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DE PÃES E BRIOCHES

É conhecido o episódio: no início da Revolução Francesa, multidões miseráveis marcharam até o Palácio das Tulhérias nos arredores de Paris, onde estava confinada a família real. Ao ver que andrajosos entravam no jardim, a rainha Maria Antonieta perguntou:

- O que eles querem?

Uma cortesã solícita esclareceu:

- Eles estão famintos e não têm pão, Majestade.

Ao que a esposa de Luis XVI respondeu:

- Se não têm pão, comam brioches.

Como sabemos, brioches são delicados pãezinhos feitos de farinha de trigo selecionada, ovos e manteiga; servidos ainda quentes, fazem jus à fama da boulangerie francesa. Se os mendigos de Paris não tinham sequer o pão plebeu - de massa inferior e barata – como poderiam eles saciar a fome com brioches?

A sugestão feita por Maria Antonieta evidencia o quanto ela ignorava a seriedade da crise que a França enfrentava, em marcha batida para a Revolução. Dentro de pouco tempo, a guilhotina entraria em ação e milhares de cabeças iriam ser decapitadas, inclusive a da rainha e a do rei.

Lembro tais fatos diante de recentes fatos que evidenciam o quanto uma parcela de políticos e administradores parece ignorar a gravidade da situação econômico-financeira do país, herança dos quatro mandatos petistas que estão a encerrar-se.

Assim é que, derrotados nas urnas, talvez se sentindo magoados e humilhados, parte expressiva dos congressistas resolveram que chegou a hora da xepa, ou seja – a hora de liquidar o que restou por qualquer preço. A eles não preocupa a dramaticidade falimentar das contas públicas; seguirão aprovando pautas bombas despesas forçadas, aumento de salários, perdão de dívidas e benesses que tais. Com o que mostrarão que ainda detêm parcela do poder e que são indiferentes ao que venha a acontecer nos próximos anos. E mais: que se dane o novo governo eleito pelo povo. Para ele e para o país, quanto pior, melhor!

Com raras exceções, poucos se abstêm de dificultar a recuperação da economia, a par da reintrodução da honestidade e da verdade na assim chamada “res publica”. Nada de propor remédios contra a gastança desenfreada, a estagnação e o desemprego; nada de sugerir medidas que venham a assegurar ao menos o pão a todos os brasileiros. Nada de viabilizar o enxugamento dos gastos, até porque seria desastroso para os companheiros comissionados que ainda tentam salvar o pescoço, ante a ameaça de extinção de boa parte dos cargos de confiança.

Afinal, por que deverão preocupar-se com a crise que se agravou durante o segundo mandato da defenestrada D. Dilma Rousseff, e chega aos nossos dias com 12 milhões e meio de desempregados? A partir de 1º de janeiro de 2018, quem assumirá o governo serão os odiados conservadores, apontados como fascistas e nazistas, sem que se diga exatamente o que os caracterizaria como tal?

Para a infeliz e frívola Maria Antonieta, pobres e famintos eram  somnras distantes e incognoscíveis. Em cenário diverso, nossos políticos derrotados nas urnas não conseguem (ou não querem) reconhecer que a alternância do poder é indissociável dos regimes democráticos. Até porque os ardis dos que perderam e os truques dos que não se conformam com isso foram identificados à luz da verdade, expressa na vontade popular.

 (Publicado no jornal “O POPULAR” de Goiânia em 17 de novembro de 2018)