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FAZENDO AS CONTAS

A idade vai chegando - Tempus fugit, como diziam os romanos. Quase imperceptivelmente, surgem as marcas no corpo e na alma: os cabelos embranquecem, a pele desidrata, as articulações endurecem. O cansaço instala-se e certo amargor trava o espírito.

Apela-se para os recursos possíveis: dos cosméticos aos cirúrgicos, das orações aos divãs de psicólogos e às terapias voltadas para o cultivo da renúncia, da paciência e da aceitação. Além da disposição para atualizar-se e renovar-se. Tudo bem, quando a saúde ajuda e reservas de senso crítico e de bom humor relativizam o que parece errado, feio e vulgar.

Eis que nesse mundo estranho, nós, da chamada terceira idade, somos levados a nos sentir culpados pela nossa vida prolongada. Dados divulgados sobre o crescimento da população idosa no Brasil insistem em que esse fenômeno demográfico é fator determinante do déficit da previdência social e do governo, como um todo, muito embora este seja exercido de forma exemplar pelos beneméritos de plantão.

São tantas as referências ao peso dos velhinhos no orçamento público, que me veio a ideia de fazer um balanço de alguns números em minha (longa) vida. Para começar: desde quando contribuo para a seguridade social? Em verdade, há 69 anos – somando mais de 800 recolhimentos mensais, que continuam mesmo depois que me aposentei, com 42 anos de serviço. Se bem aplicados do ponto de vista atuarial, o quanto somariam tais valores? 

Comecei a trabalhar aos 19 anos de idade, durante o governo do presidente Eurico Dutra, quando a moeda brasileira era o cruzeiro. Mas conheci antes o mil réis; um milhão deles perfazia “um conto de réis” -  algo fabuloso, além da imaginação.

Perdi a conta das moedas com que convivi: cruzeiro, cruzeiro novo, cruzeiro  outra vez. Seguiu-se o cruzado, o cruzado novo e, de novo, o cruzado; finalmente o real. Houve um momento em que ele esteve ao par com o dólar americano – incrivelmente, chegou a valer um pouco mais!

Fui espectadora e vítima de incontáveis planos econômicos. Como  professora assalariada, senti no bolso a desvalorização alucinada da moeda e seus reflexos perversos, certamente ainda piores para os mais pobres. A inflação corria solta, muita gente ganhou dinheiro com a especulação financeira - até que veio o clímax: o confisco das poupanças no governo Collor, em nome da recuperação da economia. Não passou muito tempo e os impolutos agentes dessa (falida) cruzada soçobraram, com o impeachment do primeiro presidente civil eleito, depois dos governos militares.

Nesses anos todos, nós, brasileiros comuns, além do imposto inflacionário que nos castiga a todos, enfrentamos o aumento da carga tributária que é atualmente  de 33,65% do  PIB nacional - e só faz crescer.

Em contrapartida, relativamente ao Índice de Retorno de Bem Estar à Sociedade (IRBES), entre os trinta países que mais pagam impostos, o Brasil mantém-se em último lugar, há oito anos. Ou seja: recolhemos tributos em níveis semelhantes aos de países desenvolvidos; mas a retribuição à sociedade dá-se com serviços de péssima qualidade.

De quem será a culpa de o orçamento público não fechar? Dos nossos competentíssimos administradores e políticos impolutos? Ou dos velhinhos que, com suas aposentadorias, estariam a levar o país à bancarrota?

(Publicado no jornal “O POPULAR” de Goiânia em 25 de agosto de 2018)