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ENTERRAMENTO PRIVADO

Leio, na Internet, que na Venezuela está em voga o enterramento privado (sic). Isso porque os venezuelanos, empobrecidos sob o socialismo bolivariano, não dispõem de recursos para pagar enterros tradicionais – se assim se pode dizer.

Algo inimaginável, à luz do bom senso. Mas a vida é feita de situações improváveis, que não se encaixam na rotina nem no juízo comum. Pelo que fico a pensar em como será essa modalidade criativa – ou seria primitiva? – de sepultar os mortos. E me pergunto: como se faria isso no centro das cidades, onde tudo é asfalto, pedra e cimento? No campo ou nas periferias, contudo, não será tão difícil encontrar um terreno vazio, suficiente para receber o(a) falecido(a).

Visualizemos a cena: uma família de classe média baixa, vivendo em uma pequena casa nas imediações da capital. Pai, mãe, dois filhos adultos, uma velha tia doente –  Dona Maruca – santa criatura que,  vem a falecer de uma parada cardíaca. Encontrada morta, há que providenciar o enterro. Não há a mínima condição financeira de contratar uma funerária, ou de comprar um caixão. Com a inflação mirabolante corroendo a moeda, os desacreditados pesos que recebem como remuneração terão de ser poupados para – mal e mal - manter os vivos.

Realista, o chefe de família lembra-se de algo que vem sendo feito em surdina: o enterramento privado. No pequeno quintal haverá espaço para tanto. De início, é preciso enfrentar a despesa extra de comprar o equipamento necessário, uma pá, uma picareta, um carrinho de mão. Mãos à obra: enquanto as mulheres choram e banham o corpo da extinta, pai e filhos põem-se a cavar a sepultura, com nove palmos de fundura.

Haverá que ter cautela para não assustar os vizinhos. Melhor esperar que chegue a noite. No quarto – de janelas cerradas - jaz a defunta sobre a cama, um crucifixo á cabeceira, duas velas a iluminar a cena lúgubre a que não faltam lágrimas e rezas sussurradas.

Concluído o serviço, aguarda-se que a noite se adense e tudo seja recolhimento e silêncio no bairro adormecido. Na falta de caixão, enrola-se Dona Maruca em um lençol, peça nova e cheirosa em respeito à velha tia, que de todos cuidara em sua longa vida de virginal solteirice.

Em seguida, é fechar a cova e calar a boca. Aos que perguntarem, dizer que ela foi passar uns dias com o irmão. Em meio aos afazeres do dia a dia, ao tumulto rotineiro das passeatas, das manifestações políticas, do bombardeio da mídia endeusando o regime chavista – quem irá lembrar-se da Dona Maruca, seus cabelos brancos, seus olhos baços, seu caminhar trôpego?

Sobre a terra revolta do quintal, a grama logo vicejará, algumas rústicas florzinhas crescerão. Para o bem de todos, ficou subentendido que não se falaria da morta, nem do enterramento privado da qual fora silenciosa protagonista. Com um detalhe, se fosse possível protestar, Dona Maruca certamente o faria - e reclamaria de que lhe seria difícil entrar no paraíso. Nenhum padre pudera ser chamado para ministrar-lhe a extrema unção, nem para rezar missa de corpo presente. O chavismo lhe usurpara também os consolos da religião.

(Publicado no jornal “O POPULAR” de Goiânia em 20 de outubro de 2018)