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ATÉ QUANDO?

Na Internet, leio mensagem de alguém que se declara feliz com o incêndio e a destruição do acervo do Museu Nacional do Rio de Janeiro. Isso porque o fogo teria feito justiça, ao incinerar edificações, documentos e objetos que diziam respeito às retrógradas elites brasileiras, cuja expressão mais danosa seria a monarquia e o Império. E diz mais o sábio expoente dos que se assumem como progressistas: somente o que se reporta ao povo comum merece ser preservado e valorizado.

Certamente tal entendimento estará restrito a minorias engajadas no desvirtuamento e no falseamento da memória e da história, sob a ótica de ideologias extremadas. Há que se reconhecer, entretanto,  a necessidade de mudanças drásticas na conceituação e na práxis da política cultural vigente em nosso País.  

Em qualquer sistema cultural sua parte mais nobre - e por consequência prioritária - diz respeito a instituições que colocam ao alcance de cidadãos e cidadãs o que de mais valioso produziu e continua a produzir o espírito humano. Estamos falando de museus, bibliotecas, teatros e arquivos públicos, postos a serviço da sociedade. Onde pobres e ricos, homens, mulheres e crianças de qualquer etnia, crença ou nível social possam reconhecer-se no patrimônio comum e na identidade compartilhada.

De longa data, mas, sobretudo, nos últimos anos, tem predominado uma visão destorcida do que seria a prevalência do “novo” sobre o “velho”, representado este por entidades tradicionais, como o Museu Nacional do Rio de Janeiro, um dos mais respeitados do gênero no País. Recursos vultosos vêm sendo aplicados sob a forma de renúncia fiscal de empresas repassada a “projetos culturais”, somando milhões de reais que subsidiam “o novo”, ou seja, shows, gravações, filmes e espetáculos protagonizados por famosos, cujo patrocínio (dispensável) se repete, ano após ano. 

Já os museus, bibliotecas, arquivos e teatros para a apresentação de orquestras e espetáculos de melhor nível e maior complexidade continuam à míngua de recursos. Como aconteceu com o ora pranteado Museu Nacional, que, neste ano da graça de 2018, recebeu da Universidade Federal do Rio de Janeiro (ao qual está vinculado) pouco mais de 50 mil reais para custeio!

Estive no Museu Nacional do Rio de Janeiro, ora como visitante, ora em busca de apoio para iniciativas da então jovem Universidade Federal de Goiás – sendo que alguns dos nossos renomados museólogos e pesquisadores ali se doutoraram. Décadas atrás, levei meus filhos para passearem pela belíssima Quinta da Boa Vista e pelos salões do antigo palácio e moradia da família imperial. Foram momentos alegres, pela fascinação de conhecerem uma múmia, curtirem o esqueleto de um tiranossauro, verem os requintes das roupas e alfaias de imperadores e príncipes. Em outro momento, ali retornei, buscando assessoria e apoio para a  datação de peças de cerâmica ornamentada, encontrada por pesquisadores no Alto Xingu. Em todas as vezes, constatei a competência e amabilidade dos funcionários – mas, também, vi fiação exposta, paredes trincadas, infiltrações que estavam a exigir reparos e manutenção adequada. O que, aliás, é regra geral, inclusive em museus e outras instituições culturais de Goiás.

Até quando continuará a ser assim?

 (Publicado no jornal “O POPULAR” de Goiânia em 08 de setembro de 2018)