Publicações

É PRECISO INSISTIR

As eleições estão próximas, há um frisson no ar. Por ser majoritário, para a maior parte da população o pleito parece algo remoto; não é como a votação de prefeitos e vereadores, quando os candidatos estão ao alcance da vista e até das mãos dos eleitores, dividindo com eles os espaços da cidade. Entretanto, é em Brasília e nas capitais dos Estados que são tomadas as decisões que traçam os rumos do país.

A alternância do poder é essencial para a democracia. Sendo limitada a duração dos mandatos eletivos, pode o cidadão decidir sobre a troca dos grupos no poder. Daí a importância dos programas partidários. Como regra geral, contudo, tais documentos somam obviedades e platitudes, com a proclamação de intenções sublimes em bonitas frases de efeito. Neles, sem exceção, apregoa-se a necessidade de melhorar a educação no Brasil – sem que esse objetivo seja realmente buscado. 

Assim tem sido desde sempre: já na primeira Constituição - a do Império – estabeleceu-se a obrigatoriedade de que, em cada município, existissem escolas de nível elementar. De lá para cá, porém, quando se trata de fazê-las funcionar bem  a realidade é decepcionante.

Toda a gente sabe a posição vexaminosa da educação brasileira nos rankings internacionais de avaliação. Quem o diz não são os políticos de oposição, nem a elite retrógrada, nem a mídia golpista: é a UNESCO através do PISA (Programa Internacional de Avaliação Escolar).

Verdade é que foi quase alcançada a universalização do acesso à escola e cresceu o número de alunos do ensino médio e superior. Entretanto, os concluintes apresentam, em média, baixíssimo aproveitamento, a despeito de algumas ilhas de excelência que, a duras penas, vêm resistindo a tentativas oficiais de nivelá-las por baixo. O que predomina, porém, é o analfabetismo funcional em níveis alarmantes.

Fiquemos no ensino fundamental, que funciona ao sabor de leis às quais se pretende atribuir o poder demiúrgico de mudar sua triste realidade. Como regra geral, ao terminar o 9º. ano, o concluinte mal consegue ler e entender textos simples, não sabe tabuada, nem frações, nem sistema métrico, nem juros. Não é capaz de escrever uma carta ou um mero bilhete sem erros de ortografia e de sintaxe; desconhece o uso de letras maiúsculas e minúsculas, não tem ideia do que seja pontuação; passa longe da conjugação de verbos. Jamais leu bons autores; quando muito, conhece Cazuza e Zeca Pagodinho. E poucos sabem os meses do ano e os nomes dos estados brasileiros!

Entristece-me registrar tal descalabro. A despeito de vultosos investimentos federais, estaduais e municipais que seriam direcionados para a educação, insiste-se em um modelo de escola que – está na cara! – não se mostra eficiente para os alunos, nem para os professores, nem para a sociedade, nem para a economia do país.

Ao falar-se de educação os especialistas privilegiam o debate sobre filosofias e métodos de ensino, equipamentos e papel social/assistencial da escola. Pouco se diz e pouco se oferece dos conteúdos necessários para que o educando possa inserir-se no mundo e na sociedade em que vive. Mas insiste-se em que adquira senso critico e consciência da cidadania – embora não consiga falar (e pensar) com alguma coerência. 

Nessa antevéspera de eleições, esperemos que candidatos façam da educação sua bandeira. Nada de reforminhas parciais, nem remendos: é preciso uma nova escola, que realmente atenda às características do novo alunado e da sociedade do século XXI.   

Não se diga que falta dinheiro. Na Inglaterra pós-guerra, quando se decidiu criar um sistema universal de saúde, contra os pessimistas venceu o argumento de que, se houve meios suficientes para matar alemães, recursos existiriam para a saúde.

Jogamos fora muito dinheiro com corrupção e desgoverno. Chegou a hora de empenhar a alma para bem educar as futuras gerações.

(Publicado no jornal “O POPULAR” de Goiânia em 22 de setembro de 2018)