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NA FILA DO BANCO

Afirma-se que o Brasil é o paraíso dos bancos, melhor dizendo, dos banqueiros; nesse quesito, somos imbatíveis e deixamos no chinelo Wall Street, Hong Kong e a City londrina. Neles (nos bancos) funcionários foram substituídos por computadores, que como máquinas, são intrinsecamente burros. Só agem sob comando; se este for minimamente alterado, nada feito! E haja filas!

Nos estabelecimentos oficiais, muitos clientes são obrigados a abrir contas para receber proventos, aposentadorias e pensões. Pessoas com baixa escolaridade, para quem é difícil trabalhar com letras e números, devem digitar senhas, fazer opções e entender códigos – e que o façam rapidamente, porque a máquina está programada para não desperdiçar tempo. O resultado é que nada funciona e as filas emperram.

Multiplicam-se os postos de autoatendimento bancário, separados por paredes de vidro à prova de balas das agências propriamente ditas, onde, empoleirados em plataformas, guardas armados garantem a segurança. São raros os clientes que, depois de desembaraçar-se de temíveis armas (chaves, celulares, brincos, cintos com tachinhas de metal) conseguem ultrapassar a porta rotatória sem o vexame de alarmes indicativos da presença de bandidos. Muitos se irritam diante dos bravos vigilantes; estes, todavia, são boa gente, ainda que alguns não inspirem confiança: de tão desnutridos, passam a impressão de que irão desmaiar ao primeiro entrevero.

Numa tarde chuvosa, fui ao posto de autoatendimento. Cerca de duas dezenas de pessoas faziam fila diante dos terminais que estavam “fora do ar”. Era começo de mês, dia de pagamento. A refrigeração estava no máximo. Uma senhora idosa pôs-se a tossir; outra vestiu o casaco e comentou: “Ainda bem que vim prevenida...”

Havia duas freirinhas na fila. Chamaram-me a atenção, até porque freiras e bancos não combinam entre si. Com voto de pobreza e tendo renunciado às glórias e pompas do mundo, religiosas são o oposto dos bancos e banqueiros, que servem ao deus-dinheiro e tudo o que ele representa: usura, amoralidade, cobiça, poder.

Usando hábitos marrons e véus brancos, as irmãzinhas traziam um rosário de madeira à cintura; nos pés, toscas sandálias artesanais. Uma teria 30 anos, fisionomia séria, postura devota. A outra parecia muito jovem. Rosto de pele clara e feições finas, ela olhava com certo espanto os circundantes, quase esboçando um sorriso. Era toda pureza e curiosidade e parecia divertir-se com o que via.

O tempo passava e nada de os computadores funcionarem. Um funcionário avisou: “O sistema está sobrecarregado e vai demorar a voltar”. Alguém protestou: “Cobram taxas exorbitantes e o serviço é péssimo!” Ao que outro acrescentou: “O que é que funciona direito neste país?”

A chuva continuava forte. Em voz baixa, as freirinhas começaram a recitar o rosário. Alguém perguntou em qual intenção oravam. Ao que a mais idosa respondeu: “Pedimos que a paz reine no Oriente Médio”.

Enquanto se desatavam as cataratas do céu e a tecnologia empacava no excesso de usuários, passamos todos a rezar sob o olhar de um guarda sonolento, rematado expoente de nossa própria guerra tupiniquim.

 (Publicado no jornal “O POPULAR” de Goiânia em 01 de dezembro de 2018)