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PALAVRAS...PALAVRAS...PALAVRAS...

Nada a ver com Hamlet contracenando com Polônio no salão do Palácio Real de Elsinore: “Words... words...words...” Este é somente um breve comentário sobre a palavra como instrumento de comunicação entre as pessoas.

Há um paradoxo nesse nosso tempo de interlocução instantânea, quando até antípodas se conectam em tempo real. Nos dias de hoje, mais do que nunca os seres humanos sentem-se inibidos de falar presencialmente, ou seja, diretamente uns com os outros, sem a intermediação de um celular ou outra dessas maravilhosas geringonças eletrônicas, que não consigo (nem desejo) dominar. Preferem o artifício das mensagens, espremidas em caracteres racionados e palavras abreviadas, resultando em uma linguagem cifrada e quase ininteligível, ao menos para mim. Até declarações de amor – que requeriam vocabulário florido e redação caprichada - ficam reduzidas a meias frases e meios vocábulos: “Krda t kro mto T amo bjs”.  É isso aí!

Houve um tempo em que predominava a chamada caturrice gramatical, quando as pessoas se esmeravam em escrever e falar de maneira absolutamente correta,  sendo respeitadas todas as regras da concordância e da regência, assim como a perfeita conjugação dos verbos e a exata colocação dos pronomes. O exemplo clássico  - e ridículo – é do ex- professor de Português, Jânio Quadros ao justificar-se por ter feito algo inusitado: “Fi-lo porque qui-lo”.

Não faz muito tempo ganhou espaço a polêmica sobre o ensino da língua portuguesa. Em um livro didático, condenava-se o “preconceito linguístico” contra palavras e expressões erradas, do ponto de vista das arcaicas (?) regras da gramática; de onde tudo seria aceitável, desde que a mensagem fosse inteligível.  Comentou-se o assunto à exaustão, mas depois foi esquecido. Outro tema de viés sensacionalista passou à ordem do dia, na sequência ininterrupta do novo, do estranho, do bizarro e do violento que compõem a pauta da mídia cotidiana.

Enquanto isso, só tem piorado o ensino do Português nas escolas. Fico penalizada de ver o quanto ele é deficiente, em todos os níveis de escolaridade. Isso a despeito de o domínio da língua pátria ser condição primeira para a cidadania. Fernando Pessoa – no Livro do Desassossego - confessa que, desde que não mexessem com ele próprio, não se importaria caso Portugal fosse invadido. O que justifica, afirmando: “Minha pátria é a língua portuguesa.” 

Certo é que nosso belíssimo idioma é difícil, cheio de sutilezas e de armadilhas; mesmo os mais tarimbados cometem deslizes ao manejá-lo. Ao cidadão comum, entretanto, faz-se necessário conhecê-lo e exercitá-lo bem, ao menos no que ele tem de essencial. Estilo, figuras de linguagem, vocabulário erudito – tais requintes ficam para escritores e literatos, dentre os quais alguns estão a escrever mal, muito mal.

De outra parte, até mesmo profissionais de nível superior tropeçam de forma vexatória: como o engenheiro que elabora um laudo de medição de área e ninguém entende; ou o advogado, autor de uma petição ininteligível que é declarada inepta pelo juiz. Isso sem falar no médico que, em péssima caligrafia receitou “Viox” para um velho cliente; o farmacêutico leu (e vendeu) “Viagra” ao ancião atormentado por dores no ciático.

(Publicado no jornal “O POPULAR” de Goiânia em 30 de junho de 2018)