais de 20 anos e estudava na Faculdade de Filosofia de Goiás. Goiânia era então cognominada “cidade brotinho”, gíria que na década de 1950 significava algo como adolescente em flor. Era uma capital tranquila, circunscrita ao que fora previsto no Plano Diretor de Atílio Correia Lima, o urbanista que, abrigado em uma tenda improvisada, projetara a nova urbe implantada no cerrado goiano. 

Rememorando a longa estrada percorrida – mais de seis décadas, por tantos caminhos e descaminhos  - aqui estou eu a perguntar a mim mesma: o que nos leva a escrever, escrever compulsivamente, escrever com a mente, o coração e a alma, mesmo quando são adversos os dias, sofridas as noites e tudo parece solidão e descrença?

Nesses anos tantos, quanta coisa mudou no mundo, no modus vivendi das sociedades da assim chamada cultura ocidental! De um vasto fazendão quase desabitado, atrasado e pobre, o Brasil ascendeu à condição de oitava economia do mundo. Confesso que não sei a quantas andamos, atualmente; mas somos uma potência de 213 milhões de habitantes, ainda que frouxamente distribuídos por espaços e biomas vários, com peculiar diversidade étnica e cultural.

Certo é que estamos a construir a maior civilização tropical do planeta, pelo que tivemos (teremos) de descobrir caminhos próprios, reinventar, improvisar, criar, adaptar saberes e práticas ao nosso meio e à nossa circunstância. Inclusive na área vital que é a da comunicação de massa, que inclui jornais, jornalistas e... cronistas.

Neste final das águas e início do outono, vivemos dias de expectativas e de desesperança, aliadas a revolta e frustrações na política, na economia, nas mentalidades, nos costumes. Para a minha geração, é como se nada restasse de todo o trabalho e dedicação com que nos aplicamos na construção de um país mais desenvolvido e mais justo. Mas dias melhores virão, até porque o povo brasileiro saberá encontrar seu próprio caminho, de harmonia, de paz e de justiça.

Desta coluna quinzenal em que ora estreio, saúdo os leitores de “O Popular” e agradeço a acolhida desse tradicional veículo da imprensa goiana. Com olhos da experiência e da sensibilidade, procurarei captar e compartilhar o momento, e – quem sabe? – registrar o aqui e agora do ponto de vista de quem muito viveu e aprendeu, ainda que convicta da transitoriedade das certezas.