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O BANDEIRANTE

Na Praça do Bandeirante, olho pela janela do carro e vejo, lá em cima, a estátua do Anhanguera.  Parece pequena e inexpressiva. Entretanto, o local aonde foi fixada tem sentido simbólico: no cruzamento da Avenida Goiás com a Anhanguera, as duas principais artérias da nova capital que se pretendia fosse moderna, arrojada e saudável, além de indutora do progresso.

No Relatório que o urbanista Atílio Correia Lima apresentou ao Interventor Pedro Ludovico Teixeira sobre o Plano Diretor de Goiânia (1935), são perceptíveis ideias que o inspiraram. Dentre as quais o sentido épico de conquista da nova fronteira civilizatória, dilatada com a Marcha para o Oeste. Pelo que ele sugere que, na confluência daquelas vias, fosse erguido “um monumento comemorativo das bandeiras, das descobertas e das riquezas do Estado [de Goiás]”.

Havia, pois, que celebrar as bandeiras e os bandeirantes, então vistos como heróis que revelaram as riquezas da região situada além do Meridiano de Tordesilhas, apropriada pela força das armas e pelo trabalho do colonizador.

O monumento ao Anhanguera foi concebido e executado pelo escultor Armando Zago, mediante encomenda do Centro Acadêmico XI de Agosto da Faculdade de Direito de São Paulo; e entregue à população em 9 de novembro de 1942, meses depois do Batismo Cultural de Goiânia, inauguração  da nova urbe que se erguia no Planalto.

Essa o história oficial – mas há perguntas e questionamentos não resolvidos. É do conhecimento geral que na tradicional Faculdade do Largo de São Francisco estudaram goianos ilustres, no Império como na República. Não se sabe, porém, quem seriam os jovens goianos que, em 1942, perlustravam os bancos das Arcadas.  De quem partiria a ideia de perpetuar em bronze o Anhanguera, personagem que também compõe o imaginário das bandeiras paulistas?  As elites intelectuais viviam momento de descoberta do Brasil, do seu povo e de sua cultura peculiar e mestiça. Quem terá induzido à admiração os jovens do indômito  CA pela distante e inacabada Goiânia? Que Mecenas terá bancado a iniciativa, já que, tradicionalmente, instituições representativas de estudantes não dispõem de folga financeira? 

De outra parte, a obra de Armando Zago distancia-se da art nouveau, corrente estética que presidiu a construção da nova capital de Goiás. Nascido na Itália, o artista estudou em academias de Verona e de Milão; de onde emigrou para o São Paulo, vindo a tornar-se expoente da arte funerária, em moldes clássicos.  

A estátua – sobre um pedestal - reproduz a figura de Bartolomeu Bueno da Silva, o Anhanguera 2 - que veste gibão e calções, indumentária  própria dos bandeirantes. Na mão direita, segura um bancamarte; na esquerda, uma bateia. Usa chapéu de abas largas e botas de cano alto; traz uma das pernas avançada e meio flexionada e tem o corpo como que impulsionado por uma força interior. Está voltado para o Oeste, indicando os caminhos do novo Brasil que se desejava ocupar e anexar à nação, cuja população ainda se apegava ao litoral, como caranguejos à beira-mar plantados.

Melancolicamente, olho o Bandeirante no canteiro mínimo que sobrou para abrigá-lo. Içaram-no a uma coluna, alguns metros acima do solo – com o que ficou reduzida a quase insignificância aos olhos de quem circula pelo local. Lembro-me de um conhecido que fez a análise da estátua: “Do ponto de vista militar, o Bandeirante é insustentável – disse ele. Se for surpreendido por um inimigo ou assaltante, para se defender ele terá de largar a arma ou a bateia. No primeiro caso, poderá perder a vida: no segundo, o ouro.”

Quem sabe resolveram guindá-lo às alturas a fim de protegê-lo dos trombadinhas que são tantos no degradado centro histórico de Goiânia?

Na Praça do Bandeirante, olho pela janela do carro e vejo, lá em cima, a estátua do Anhanguera.  Parece pequena e inexpressiva. Entretanto, o local aonde foi fixada tem sentido simbólico: no cruzamento da Avenida Goiás com a Anhanguera, as duas principais artérias da nova capital que se pretendia fosse moderna, arrojada e saudável, além de indutora do progresso.

No Relatório que o urbanista Atílio Correia Lima apresentou ao Interventor Pedro Ludovico Teixeira sobre o Plano Diretor de Goiânia (1935), são perceptíveis ideias que o inspiraram. Dentre as quais o sentido épico de conquista da nova fronteira civilizatória, dilatada com a Marcha para o Oeste. Pelo que ele sugere que, na confluência daquelas vias, fosse erguido “um monumento comemorativo das bandeiras, das descobertas e das riquezas do Estado [de Goiás]”.

Havia, pois, que celebrar as bandeiras e os bandeirantes, então vistos como heróis que revelaram as riquezas da região situada além do Meridiano de Tordesilhas, apropriada pela força das armas e pelo trabalho do colonizador.

O monumento ao Anhanguera foi concebido e executado pelo escultor Armando Zago, mediante encomenda do Centro Acadêmico XI de Agosto da Faculdade de Direito de São Paulo; e entregue à população em 9 de novembro de 1942, meses depois do Batismo Cultural de Goiânia, inauguração  da nova urbe que se erguia no Planalto.

Essa o história oficial – mas há perguntas e questionamentos não resolvidos. É do conhecimento geral que na tradicional Faculdade do Largo de São Francisco estudaram goianos ilustres, no Império como na República. Não se sabe, porém, quem seriam os jovens goianos que, em 1942, perlustravam os bancos das Arcadas.  De quem partiria a ideia de perpetuar em bronze o Anhanguera, personagem que também compõe o imaginário das bandeiras paulistas?  As elites intelectuais viviam momento de descoberta do Brasil, do seu povo e de sua cultura peculiar e mestiça. Quem terá induzido à admiração os jovens do indômito  CA pela distante e inacabada Goiânia? Que Mecenas terá bancado a iniciativa, já que, tradicionalmente, instituições representativas de estudantes não dispõem de folga financeira? 

De outra parte, a obra de Armando Zago distancia-se da art nouveau, corrente estética que presidiu a construção da nova capital de Goiás. Nascido na Itália, o artista estudou em academias de Verona e de Milão; de onde emigrou para o São Paulo, vindo a tornar-se expoente da arte funerária, em moldes clássicos.  

A estátua – sobre um pedestal - reproduz a figura de Bartolomeu Bueno da Silva, o Anhanguera 2 - que veste gibão e calções, indumentária  própria dos bandeirantes. Na mão direita, segura um bancamarte; na esquerda, uma bateia. Usa chapéu de abas largas e botas de cano alto; traz uma das pernas avançada e meio flexionada e tem o corpo como que impulsionado por uma força interior. Está voltado para o Oeste, indicando os caminhos do novo Brasil que se desejava ocupar e anexar à nação, cuja população ainda se apegava ao litoral, como caranguejos à beira-mar plantados.

Melancolicamente, olho o Bandeirante no canteiro mínimo que sobrou para abrigá-lo. Içaram-no a uma coluna, alguns metros acima do solo – com o que ficou reduzida a quase insignificância aos olhos de quem circula pelo local. Lembro-me de um conhecido que fez a análise da estátua: “Do ponto de vista militar, o Bandeirante é insustentável – disse ele. Se for surpreendido por um inimigo ou assaltante, para se defender ele terá de largar a arma ou a bateia. No primeiro caso, poderá perder a vida: no segundo, o ouro.”

Quem sabe resolveram guindá-lo às alturas a fim de protegê-lo dos trombadinhas que são tantos no degradado centro histórico de Goiânia?

(publicado no jornal "O Polular"  de Goiânia em  05 de maio de 2018