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GOSTAR DE LER

Fecho o livro, cerro os olhos e suspiro. Concluí a leitura do romance, desses que empolgam e arrebatam – e as personagens estão à minha frente, quase palpáveis, cheias de vida e de calor, como se reais fossem em sua individualidade e complexidade.

Acabo de ler pela quinta vez – ou seria a sexta?   - uma das obras mais marcantes em língua portuguesa: “Os Maias”, de Eça de Queiroz. A cada releitura, na medida em que a trama se arma e prospera, é como se reencontrasse velhos amigos nos quais venho a descobrir sutilezas até então indevassadas na alma e no corpo. Volto ao mundo real, à sequência dos fatos miúdos do dia-a-dia. Quebrou-se a magia da ficção que me transportou para outra época, outros cenários, outra sociedade cujas normas de convivência parecem ultrapassadas com o transcorrer do tempo. Mas as personagens permanecem nítidas em seus contornos enquanto emoções e sentimentos afloram, ontem como hoje tirânicos e avassaladores.

De permeio com a rotina que subjuga, fico a pensar como deve ser triste e empobrecedor não amar a leitura, não gostar de livros. De há muito constato que nas escolas pouco se lê, até mesmo nas Faculdades de Letras – que, em nome da modernidade, ignoram (ou subestimam) os autores clássicos. Com o que boa parte do que de melhor produziu o espírito humano é relegado a segundo plano, ou entrevisto em “resumos”, quando não na categorização irrelevante de modismos literários.

Porque ler é paixão, é encantamento, é fruição com toques de emoção e prazer.   Ler é conhecer mundos e pessoas, é penetrar em almas, aurir vivências e querências, assim enriquecendo a própria aventura existencial. Bem sei que a categoria “leitor inveterado” ou “contumaz” – na qual me incluo - está a desaparecer, talvez pela pressa que permeia a vida, talvez pela tirania dos textos milimétricos, contados em caracteres nos aparelhinhos eletrônicos que imperam sobre as pessoas ditas bem informadas. O que é uma pena.

O leitor inveterado – entre outras peculiaridades – ama o cheiro de livros cuja lombada acaricia, e jamais deixa de comprar um, quando passa por uma livraria.  O livro é companheiro de todas as horas. Às vezes, lê dois ao mesmo tempo: um acompanha-o em seus deslocamentos; o outro é saboreado em casa, com vagar ou sem ele. Até porque quando o texto é bom, enfrenta-se o dilema de devorá-lo com sofreguidão, ou ir devagar, para que dure mais tempo...

Universidades do Canadá divulgaram a conclusão de pesquisas segundo as quais leitores contumazes aceitam mais facilmente ideias diferentes, conquanto mantenham firmes suas próprias convicções. Vivendo situações e experiências através de múltiplas personagens, tornam-se pessoas que sabem ouvir e posicionar-se como se fossem o outro. De onde se tornam compreensivas, versáteis, boas companhias – ou seja, as melhores pessoas com quem se poderá viver uma paixão.

Não exageremos, leitores inveterados, compulsivos ou não! A despeito da estranheza de que existam pessoas que não gostam de ler, jamais deixemos de lado o amor pelos livros e pela boa literatura. Que tal uma visita ao sebo mais próximo, para garimpar preciosidades – e, quem sabe, encontrar uma edição rara de “Os Maias”?

 (Publicado no jornal “O POPULAR” de Goiânia em 19 de maio de 2018)