Publicações

SAUDADE E NOSTALGIA

Durante férias que passei na Cidade de Goiás, eu descia a pé a Rua da Abadia e ia visitar Cora Coralina. Acompanhavam-me dois de meus filhos, ainda pequenos, que adoravam correr pelas calçadas de pedra no embalo da ladeira. Animava-os a expectativa de ganhar doces da velha escriba que, às primeiras horas da manhã, já estava sentada em sua cadeira de balanço, a escrever e  consultar o dicionário.

Da porta eu chamava:  “Ó de casa!”. Cora nos recebia com afabilidade, convidava-me a sentar e perguntava às crianças se queriam brincar no quintal; logo estavam descendo a escadinha irregular e iam beber água na biquinha.

Conversávamos descontraidamente. Havia sempre  um livro novo sobre o banquinho ao lado.   Ela não falava sobre o que estava produzindo, era como se uma espécie de pudor a impedisse de fazê-lo, até que tivesse chegado à forma definitiva do texto. Entretanto, quando se tratava versos, crônicas, contos e relatos já escritos, Cora não se furtava de comentá-los, explicar como os concebera.  De cunho fortemente autobiográfico, parte de sua obra remete à infância, à família próxima e a ancestrais remotos.  Em um desses momentos descontraídos, ela me fitou com a intensidade peculiar de seus olhos azuis e perguntou:

- Você observou que eu não uso a palavra saudade?

O que é verdade. Nem saudade, nem nostalgia. Possivelmente para diferençar-se de certa literatura dita feminina - edulcorada e piegas – que foi corrente até meados do século 20, a grande poetisa de Goiás prima pelo vocabulário forte e impactante, pontilhado de arcaísmos.

O episódio vem-me à lembrança quando vejo posts na mídia celebrando as maravilhas do estilo de vida “à antiga”, do qual os internautas teriam saudades repassadas da mais pura nostalgia. E haja fotos de casas, objetos e equipamentos domésticos usados há setenta, oitenta, cem anos atrás.

Que me perdoem tais saudosistas nostálgicos, sobretudo se forem mulheres. Atendo-me unicamente ao dia a dia, a vida era dura. Trabalhava-se de sol a sol; prevalecia o desconforto  e era limitado o alcance às benesses da cultura.  Donas de casa – mesmo as que contavam com auxiliares - lidavam inexoravelmente com o fogão de lenha; chafarizes e cisternas com baldes e sarilhos garantiam o abastecimento de água. Para as necessidades fisiológicas ia-se “atrás das bananeiras”, usavam-se urinóis e fétidas casinhas no quintal.  Tomava-se banho em tinas e bacias, a água quente derramada de chaleiras fumegantes; ferros de passar roupas assemelhavam-se a instrumentos de tortura, botando fogo pelas ventas. Para desencardir as tábuas do piso e dar-lhes brilho, havia que espalhar cera e puxar o escovão...

Com tanta malhação, era difícil encontrarem-se pessoas obesas, mesmo consumindo tachadas de doces – sempre feitos em casa. Inocentes regalos dependiam de muito esforço e paciência: livros, revistas e jornais chegavam pelo Correio, com meses de atraso; quem gostasse de música tinha de produzi-la, no bandolim, na gaita, no violino ou no piano. Foi uma revolução quando chegou o gramofone; conta-se que, maravilhado com a novidade, certo figurão trocou uma fazenda de porteira fechada, por uma vitrola de corda e discos de Caruso...

De onde a pergunta: saudade e nostalgia do quê mesmo?