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SOBRE A FEIÚRA

Um dos mais celebrados poemas de Vinicius de Morais - Receita de mulher – traz a exortação: “Que me perdoem as muito feias, mas beleza é fundamental”. Consensualmente, feiúra (ou fealdade) é uma característica dos seres vivos ou inanimados, cuja aparência parece desagradável e resulta numa avaliação desfavorável. O feio não se mostra atraente, mas repulsivo – ou até ofensivo, para aqueles que compartilham dos mesmos valores estéticos e culturais.

Ao contrário da beleza, que é gratificante e desperta empatia, a feiúra pode levar à discriminação. Crianças feias tendem a ser rejeitadas por colegas; filhos feios raramente são os favoritos dos pais. Mulheres e homens de má aparência são avaliados negativamente em entrevistas para empregos; quando os conseguem, recebem salários cerca de quinze por cento inferiores.

Há que ressaltar, contudo, que feiúra e beleza resultam de julgamentos subjetivos: “Quem ama o feio, bonito lhe parece”, diz a sabedoria popular.  No terreno das relações amorosas, por exemplo, o que poderia haver de mais improvável do que a derrota (?)  da belíssima e infeliz Lady Diana para a feíssima Lady Camila Parker Bowles, que deu a volta por  cima e veio a casar-se  com o Príncipe Charles, herdeiro da coroa britânica?

Diz-se que a simpatia é o consolo dos feios. Lembro-me de um velho e sábio amigo, para quem havia dois tipos de mulheres feias: as recatadas e as agressivas, sendo difícil aceitá-las, a estas, até porque no imaginário universal a feminilidade associa-se aos ideais de beleza e harmonia.

Mas há também quem diga que a feiúra pode sublimar-se em força de vontade e cultivo do intelecto. A inteligência pode ser fascinante, assim como a boa conversa e a alegria de viver. A título de consolo, lembremos Umberto Eco – que abordou o tema em excelentes livros –, para quem “é divertido buscar a feiúra, porque a feiúra é mais interessante do que a beleza”. E completa: “A beleza é frequentemente entediante”.

Subsiste, entretanto, certa ditadura da beleza que impõe o culto exagerado à aparência, segundo padrões estereotipados que incluem sacrifícios e renúncias, da privação econômica ao desgaste emocional e físico. O que leva à procura alucinada de cirurgias e procedimentos oferecidos por clínicas clandestinas, onde pretensos especialistas não passam de charlatães. Assim é que, de tempos em tempos, surge um Dr. Bumbum que ganha rios de dinheiro modelando corpos e rostos, à custa de condutas inescrupulosas, quando não criminosas.

Fico a pensar em como deve ser difícil assumir a própria feiúra quando extrema e agressiva – sobretudo para nós, mulheres comuns, no dia-a-dia de nossas vidas rotineiras. Feições perfeitas e corpos esculturais constituem-se em minoria privilegiada; a grande maioria fica no meio termo e vai levando como pode, apelando para cremes e academias, tentando esconder rugas com maquiagem, vestindo roupas que aparentemente emagrecem ou (ao contrário) disfarçam a magreza extrema. Lamentavelmente, ainda não existe remédio para acudir as irremediavelmente feias, ou seja – na expressão popular garimpada no interior de Minas Gerais – aquelas desafortunadas que “sofrem das feições”.

 (Publicado no jornal “O POPULAR” de Goiânia em 28 de julho de 2018)