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CARREIROS E ROMEIROS

Nos carros de bois há algo de solene. Majestosos, pesados, vagarosos, movem-se na platitude dos momentos sem pressa, anunciando-se com a cantoria das rodas ferradas.  À sua passagem abrem-se parêntesis no tempo, que ora recua ao passado, ora retorna ao aqui e agora, temperado de singeleza e bonomia. A tosca engenharia, os materiais de que é feito, a própria humanidade que o conduz e nele é conduzida parecem feitos de elementos que os anos não deformam nem corrompem.

Vejo-os, aos carros de bois, percorrendo as estradas da minha infância, abastecendo as moendas do engenho. De manhãzinha chegavam carregados, o cheiro adocicado das canas flutuando no ar, enquanto os  carreiros instigavam com gritos os animais pachorrentos.

Naqueles tempos de severa separação entre os brinquedos de meninas e meninos, em vão eu sonhava subir num carro de boi e, em cima de um monte de cana, seguir estrada afora. Pequena ainda, ficava na varanda a vê-los; minha madrinha não deixava por menos: “Ali não é lugar de menina”, ela dizia. Era o bastante para que eu nem ousasse pedir o que queria.

De tanto olhar, muda e quieta, um de meus tios mandou chamar o Raimundo Artur, um preto retinto, os dentes alvos luzindo na carantonha.  Homem de confiança, a ele foi dada a incumbência de me levar no carro de bois a passear no canavial. E se eu quisesse, poderia chamar minhas colegas de brincadeiras.

Lá fomos nós. Raimundo Artur nos ajudou a subir no assoalho do carro e sentamos com as pernas de fora, a balançar. O carreiro ia à frente, levando o ferrão. Entre sacolejos, as rodas rangiam e cantavam sua rude melopeia. Trabalhadores voltavam da roça e acenavam com as mãos, ao verem aquele amontoado de meninas em festa. Na volta, encarapitadas em cima de feixes de cana caiana, mordíamos as mais tenras e doces, rindo e gritando nos solavancos da estrada.

Foi tudo tão fugaz, mas aqueles momentos ficaram para sempre e sempre os evoco, quando vem o tempo dos carros de bois, na quinta-feira que antecede a festa do Divino Pai Eterno, em Trindade.

Vejo-os, chegando à capital da fé. Trazem consigo a poeira das estradas, as marcas dos lameiros e dos córregos, as lanhadas dos caminhos empedrados. Formam comboios, com famílias que vêm ajoelhar-se ao pé do Divino, cumprir votos, agradecer bênçãos, rezar pelos doentes e pelos sãos, numa grande e bela confraternização cristã.

 Por muitos dias, homens, mulheres e crianças alimentam-se frugalmente, dormem ao relento, passam frio sob as estrelas, sentem na pele o sol escaldante. Os moradores da cidade recebem-nos com respeito e alegria: batem palmas à passagem dos carros de bois, saúdam os chegantes com vivas ao Pai Eterno, oferecem água fresca, biscoitos e café. Os peregrinos agradecem, confraternizam rapidamente e seguem em frente, pois o destino primeiro é a Casa de Deus. Mais tarde, romeiros e animais descansarão da longa jornada. Participarão do desfile no carreiródromo e, refeitos da caminhada, visitarão amigos, contarão causos, farão compras e, sobretudo, estarão presentes nas missas, procissões e demais celebrações da Romaria.

Parece outro mundo, este que é balizado pelas patas dos bois carreiros e pela singeleza e alegria dos romeiros, em sua comovedora demonstração de fé.

 (Publicado no jornal “O POPULAR” de Goiânia em 30 de junho de 2018)