Publicações

DEFENESTRANDO

Um dos momentos mais curiosos da história ocidental é a assim chamada defenestração de Praga. Como todos nós sabemos, o verbo defenestrar vem do radical comum à palavra “janela” em alguns idiomas modernos: em francês, fenêtre; em italiano finestra; em alemão, fenster. Defenestrar significa, portanto, jogar alguém (ou alguma coisa) pela janela.

No ano da graça de 1628, a região da Boêmia, na Europa central, estava conflagrada por intermináveis guerras religiosas. A nobreza tcheca, majoritariamente protestante, hostilizava o católico Imperador do Sacro Império Romano-Germânico, Fernando II.  A luta entre as facções rivais chegou à sede do governo, no castelo de Praga – talvez o maior da Europa, cujo imenso salão de cerimônias se debruça sobre o abismo.

Os reformistas levaram a melhor; dominaram os partidários do Imperador, subjugaram-nos e empurraram alguns deles (inclusive um bispo) pelas janelas abertas. Entretanto, não houve mortes: a dezenas de metros abaixo, acumulavam-se enormes depósitos de esterco que amorteceram a queda e salvaram os defenestrados.

O episódio veio-me à lembrança, quando estive recentemente no plenário do Senado Federal, em Brasília. Muito bonito, moderno, confortável, tecnologicamente avançado – mas cadê as janelas? É tudo rigorosamente fechado, encerrado em si mesmo, distante das alternâncias do clima e dos rumores do mundo. Desde a inauguração da cúpula reversa em que se instalou a mais alta Casa do Congresso – em 1960 – jamais terá corrido por ali uma lufada de vento, uma rajada de poeira; nem mesmo chegou o cheiro de terra molhada quando as cataratas do céu se desatam sobre a aridez do Planalto.

É como se o autor do projeto dos edifícios de formas inusitadas na cidade modernista pretendesse isolar senadores - e deputados também, em outra cúpula igualmente cerrada. Talvez para mantê-los afastados e inaccessíveis aos clamores da população, às incertezas do mundo real, à sensaboria ou à paixão das criaturas humanas, essa diversidade multifacetada que forma o povo e a sociedade brasileira.

Abstraio-me um pouco e fico a cogitar sobre a hipótese de uma batalha sangrenta, entre adversários políticos ideologicamente divergentes, no clima de antagonismo feroz que hoje predomina.  Naquele recinto hermético, não haveria como defenestrar os derrotados, pelo que os resultados seriam talvez mais trágicos do que o foram no castelo de Praga. Até porque – a não ser metaforicamente - não há esterco em redor para amortecer a queda, servir de colchão e acautelar a vida dos derrotados.

Uma hipótese seria levá-los para o Anexo I, de 28 andares e 100 metros de altura; e de lá jogá-los no espaço, quem sabe do último pavimento? Isso viria, porém, em sentido contrário à tradição de tolerância e busca de entendimento, que marcaram até ontem nossa história. O que não chega a ser defeito, mas, pelo contrário, expressa bom senso, equilíbrio e maturidade.

Em tempo: depois da defenestração de Praga, seguiu-se a terrível Guerra dos 30 anos, que penalizou a Europa e ceifou milhões de vidas. Outros conflitos sangrentos aconteceram, antes que se chegasse à conclusão de  que protestantes e católicos são igualmente cristãos e podem ( devem) tolerar-se mutuamente e viver em paz. 

(Publicado no jornal “O POPULAR” de Goiânia em 16 de junho de 2018)