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O QUE RESTARÁ?

Entre nós, que trabalhamos com a memória e a história, é inevitável a pergunta: o que restará da nossa civilização dentro de alguns séculos? E no próximo milênio?

Uma revista de divulgação científica informa que as cidades situadas nas proximidades de rios e mares têm mais chances de passarem por um processo de fossilização, que preservará indícios importantes da aventura humana. O exemplo mais citado é Veneza, que está afundando; inexoravelmente, será coberta pelas águas e por camadas de sedimentos que a sepultarão. Entretanto, movimentos tectônicos farão com que seus restos voltem a aflorar, permitindo aos arqueólogos do futuro estudá-la.

Na lista daquilo que é mais e/ou menos durável, consta que irão desaparecer rapidamente navios, carros e aviões; moedas e latas de alumínio; televisores e computadores. Entre os objetos de durabilidade média, incluem-se pegadas humanas fossilizadas, roupas, copos de vidro, garrafas pet, móveis de madeira, peças de ouro e – surpreendentemente - papéis. Os de maior longevidade são ossos e dentes, louças e vasos sanitários, edifícios e estradas.

A partir dessa discriminação – a meu ver, incompleta e aleatória - são relacionadas cidades candidatas a deixar algum tipo de vestígio, na perspectiva dos milênios: Veneza, Belém, Nova Orleans e Amsterdã estão na ponta; seguem-se Rio de Janeiro e Paris. Brasília, Manchester e Cidade do México têm chances mínimas de ter algo preservado.

E de Goiânia -  o que ficará, na poeira do tempo? O que encontrará o arqueólogo do terceiro milênio no solo desse velhíssimo platô continental, quando as águas do mar tiverem avançado serra cima, rumo ao Planalto Central?

Ao visitarmos as ruínas de cidades antigas, intuímos os passos dos que transitaram pelas ruas que percorremos. Assim é em Roma, em Pompéia, em Éfeso. Tróia é a sexta das camadas superpostas na colina de Hissarlik; dela, nada resta, senão algumas pedras calcinadas. Entretanto, os versos da Ilíada a recriam, e a cidade ressuscita, graças ao gênio de Homero.

Fico a fantasiar sobre o que restará de Goiânia, dentro de um milênio. Desta cidade amada, que é nosso habitat, local de morada e ponto de encontro.

Suponhamos que se tenha conservado a Estação Ferroviária; de suas ruínas, talvez concluam os especialistas que nossas edificações seriam encimadas por um estranho equipamento, já que desconhecerão o que fosse um relógio. E se o tempo tiver respeitado o arquivo de um jornal (hoje) situacionista? Decodificados os caracteres, ficará a certeza de que uma plêiade de sábios pontificava por aqui, exercendo o poder com justiça e sensatez. Mas se sobreviverem apenas uns tantos exemplares de um periódico oposicionista, nossos pósteros haverão de condoer-se com as injustiças que nos foram impingidas por dirigentes despóticos.

Teria escapado da destruição o monumento da Praça do Ratinho? Como seria entendido? Não faltará quem diga que tal obra de arte serviria para fins de culto religioso – e que, em cada um daqueles espetos, vítimas eram empaladas em oferenda a deuses sanguinários.

De onde se conclui que nos falta um Homero, ou seja, um bardo que cante Goiânia, seus fastos e suas glórias. Teria assim maior veracidade a leitura do que dela restar, dentro de mil anos.

(Publicado no jornal “O POPULAR” de Goiânia em 11 de agosto de 2018)