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DIREITA & ESQUERDA

As primeiras noções de direita e esquerda remontam à infância. A maior parte das crianças é destra, ou seja, utiliza a mão direita para pegar a chupeta, comer, vestir a roupa da boneca, empurrar o carrinho de brinquedo. Os que fogem à regra são os canhotos, logo assinalados como diferentes.

Em tempos idos, na escola era uma provação! Ensinava-se, na marra, o aluno a escrever com a mão direita. Valia tudo, de persuasão a repreensão e castigo. Quase sempre com resultados pífios, como aqueles que passavam a escrever com o caderno invertido ou seguravam o lápis às avessas.  

Pesquisas científicas buscam explicar o porquê da existência de destros e canhotos. Durante muito tempo, prevaleceu a certeza de que tal se deveria à bilateralidade do cérebro; na atualidade, supõe-se que esteja associado à influência social e a impulsos neurológicos provenientes da medula, atuando sobre os membros superiores e inferiores.

Passou-se à aceitação dos canhotinhos, sem mais questionamentos.  Muitos deles foram (são) pessoas incomuns, para o bem ou para o mal. Na lista dos famosos, incluem-se dentre outros, Hitler, Miguel Ângelo, Leonardo Da Vinci, Fidel Castro , Churchill e Bill Gates,  bem como os nossos Pedro I e Jânio Quadros. Entre as mulheres vai-se de Joana D’Arc a Greta Garbo, Marilyn Monroe... e, naturalmente, minha irmã Marita.

Na Bíblia, há mais de 100 citações positivas da mão direita e somente 25 da esquerda, todas negativas. Durante a Idade Média, associava-se o canhotismo a forças maléficas e à bruxaria. No dia a dia, são muitas as expressões que exaltam a direita em detrimento da esquerda. Pessoa direita é alguém de comportamento exemplar; contrariamente, ser “gauche” (esquerda) pressupõe alguém fora dos padrões normais de conduta.

Nos dias de hoje, entretanto, remontando aos dias da Revolução francesa, invoca-se esquerda e direita como indicativas de posições políticas -  e a menos cotada é a direita! Dizer que alguém é “de direita” soa como condenação final, ficando subentendida uma aterradora coleção de ideias e práticas nocivas. Afinal, ser de direita pressupõe comungar com o capitalismo, o neoliberalismo, o reacionarismo, talvez a teocracia e  a monarquia. E mais: quando se pespega em alguém a pecha de “direita fascista” – definitivamente, não há salvação!

A propósito, lembro-me de uma história passada durante a primeira metade do século passado. Em uma das muitas quarteladas e revoluções que então proliferavam país adentro, um chefete local - cabo reformado da polícia - treinava ordem unida com um grupo de voluntários que iriam defender (como sempre) a lei e a ordem. Para o que comandava marcialmente:  - “ Pé direito! Pé esquerdo! Pé direito! Pé esquerdo!”

Só que os homens se atrapalhavam e não havia como acertar o passo dos valorosos recrutas. Uma vez, duas vezes, dez vezes... Foi quando uma luz se fez: o empenhadíssimo disciplinador mandou vir um balaio de palhas secas de milho e ordenou que cada homem amarrasse uma no dedão do pé direito.  Com absoluto sucesso passou a comandar: “Pé com palha! Pé sem palha! Pé com palha! Pé sem palha!”

Na confusão política atual, para diferenciar direita e esquerda não seria interessante seguir o exemplo do distante (e criativo) ex-cabo sertanejo?

(publicado no jornal "O Popular" de Goiânia em 07 de abril de 2018)